Cultura, Geral

O Esplendor da Sedução

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Um nu de Modigliani

.

 

Um extraordinário texto de Maria Gabriela Llansol sobre a sedução, em que a sedução da escrita não tem menor intensidade que os ensinamentos de Juan

 

(…)

Todos sabiamos que João terceiro era inábil no amor, e desconhecia como o phallus deslocava a geometria das paixões.

476. –  Que queres em troca, Juan? — perguntou-lhe.

— Nada, príncipe — respondeu-lhe.

— Nesse mar, não sci nadar, Juan — confessou-lhe o príncipe. E, ignorando ambos que as mulheres os estavam ouvindo, Juan perguntou-lhc se gostaria       , a que o príncipe respondeu talvez, depende se o poder não sofre;

Juan aproxima o seu banco da cadeira de João terceiro, e confidencia-lhe – Quando disseres, príncipe, a uma mulher que se dispa, é vital que

saibas o que queres na vontade.

 

477. E calou-se. Depois, continuou – Em amor, e na

sedução, a vontade dc realizar um conceito, é tudo.

– Como em tudo, Juan.

– Sim, príncipe. Mas a maior parte dos homens

não coloca a sedução nesse tudo. Deixa esse trabalho ao sabor do acaso.

– Talvez. É bem possível que tenhas razão.

–  Procuras um corpo que tenha vergonha dc si próprio?. Então olha a mulher que desejas, enquanto  se despe, diante de ti. A vergonha é um

sentimento necessário a esta paixão. Talvez não o saibas, mas sem ela não há corpo.

Repara bem príncipe. Imagina o que te digo.

 

Enquanto se despe, o que ela mostrar, talvez se torne incandescente.  Se for uma mulher experiente, talvez te mostre algumas figuras do corpo que se fecha. Não porque resista, mas como se estivesse só, ou então se masturbasse só para o teu olhar.

479 . Sabes o que isso quer dizer?. Vês o alcance?, perguntou-lhe Juan.  Isso, vê bem, príncipe, quer dizer que o teu olhar entrou nela, embora ainda não saibas por que via. Mas, de certeza, sabe que a posse principiou.

Eu via-os unidos um ao outro, imóveis. O príncipe cofiando, hesitante, a barba, e Juan apostando o seu maior trunfo. Não entendia como se possa ensinar a alguém a sedução, mas o espectáculo de sedução o que eu ali via era magnifico. Juan pôs na mesa outra carta;

 

480. – Mas, príncipe, se desejares alcançar um corpo disponível, não deves agir assim. Não deves olhar a mulher enquanto se despe. Ela vai fazé-lo sozinha, fora do teu olhar. É a tua ausência momentânea que agirá nela. Sentir, tu ausente, que o faz, porque vai dar-se, é outra forma dc paixão. Ela não sabe ainda nem onde a vais tomar, nem o que tomarás dela. Não a deves sequer olhar, quando,

 

 

481 – já nua, ela vier para junto dc ti. Faz durar a ausência, se queres que a disponibilidade aumente dc intensidade.

 

O príncipe olha e ouve, coloca as mãos sobre os joelhos e, pela primeira vez, se inclina. Está aberto, e mede as palavras de Juan, o cortesão, que avança  uma nova carta, mais complexa:   – Há, na realidade, quatro maneiras de possuir a mulher que nos tem na vontade. Pelo olhar, pela ausência, com as mãos e com o phallus. Por esta ordem, príncipe; mas todas intervindo, e todas se compondo.

482.  Cada uma tem a sua natureza própria, correspondendo a paixões especificas. Repara que todos penetram, mas suscitando sentimentos diferentes na alma da mulher desejada e possuída. — E, interrompendo-se de repente, pergunta a João terceiro: — Sabes realmente o que é a vontade? Se não acreditares firmemente, e sem a menor excepção, que na mulher tudo se pode possuir, desde que o seu corpo seja objecto de um projecto do homem, não saberás jamais

483 – o que foi a vontade. Soube logo que Juan, com esta sua pergunta, rompera em seu desfavor, o equilíbrio da sedução que começava a ser-lhe favorável. João terceiro leva a mão à sua barba, e encosta-se na cadeira.

