Internacional, Política

Lições italianas

l43-pierluigi-bersani-silvio-121221180659_bigA vitória tangencial e amarga da coligação de esquerda centrista, o estrondoso sucesso das listas do comediante Beppe Grillo e o regresso do inefável Berlusconi provaram que as eleições não eram “favas contadas” – os italianos exprimiram claramente que não querem uma austeridade destruidora e que muitos não se reconhecem no actual sistema partidário do país. E como seria por cá?

A lista de M. Monti (Con Monti per l’Italia, 10,5%,), o candidato preferido pelos poderes dominantes na Europa, viu-se relegada para o quarto lugar, enquanto a vitória da esquerda centrista no parlamento (coligação Partido Democrático, Esquerda, Ecologia e Liberdade e outros, 29,5%) tem um travo amargo dado o contraponto berlusconiano no senado. Berlusconi (29,1%, coligação de direita Povo da Liberdade e Liga Norte) vinga a sua humilhante substituição por M. Monti à frente do governo italiano, imposta pelos maiorais europeus.

O fenómeno Berlusconi entranhou-se na Itália nas duas últimas décadas. Um “fascínio” a que não será estranha a poderosa rede de meios de comunicação social (Mediaset) de que o magnata dispõe e que controlam o grosso das audiências televisivas. Ele próprio é um caso mediático que continua a cativar parte significativa do eleitorado, apesar dos sucessivos atropelos democráticos da sua prática governativa. Das festas “bunga bunga” aos permanentes conflitos com a Justiça, passando pelo modelo noticioso das suas televisões.

O movimento 5 Estrelas do comediante B. Grillo foi a formação mais votada (25,5%), se considerada as votações lista a lista. Foram porventura os verdadeiros vencedores, já que poderão influenciar qualquer solução. Qual será ela? não é fácil de descortinar.

Europa do SulNós por cá todos bem?

A austeridade que recai sobre os italianos está longe de se poder comparar com a que afecta os portugueses. Mas as politicas aplicadas pelo governo italiano são basicamente semelhantes às aplicadas a Portugal. Assentam no primado absoluto de controlo de deficit – “doa a quem doer” e que, também por cá, tem dado os péssimos resultados conhecidos.

Qual será o comportamento dos portugueses quando forem chamados a eleições?

Um – A rua. Em 15 de Setembro do ano passado o povo saiu à rua numa manifestação cuja dimensão (quase) ninguém suspeitaria que pudesse vir a acontecer. Outras grandes manifestações promovidas pela CGTP-IN mobilizaram muitos milhares de pessoas. Mas o 15 de Setembro, pela sua dimensão e carácter “inorgânico”, ficou na história. No dia 2 de Março terá lugar mais uma grande manifestação cívica. Será uma segunda edição, revista e ampliada?

Dois – Não se desenhou até agora na arquitectura politica nacional qualquer expressão fora da esfera dos partidos. Mesmo que seriamente corroído e desacreditado o velho sistema partidário aparenta saúde, regressando ao seu ram ram habitual, agora que o PS se apresta a fazer esquecer a sua assinatura no memorandum de entendimento com a troica.

A acreditar nas sondagens, também o velho rotativismo se mantem de pé. Nada de novo se prevê, por ora, no plano táctico-estratégico: um PS centrista continuará a reinar sobre aquele que é o cenário da sua maior conveniência – uma esquerda (PCP e Bloco) incapaz de se constituir conjuntamente como uma alternativa eleitoral atractiva, credível e aberta aos cidadãos. No outro lado do espectro uma direita pragmática e que facilmente se coliga nas autarquias como no país.

“Tudo como dantes no quartel de Abrantes!”. Seguro será primeiro-ministro… só não sabe quando (onde é que já ouvi isto?). Só terá que chegar às eleições.

Três – Ao contrário de Portugal, a Itália assistiu nas duas últimas décadas à reconfiguração do seu sistema partidário: da velha dicotomia Democracia Cristã-Partido Comunista, pouco sobrou. A Democracia Cristã, que hegemonizou a vida política italiana durante décadas, estilhaçou-se envolvida em escândalos e viu a maior parte do seu espaço político ocupado pela direita berlusconiana. A maioria do antigo PCI, extinto em 1991, deu origem ao PDS (partido democrático da esquerda) e mais tarde, após diversas metamorfoses e sucessivos processos de entendimento político, ao atual Partido Democrático, que agora chega (?) ao poder.

Apesar das múltiplas reconfigurações do tecido político italiano, o adensar da crise económica, com a imposição de mais e mais impostos e a quebra dos principais indicadores económicos, indispuseram uma parte muito significativa dos italianos com os seus políticos.

Não se divisa hoje qual a tradução politico-partidária e eleitoral dos profundos movimentos sociais que por estes dias correm pelos subterrâneos da sociedade. Só nos resta esperar para os ver surgir à superfície. É uma questão de tempo.

Anúncios
Standard

Comente aqui. Os comentários são moderados por opção dos editores do blogue.

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s