economia, EDP, Política

Que reindustrialização com estes preços da energia?

IMG_0067Desde meados da década de 80 do século XX assistimos, sob a batuta de responsáveis políticos dos partidos do designado arco do poder, em sintonia com a banca comercial e de investimento e, ainda, com o acordo de parte dos dirigentes das principais confederações empresariais, à destruição paulatina da nossa capacidade produtiva industrial.

Capacidade que, aliás, só muito tardia e insuficientemente tinha sido criada em Portugal, pois até aos anos 50 nos tínhamos quedado numa modorra salazarista, corporativa e rentista, só agitada pelo movimentos dos industrialistas do regime, apesar de tudo inconformados.

Para que tudo tivesse uma imagem moderna e racional houve lugar, depois da adesão portuguesa à CEE, a um profuso foguetório de teses “científicas” sobre uma nova era em que teríamos entrado, na qual, os serviços, o turismo, a logística, as redes, o know-how, o imaterial, etc., eram as coisas que melhor teríamos para oferecer ao mundo. Tudo o resto, industria, pescas e agricultura eram antiguidades próprias de canhestras mentalidades, diziam.

Os indispensáveis comentadores, especialistas e catedráticos, afadigaram-se durante décadas, porventura sob o estímulo de apetitosas remunerações, a avalizar o novo paradigma.

Mas, eis que, como por milagre, no auge da crise brutal que assola o país e a Europa, o ministro da economia descobre que, afinal, sem valor acrescentado industrial o país não chegará a lado nenhum.

Vai daí, de maneira revolucionária, não esteve com meias medidas e nomeou um grupo de sábios que o ajudará a encontrar resposta para “un petit problème “do seu programa: saber qual é a indústria indicada para o país no princípio do século XXI!

E nós, tristes ignorantes, a pensar que o melhor seria, por exemplo, não destruírem os estaleiros de Viana do Castelo, ou não terem acabado com as indústrias que agora poderiam estar a produzir as máquinas para o programa de aproveitamentos hidroelétricos.

Não, o inenarrável Álvaro Santos Pereira acredita que em cima da mesa estão coisas superlativas: a matéria fiscal (agilizada), as formas de licenciamento (na hora), uma concorrência (transparente), um financiamento (sustentável), e, sobretudo, montes de clusters prioritários. Temos homem!

Entretanto, e como não poderia deixar de ser, já se fizeram ouvir vozes pondo em causa o “regresso à indústria”. Quando se faz um par de sapatos, aquilo que vale é o desenho ou o amaciar do cabedal, perguntam estas inteligências angustiadas!

Quando se sabe que o peso da indústria transformadora no PIB Nacional caiu de 26% em 1990 para 13,4% em 2011, muito abaixo da média europeia (20%), do que estamos precisados é mesmo de mais um debate bizantino!

Ainda acabam por chamar o Porter para, de novo, dizer por onde devemos ir.

Será muito complicado perceber que os produtos com alta incorporação tecnológica não são incompatíveis com a existência de metalomecânicas, ou com a exploração racional dos recursos do mar, ou com a valorização dos produtos da floresta, ou da vitivinicultura, ou, ainda, com a produção cultural e científica?

Daquilo de que não poderemos ter dúvidas é que, sem trabalho qualificado, sem organizações económicas competentes e sem energia disponível a preços competitivos, não sairemos da cepa torta.

Ora, é necessário dizer que a deriva neoliberal que impregnou, ao longo das últimas três décadas o setor energético português, falando sempre muito na liberalização, na concorrência e no MIBEL, determinou que os preços da energia, designadamente os da eletricidade, chegassem a níveis que, para grande parte das empresas industriais, são incomportáveis com as suas atividades, principalmente se quiserem exportar.

Por exemplo, na gama de consumos IC (entre 500 e 2 000 MWh por ano), poderemos verificar que a eletricidade já é muito mais cara do que nos seguintes países: Finlândia, Áustria, Luxemburgo, Polónia, França e Bélgica como poderemos ver no gráfico.

Preço de eletricidade

Para o gás natural as comparações são ainda mais adversas.

Quanto aos consumidores domésticos, que seria suposto comprarem os produtos transacionáveis, estão esmagados por preços de eletricidade e gás que os descriminam negativamente no contexto europeu.

Assim, reindustrializar como?

Nota: Uma versão reduzida deste artigo foi publicada no jornal Sem Mais de 23 de março.

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2 thoughts on “Que reindustrialização com estes preços da energia?

  1. Manuel Augusto Araujo diz:

    Excelente, como é normal, artigo. Num comentário curto os que agora falam ou voltam a falar na indústria, agricultura e pescas são os mesmos ou têm a mesma raiz que, como bem dizes, paulatinamente as destruíram em nome de uma pseudomodernização. Continuam a pensar que os mercados em roda livre regularão os factores de produção. O único factor de produção sobre que o Estado actua, com inaudita ferocidade, é o que percentualmente menos peso tem: a mão-de-obra.
    Podemos ter uma certeza, enquanto não se traçarem planos a médio e longo prazo, em que o Estado intervenha directamente sobre os factores de produção e as condições de financiamento a industrialização, a recuperação do sector primário serão uma miragem, uma piedosa e declaração de intenções. Perante tanta incompetência e cegueira ideológica e económica, quase temos saudades dos Planos de Fomento. Pelo menos tinham um objectivo claro mesmo que esse objectivo fosse favorecer o grande capital. Agora favorece-se o grande capital favorecendo a especulação. Tempos pós-modernos!!!

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  2. Luis Almeida diz:

    É só incoerências. Este governo é uma fraude ! Aliás, este sistema é uma fraude,
    Se nos unirmos para o derrubar, trata-se de legítima defesa ! É bom ouvir alguém falar do que sabe, Demétrio. Ainda por cima me “obrigou” a consultas para saber o que é o MIBEL…

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