‘ – Sim? — interroga-se, hesitante, 0 príncipe. –  E que posso obter com esses teus quatro ineios? — O seu universo é limitado, mas são eficazes quanto ao objecto a que se aplicam — responde -lhe Juan.

484. – Suspeito que os pobres do feu bando escolheram mal. Mas deixemos isso, por agora. Fala-me do que sabes — pede-lhe João terceiro. Juan desvia o seu olhar de Úrsula, mas nesta a visão esta apagada, desde o inicio do que ouvira. Juan retira uma carta: –  O olhar, príncipe, dirige-se directamente a intimidade,  a ausência suscita a disponibilidade, as mãos criam no corpo as imagens de ouro, o phallus aperfeiçoa a mulher.

485| — Parece-me coerente — opina  João terceiro.   Juan, repondo a sua carta, explica — Quando uma mulher é tocada pelas tuas mãos, ela deve sentir que, no seu corpo, príncipe, não são as imagens de ouro, que ela imaginou, que vão tomar forma no seu corpo, mas as tuas. — Que estranha paixão -— reflecte o príncipe para si. — Sim, é estranha, até porque a mulher se entrega nela a um estrangeiro. As mulheres como sabes, suportam mal as mãos que

486.  – não amam, porque só pelas que amam desejam ser acariciadas dizer Juan, que a bater a sua carta final: — Imagina que, ao partires, elogias as suas ancas. Ela guardará, na tua ausência, esse teu gosto. Enchê-las-á de intensidade e fogo. Ao voltares, podes não a tocar sequer. Mas não a toques nunca noutro sítio do seu corpo. Irias desequilibrá-lo irremediavelmente. Procurarn que o estranho fique de fora. As mãos experientes, só o são se forem as de um estranho, como tal aceite, que lhe tome posse do intimo. Juan vê que João terceiro está perplexo, mas sem deixar que ele se recomponha, avança uma nova carta, para forçar urn equilíbrio a seu favor:

— Que aperfeiçoa o phallus. A resposta é simples, príncipe. O projecto

487. do homem sedutor, ir buscar à mulher o que ela é, ou dádiva; e levá-la a viver só para se dar. Uma mulher dár-se-á toda a ti, no ponto em que a quiseres. Pode ser um oval, um concavo, uma abertura. Ela quererá saber onde a queres, e mobilizar-se-á  totalmente para se concentrar lá, onde a esperas.

488. Moeda como sou, imagino como. com tais palavras, posso vir a reluzir nas memes humanas. Nem tudo o que luz é ouro, mas Juan avança uma carta decisiva:  -— Sabe, no entanto, príncipe, que conforme for a tua escolha, assim a mulher te dirá quem tu és. Acederes a esse saber dependerá  tão somente do poder que manifestares em suscitar nela a tua presença.

489. -— Há uma força de morte no que dizes, Juan ~ observa o principe -—, mas uma força fascinante. -— Vou dar-te um exemplo, príncipe — apressa-se a dizer Juan

 

490- Não, toca-a, ao do leve, nas ancas que disseste apreciar. Ela procurara a prirneira ocasião para tas mostrar. Pede-lhe, então, que se dispa, e olha com intensidade a intimidade que se mostra e verás uma garupa. Mantém alta a intensidade, e ela dir-te-á que és o seu cavaleiro, e logo quererá saber qual é o vosso destino.

491. – Juan interrompe a palavra, e fixa João terceiro. — Se não souberes qual é, saberes quem és ser-te-á mortal. Mais valia nunca teres tido vontade. E cala-se. (…)

 

in “da sebe ao ser” Maria Gabriela Llansol, edições rolim, 1988

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