Cultura, Geral

Um Acontecimento Cultural Relevante

Já é publico! O blog Sintra do Avesso de João Cachado deu a notícia, julgo que em primeira mão. O valioso e excepcional espólio de Bartolomeu Cid dos Santos, mais de 3600 obras dele, de seus amigos, de seus alunos, dezenas de milhares de fotografias ( começou a tirar fotografias quando com 14 anos foi a Paris com o seu avô, o médico, crítico e historiador de arte Reynaldo dos Santos, atravessando uma França devastada pela guerra, nunca mais parou ) , as chapas metálicas que gravou ao longo da sua vida de artista, documentos e diários onde registava a sua actividade, as suas ideias, as suas críticas. Um acervo muito especial que será uma mais valia para estudiosos, interessados e todos os outros que despertarão para o mundo das artes ao visitarem o Casino de Sintra, onde o espólio ficará depositado e será exposto..

Bartolomeu Cid dos Santos é um artista cuja obra de gravura é das mais importantes no mundo. Além de renomado artista foi um notável pedagogo que introduziu novos processos de ensino na Slade School of London, onde leccionou durante mais de 35 anos e nas inúmeras escolas de artes onde foi professor convidado. Paralelamente reorganizou as salas de trabalho de gravura que continuam a ser um paradigma mundial.

Bartolomeu era um homem de vastíssima cultura, um amigo inesquecível, um homem de inúmeras qualidades.

A instalação do espólio de Bartolomeu Cid dos Santos em Sintra, que ocorrerá nos próximos meses é, como diz João Cachada, “sem qualquer margem de dúvida, o maior acontecimento cultural dos últimos anos nesta terra e o mais marcante em Sintra”. Associamo-nos igualmente ao que João Cachado acrescenta saudando os dois autarcas que se empenharam pessoalmente neste processo “Fernando Seara e Pedro Ventura tudo fizeram no sentido de que Sintra e Portugal ganhassem o que outras terras nacionais e estrangeiras estavam cobiçando com tão natural e justificado propósito. Naturalmente, é para eles que vai o meu mais forte e caloroso abraço de parabéns.”

Para celebrar este acontecimento fui repescar um texto que escrevi para o catálogo da que acabou por ser a primeira exposição póstuma de Bartolomeu, começada a preparar ainda em sua vida, inaugurada na Casa das Artes de Tavira, no dia em que as suas cinzas foram deitadas ao rio Gilão. Exposição de imenso significado simbólico porque desde que se jubilou da Slade School, a sua vida em Portugal dividia-se entre Sintra, onde tinha casa desde que iniciou a sua carreira de professor em  Londres, e Tavira onde,  em parceria com a Casa das Artes de Tavira e a Fundação Gulbenkian, montou uma atelier de gravura, actualmente a OBS-Oficina Bartolomeu dos Santos que vai continuar o que ele ali tinha iniciado.

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NO CORAÇÃO DO MUNDO

 

Is this Art? Interroga Bartolomeu sabendo-se a encenar uma provocação enquanto manipula papéis que recupera das prateleiras da memória, agarra objectos em acasos construídos em anos a afinar o olhar para os encontrar, faz o inventário dos golpes da luta corpo a corpo com a vida quotidiana. Trabalha, trabalha muito que a vida é uma viagem sem regresso. Uma aventura entre sortilégios que iluminam a linha que um dia será abruptamente cortada. Irá viver essa dor, mas não pára de trabalhar porque sabe que tem e que terá sempre dentro de si a força necessária para fazer o vento soprar “ a música suficiente para fazer dançar a vida “. (*) Produz gravuras, pinturas, caixas onde deposita elaboradas criações artísticas depois de entrar e sair dos cubos brancos onde se arquivam os ready-made, pondo cada pé em cima das pegadas de Duchamp para baralhar pistas e voltar ao labirinto dos labirintos, ao seu labirinto, onde dá objectividade às suas fantasias, escava a imaginação para plantar uma linguagem, a sua linguagem, trânsitos do material para o espiritual, do vulgar para o poético. Frondosa árvore de raízes bem fundas, bem firmadas na terra, sempre virada para o sol que não lhe desenha sombras.

Os seus olhos, limpos com os colírios de Borges, vêem o que só a alguns é dado ver, aquele objecto secreto e conjectural cujo nome os homens usurparam, mas que nenhum homem olhou: o inconcebível universo. (**) Realiza obras para nos fazer ver o ponto para onde convergem todos os pontos, rodando no mesmo eixo o tempo exterior padronizado, medido normativamente, e o tempo interior que se mede idiossincraticamente com a razão e com a paixão. A pulsação da vida, a luta por um mundo outro, as paixões, as amizades, os mapas das viagens materiais e imateriais, tudo metido no seu acelerador de partículas registando os resultados dessa busca sem fim, ne pas effacer, do aleph.

Aleph, microcosmos onde Bartolomeu implantava a sua oficina, o atelier que o acompanhava de Londres a Tavira, Sintra e outras partidas do mundo, onde apurava as minúcias do trabalho técnico para dominar os meios de expressão. Onde acumulava inumeráveis experiências vividas. Apreendia e reelaborava saberes, saberes – fazer. Tudo substâncias perigosas que observava, analisava, inventava, misturava no almofariz da imaginação para fazer explodir a banalidade, experimentar voos que aterravam em suportes variados, que se fixavam em coisas cuja estranheza nos deslumbra e a que chamamos obras de arte. Obras de arte que recusam a perfeição. Incorporam defeitos, incertezas, incompletudes que brilham longe, muito longe da decadência das artes comissariadas para glória do bom comportamento das estéticas de fragrâncias, normalizadas, suportadas pelo marketing cultural.

Aqui estamos no território das transformações violentas das relações com o mundo, o tempo, a liberdade. Não há lugar para a hortaliça das composições académicas, por mais que se ocultem debaixo das vestimentas rococós de ocas pós-modernidades repetitivas, cinzentas, congeladas, pronto-a-ver que se vende por grosso.

Aqui a imaginação reclama-se tanto da sua função social como da sua faculdade individual. Tem as asperezas da lucidez dos mistérios que não se resolvem. Is this art? I do like it!.

 

                                                                                  Manuel Augusto Araújo

(*) Céline

(**) Jorge Luís Borges

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