Álvaro Cunhal, Cultura, Geral

Em Memória e Louvor de Álvaro Cunhal por interposto Shakespeare

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Uma Tragédia Intemporal

 

Rei Lear é, provavelmente, a mais paradigmática obra de Shakespeare. Muito mais que um drama, é uma tragédia. Lear, senhor de enorme sageza e exímio na arte de governar, que tinha ganho com saber e experiência, acaba vítima das suas paixões, da egomania. Cego pela vaidade pessoal decide a sua sucessão o que desencadeia uma tragédia de complexa magnitude em que chocam violentamente o amor, a amizade, a frontalidade, a coragem, a generosidade, a gratidão, o perdão, a hipocrisia, o egoísmo, a traição, a perfídia, a ambição. Uma densa rede de inter-relacionamentos, sociais e psicológicos, magnificamente descrita pelo génio de Shakespeare com profundo sentido crítico da época,  fazendo brilhar o que é melhor e o que vale a pena no comportamento humano. Ver no palco ou na versão cinematográfica de Kurosawa, Ran, é experiência excepcional. Mas ler esta “tradução” portuguesa do Rei Lear é usufruir o raro prazer de uma leitura límpida, como se O Rei Lear tivesse sido escrito em português, sem trair ou desvirtuar o espírito da obra do grande dramaturgo. A tradução (1953-1956) é de Álvaro Cunhal, a que se devem também as notas que iluminam, histórica e socialmente a tragédia. Feita nas condições duríssimas da sua reclusão, quando viveu onze anos de rigoroso isolamento na Penitenciária, burlando a vigilância policial traduziu e fez passar para o exterior em segredo o seu notável trabalho. No ano em que se celebra o Centenário de Álvaro de Cunhal, é da maior justeza lembrar o notável intelectual, o homem de cultura, o artista que Álvaro Cunhal foi transpondo as fronteiras da área de actividade em que foi mais conhecido enquanto político, revolucionário, um dos mais importantes teóricos do marxismo-leninismo. Esta versão do Rei Lear, as notas são exemplares e demonstram, como isso fosse necessário, a enorme estatura de uma dos maiores políticos e intelectuais portugueses.

 O Rei Lear

William Shakespeare

Editorial Caminho

Tradução e Notas Álvaro Cunhal

Capa: José Serrão com desenho de Álvaro Cunhal

2ª edição Setembro 2002

1ª edição Tipografia Scarpa (em fascículos de 1961-1966)

tradução de Maria Manuela Serpa (nome escolhido pelo editor para ocultar o do tradutor)

( texto publicado no Guia de Eventos de Setúbal Maio/Junho 2013)

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3 thoughts on “Em Memória e Louvor de Álvaro Cunhal por interposto Shakespeare

  1. Manuel Augusto Araujo diz:

    Cometi uma omissão imperdoável ! ESta edição do Rei lear tem um prefácio de Luís Sousa Rebelo, Emeritus Professor do King´s College, onde era um dos mais destacados linguistas e filólogos entre a pleiade de professor dessa prestigiad
    issima Universidade.. Homem de raro gabarito intelectual.que, acabadas as aulas, ia cobrar militantemente as cotas dos seus camaradas. Acabada essa tarefa e outras reuniões políticas. retornava às suas investigações Um homem com três metros de altura!!!

    Gostar

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