Política

Encenações

mascaradosPolítica e teatro têm muito em comum. Infelizmente algumas das principais encenações políticas a que temos assistido ultimamente são bastante medíocres, destinando-se apenas a esconder o óbvio – o completo fracasso do chamado programa de “ajustamento” e a desorientação dos governantes.

Atenhamo-nos às encenações mais recentes.

Tribunal na fogueira

O “chumbo” de quatro normas do orçamento do Estado para 2013 pelo Tribunal Constitucional não foi sequer uma surpresa. O aviso já vinha de semelhante declaração em normas orçamentais de 2012, embora o Governo tivesse então beneficiado do “bónus” de as respetivas consequências financeiras não terem aplicação prática – ao invés do agora acontece.

O TC foi rapidamente transformado, pasme-se, no responsável pelo previsivel falhanço da recuperação económico-financeira do país. Para acentuar o dramatismo e pressionar o Tribunal, Passos Coelho havia já anunciado que não haveria plano B – viu-se agora o quanto isso era pouco avisado ou mesmo falso. Pouco faltou para o TC ser atirado para a fogueira pelos partidos da maioria parlamentar e pelos seus diligentes comentadores televisivos. Curiosamente numa decisão em que não se manifestou a tradicional distinção entre juízes de esquerda e de direita.

Com o país suspenso das palavras do primeiro-ministro, Passos Coelho anunciou em tom dramático e solene que iria deslocar-se em peregrinação ao Palácio de Belém. Assim o fez, com os resultados pífios que se viram – alguém verdadeiramente esperaria que o seu compagnon Presidente Cavaco Silva retiraria a confiança a um primeiro-ministro que, por duas vezes, violava de forma tão grosseira a Constituição que ele, Cavaco Silva, jurara cumprir e fazer cumprir?

Mas a encenação produziu os seus efeitos: para os espectadores menos atentos os juízes do TC eram uns irresponsáveis.

Quereriam o quê? Que o Tribunal Constitucional prescindisse do exercício das suas funções e deixasse passar inconstitucionalidades flagrantes? Até parece a estória do criminoso que acusa o juiz dos crimes que ele próprio cometeu. Que gente mais insana e perversa!

Pas de deux

Perdidos e atordoados pelos seus sucessivos falhanços e por terem atirado a economia para o fundo – nem sequer podem culpar a oposição, minoritária no parlamento, enquanto beneficiam ainda de um plácido mas ameaçador “sossego” social – aparecem-nos agora com uma outra encenação. A encomenda foi certamente dos credores.

A narrativa encomendada é agora a de retomar o casamento entre o PS e o Governo, tendo por primeiro e último fim convencer os portugueses a aceitarem pacificamente e sem resistência a continuação do massacre e do descalabro resultantes da aplicação do memorando com a troika.

É verdade que chegou a haver casamento, mas os cônjuges cedo se começaram a afastar. A. José Seguro deixou de ver vantagens em continuar uma relação de saldo negativo, isto é, não estar no Governo e não ter as vantagens de ser oposição. Por isso tudo tem feito para o divórcio, até uma moção de censura… atada a uma carta de “conforto” para os soberanos poderes europeus.

O outro cônjuge, Passos Coelho, também de há muito que se desinteressou do romance. Com pouca paciência para aturar as “necessidades de ser oposição” do seu parceiro, deixou de com ele conviver, tendo-lhe mesmo feito algumas desfeitas, deixando de o convidar para chá e bolos.

Mas os padrinhos FMI, BCE e UE estão renitentes e chamam-nos agora à razão. À razão deles, padrinhos, entenda-se. Tratam pois de tentar levar os socialistas ao redil. A ver vamos o resultado. Mais uma vez A. J. Seguro quer ter um pé dentro, ser fiel ao memorando e ao programa de “ajustamento”, e ter o outro pé fora, ser oposição e capitalizar votos. Vai ter escolher.

E lá esteve o país suspenso de tanta emoção!

Estamos num beco sem saída. Enquanto o FMI-bom já avisou urbi et orbi que a persistência em políticas de austeridade na Europa apenas acentua a crise e a recessão, o FMI-mau, com a UE e o BCE à sacola, manda carregar na austeridade, na recessão e no afundamento da economia e do país. Pelo meio um Governo desacreditado, abatido pelos sucessivos falhanços, corroído internamente e incapaz de ver a realidade e de se assumir como o representante do povo que o elegeu.

E, também já todos percebemos, que a receita concebida pelas luminárias da troika, tão diligentemente levada à prática pelos seus “bons alunos” portugueses, é um fracasso total: a dívida, o desemprego e os impostos continuam a aumentar, o PIB e os rendimentos a diminuir, etc, etc.

É que com maus professores e maus programas é muito, muito difícil haver bons alunos.

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