Geral, Política

As Vozes Encantatórias

Guardians of the SecretAlguém que não recordo o nome, veio encantatoriamente falar do poder da palavra e da voz encantatória do novo Papa. Referiu a necessidade de vozes encantatórias neste mundo ocidental actual e também em Portugal.

A mesma voz encantatória foi tecendo outras considerações que me fizeram pensar uma vez mais nos perigos que vamos correndo se não soubermos ouvir atentamente as vozes encantatórias que por aí começam a brotar e as desconstruirmos com lucidez e serenidade.

Preocupam-me as palavras proferidas tais como faltam líderes carismáticos à altura dos desafios europeus, faltam vozes encantatórias que levantem a esperança!

Mas todo esse discurso é terrivelmente vazio (encantatório) sobre as questões fundamentais, profundas, dos problemas que afectam a grande maioria dos trabalhadores e dos povos europeus e das suas causas reais.

Aristóteles referiu-se à importância da linguagem, da palavra, para que o homem se tornasse um animal político, isto é, social e cívico, mas também acrescentou que o homem com a palavra exprime não só o bom e o justo como o mau e o injusto.

Platão disse que a linguagem é um pharmakon, palavra que possui três sentidos principais: remédio, veneno, cosmético. Assim, a linguagem pode ser um remédio e servir para comunicar/conhecer, mas pode ser também um veneno quando nos faz aceitar seduzidos pelas palavras o que ouvimos sem nos questionarmos se são verdadeiras ou falsas e pode ser ainda, mais perigosamente, uma forma de ocultar ou dissimular a verdade sob as palavras. E sê-lo-ão tanto mais quanto mais encantatórias forem, isto é, quanto mais fascinantes e sedutoras se tornarem.

Este poder encantatório é usado nos mitos, nos rituais religiosos, na feitiçaria, nas histórias infantis e, mesmo, na poesia.

As crianças reconhecem o seu poder encantatório nos contos e nas histórias. Seremos, estaremos nós tão aptos a decifrar o encantatório dessas vozes que nos dizem ser tão necessárias?

O que é isso de Francisco, o Papa vir repor a autenticidade da Igreja? Depois de Constantino, alguma vez mais a Igreja foi autêntica no sentido de se aliar aos que sofriam, labutavam e, afinal, também rezavam? Não estiveram eles sempre órfãos dessa autenticidade?

Qual é, afinal, a autenticidade da Igreja neste pretenso propósito de se lavar dos seus tantos pecados?

Que mais vozes encantatórias irão surgir para nos envenenar, resignar e fazer aceitar a inevitabilidade austeridade e dos cortes brutais, do desemprego galopante na Europa e em Portugal, das mortes evitáveis, do empobrecimento de milhões de seres humanos, muitos dos quais morrem de fome? Do sofrimento, das marcas que ficarão para sempre, irremediáveis no sentido de que nunca poderão ser esquecidas nem expurgadas?

Ah!

Finalmente, recordei-me do nome desse alguém: Adriano Moreira que, em 1961, reabriu o campo de concentração do Tarrafal para lá encafuar os prisioneiros africanos da guerra colonial. Sim, era Ministro do Ultramar de Salazar.

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