Cultura, Geral

um livro de vez em quando: A ETERNIDADE do EFÉMERO

Image   “O Lago” poderia ser uma banal história de amor entre três pessoas. O clássico triângulo amoroso. Um caso de adultério platónico em crescendo até se tornar real. Ana Teresa Pereira escapa a esse quadro vulgar escrevendo de facto um romance sobre o amor.

Uma personagem central, Jane, bailarina com carreira frustrada por uma queda, procura reencontrar-se com o palco, desdobrando-se em inúmeras personagens que não ultrapassam a mediania. Vai a uma audição, mais uma. Com alguma surpresa é escolhida para interpretar o texto de um homem e uma mulher em confronto. O encenador, autor do texto, vai-se apropriando de Jane, que ensaia intensamente, sempre com medo de se perder. Começa a viver com Kevin, o actor que com ela contracena e é amigo do autor/encenador. O palco vai invadindo a sua vida. Na noite de estreia tem finalmente o êxito que sempre desejara. É também mais um êxito do autor/encenador, Tom, que, nesse dia, a recupera dos braços de Kevin. Vão viver para uma casa isolada que ele tem entre montanhas ao pé de um lago. Com o avanço do inverno esse universo torna-se quase claustrofóbico.

Enquanto a neve os isola, ela é cada vez mais ela e cada vez mais a personagem que interpretou e irá interpretar. Ele é cada vez mais ele e o encenador dela, com o prazer indisfarçável de Pigmaleão. O que parecia ser a história de um triângulo amoroso ultrapassa essa perspectiva. O que parece um universo fechado sem remissão abre-se e liberta-se com as primeiras flores que anunciam a primavera.

Todas as hierarquias são subvertidas, subordinadas à verdade de cada par de amantes: “Eram actores profissionais e a paixão tornava-se fácil de representar. O mundo é um palco e eles tinham consciência disso. No fundo, muito no fundo, sentiam-se superiores às outras pessoas. Porque eles sabiam que era só uma peça (…) Não, nenhum deles criava algo para ficar. Estavam de passagem e não deixavam marcas. A única forma de serem eternos.”

Ana Teresa Pereira contamina todo o romance com um amor eterno, paradoxalmente efémero, vivido por cada uma das personagens que o vão partilhando, ocultando-o e desocultando-o. Um belo romance desta escritora que recusa os palcos mediáticos.

( publicado no Guia de Eventos de Set+ubal Janeiro/Fevereiro 2013)

Anúncios
Standard

One thought on “um livro de vez em quando: A ETERNIDADE do EFÉMERO

  1. Lamento não conseguir deixar o meu “gosto” mas a password foi alterada, ao que parece, por alguém que não eu própria…

    Maria João – Pequenasutopias

    Quoting Praça do Bocage : > > > > Manuel Augusto Araujo posted: ”   “O Lago” poderia ser uma banal > história de amor entre três pessoas. O clássico triângulo amoroso. > Um caso de adultério platónico em crescendo até se tornar real. Ana > Teresa Pereira escapa a esse quadro vulgar escrevendo de facto um > romance sobre o amor” > > > > > >

    Gostar

Comente aqui. Os comentários são moderados por opção dos editores do blogue.

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s