poesia

A Portugal (…ainda o Dia da Poesia)

festival J. Abel Manta

O Portugal dos Festivais, noutras épocas. Cartoon de João Abel Manta.

A Portugal

Esta é a ditosa pátria minha amada. Não.
Nem é ditosa, porque o não merece.
Nem minha amada, porque é só madrasta.
Nem pátria minha, porque eu não mereço
A pouca sorte de nascido dela.

Nada me prende ou liga a uma baixeza tanta
quanto esse arroto de passadas glórias.
Amigos meus mais caros tenho nela,
saudosamente nela, mas amigos são
por serem meus amigos, e mais nada.

Torpe dejecto de romano império;
babugem de invasões; salsugem porca
de esgoto atlântico; irrisória face
de lama, de cobiça, e de vileza,
de mesquinhez, de fátua ignorância;
terra de escravos, cu pró ar ouvindo
ranger no nevoeiro a nau do Encoberto;
terra de funcionários e de prostitutas,
devotos todos do milagre, castos
nas horas vagas de doença oculta;
terra de heróis a peso de ouro e sangue,
e santos com balcão de secos e molhados
no fundo da virtude; terra triste
à luz do sol calada, arrebicada, pulha,
cheia de afáveis para os estrangeiros
que deixam moedas e transportam pulgas,
oh pulgas lusitanas, pela Europa;
terra de monumentos em que o povo
assina a merda o seu anonimato;
terra-museu em que se vive ainda,
com porcos pela rua, em casas celtiberas;
terra de poetas tão sentimentais
que o cheiro de um sovaco os põe em transe;
terra de pedras esburgadas, secas
como esses sentimentos de oito séculos
de roubos e patrões, barões ou condes;
ó terra de ninguém, ninguém, ninguém:
eu te pertenço. És cabra, és badalhoca,
és mais que cachorra pelo cio,
és peste e fome e guerra e dor de coração.
Eu te pertenço mas seres minha, não

Jorge de Sena (1919 – 1978)
Araraquara Dezembro 1961, publicado in “Quarenta Anos de Servidão” (1979)

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One thought on “A Portugal (…ainda o Dia da Poesia)

  1. Luis Almeida diz:

    Jorge de Sena ( de quem conheci pessoalmente a viúva ) tinha muitas e fundadas razões para sentir o que diz no poema. Eu próprio, perplexo pela incapacidade do povo para assumir o seu destino nas suas mãos ( não é isso, no fundo, ser-se emancipado ?) me apetece, as vezes ” mudar de povo”, já que não consigo acordá-lo para a neecessidade de mudar de sistema…
    Acontece, porém, uma coisa: nenhuma revolução, que tenha REALMENTE triunfado, se fez com seres ideais, conscientes, lúcidos ( no sentido de perceberem, por exemplo, a simples relação causa-efeito que há entre fazer a cruzinha no boletim de voto, dobrá-lo e introduzi-lo na ranhura da urna e a dozagem, de deputados que passarão leis contra ou a favor dos seus interesses… ). Todas, sem excepção, foram feitas, com o “material humano” REALMENTE existente !
    Além disso, a Pátria, é muito mais minha, que a pago, que “deles” que, não só não a pagam como me me poõem a mim a pagar a que a “eles” competia…

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