Geral

Um génio do nosso tempo/Um camarada de sempre

Oscar Niemeyer não comemorou os 105 anos, que faria em 15 de Dezembro, como gostaria e como o fez no ano passado, no seu atelier a trabalhar, a festejar com os amigos, desenhando e bebendo um copo de bom vinho. Na realidade a viver a vida que, como sempre afirmou, é o que mais importa.

Image 12172

(…) Sempre acrescentei nas minhas palestras que não dava à arquitectura maior importância, e não havia nada de desprezo nas minhas palavras. Comparava-as com outras coisas mais ligadas à vida e ao homem, referia-me à luta política, à colaboração que todos nós devemos à sociedade, aos nossos irmãos mais desfavorecidos. O que poderia ser a arquitectura comparada à luta por um mundo melhor, sem classes, todos iguais? (…)

Era assim esse homem genial de extraordinária dimensão humana. «Minha agenda está sempre cheia» disse Oscar Niemeyer, no dia em que fez 103 anos. Continuava activo em todas as áreas que sempre o interessaram e motivaram. Politicamente dava o seu contributo militante ao Partido Comunista Brasileiro, o que não abandonou o marxismo-leninismo. Como homem de cultura interessava-se particularmente pela cosmologia e mantinha a rotina de uma reunião semanal para se actualizar com os progressos dessa área científica. Dava um pequeno passeio a pé. Continuava a ler avidamente literatura e poesia. A sua capacidade de trabalho, agora centenária, continua a espantar. Em Fevereiro de 2012, visitou o Sambódromo, palco do Carnaval no Rio de Janeiro, que projectou há quase 30 anos e que foi recentemente ampliado, com a sua aprovação, para os Jogos Olímpicos de 2016. Niemeyer, visivelmente cansado, 104 anos são 104 anos, já não percorreu o espaço pelos seus próprios pés, fê-lo num carro aberto, à torreira do sol carioca. Foi muito saudado por populares que participam nos desfiles carnavalescos. Uma das últimas homenagens que recebeu, em vida, para si a melhor das homenagens: a homenagem do seu povo. Com a simplicidade desarmante que sempre o caracterizou, disse que aquele era um projecto mais de outros arquitectos que dele. Tinha-o desenhado mas quem tinha acabado, modificado, acrescentado tinham sido os arquitectos seus colaboradores. Disse isso como disse em relação a outros projectos, entre eles o Casino Parque da Madeira. Excluía-se discretamente do sistema de estrelato que invadiu a arquitectura, como muitas outras áreas da vida pós-moderna. Embora todas as alterações fossem sujeitas à sua aprovação, Niemeyer chamava para a linha da frente os arquitectos que com ele trabalhavam. Era um homem de incontornável grandeza humana.

O caso mais emblemático desse modo maior de estar na vida é o do edifício sede da ONU em Nova Iorque. Oscar Niemeyer tinha 40 anos quando ganhou o 1.º prémio do concurso internacional de arquitectura para o edifício da sede das Nações Unidas em Nova Iorque. Em segundo lugar tinha sido classificado Corbusier, com quem o jovem Niemeyer tinha trabalhado no princípio da sua actividade e cuja influência era bem visível nos seus primeiros projectos. Oscar Niemeyer já era bem conhecido no mundo da arquitectura, estava ainda muito longe da fama que viria justamente a alcançar. Aquela era uma oportunidade imediata para a atingir. Corbusier mostrou-se muito interessado em fazer aquele projecto pelo que representava para a paz mundial e disse-o a Niemeyer, que, imediatamente, prescindiu do seu projecto, do primeiro lugar que lhe tinha sido atribuído por um júri internacional, a favor de Corbusier, com quem colaborou no projecto final. Só um homem de uma raríssima dimensão humana teria esse gesto de incomensurável generosidade. Foi também essa a primeira vez em que lhe foi permitido ir aos EUA porque, embora tivesse sido convidado para leccionar em várias universidades dos Estados Unidos, viu sempre o visto recusado por causa da sua militância comunista. Militância comunista que manteve coerentemente até ao fim da vida e que continua a suscitar ódios num grupelho repelente de escrevinhadores que depõe dejectos na comunicação social em todo o mundo. Leia-se textos que, sobretudo desde o seu centenário, têm sido publicados por essa gente que, não podendo ocultar ou diminuir a genialidade de Niemeyer procura vitriolizá-la por ser comunista. O que verdadeiramente os incómoda é a actualidade do comunismo.

«Não é o ângulo recto que me atrai. Nem a linha recta, dura, inflexível, criada pelo homem. O que atrai é a curva livre e sensual, a curva que encontro nas montanhas do meu país, no curso sinuoso dos seus rios, nas ondas do mar, no corpo da mulher preferida. Das curvas é feito todo o universo. O universo curvo de Einstein».

Diálogo entre a arquitectura e a natureza

A arquitectura de Niemeyer rapidamente começou a ser conhecida. Logo nas primeiras obras o arquitecto libertava-se dos frios constrangimentos do funcionalismo mais linear, sem deixar de cumprir com rigor a função de cada projecto, para expandir a imaginação explorando até ao limite as possibilidades técnicas proporcionadas pelos novos materiais de construção. Libertava-se dos espartilhos do modernismo mais extremo, com uma linguagem muito própria que fazia a leitura dos lugares geográficos, da sua realidade física para dar corpo a objectos arquitectónicos incomparáveis. Quando Niemeyer diz que a natureza desconhece a linha recta, não está a fazer retórica, está a estabelecer um diálogo aberto entre a arquitectura e a natureza e a transpor esse diálogo para um desenho substantivo que desenvolve com mestria sem recurso ao supérfluo. Nada é dispensável e tudo se torna e descobre coerente. Niemeyer não desenha contra a natureza, esteja ela virgem de sinais construídos ou poluída por ordenamentos ou desordenamentos edificados. Recupera-a para fazer da natureza material de arquitectura. É assim dos seus primeiros aos últimos projectos: na Pampulha, a deslumbrante curva parabólica da Igreja de S. Francisco de Assis a fazer desaparecer paredes e cobertura unindo-as numa forma única; o edifício Copan, em S. Paulo, corpo ondulante de movimento sublinhado pela sobreposição de finas linhas horizontais, ameaçando ir até à lua, fronteira entre o interior e o exterior de grande delicadeza e sensualidade que adquire uma enorme força visual atirando para segundo plano a solução técnica encontrada para, em curva e contracurva, contraventar o corpo edificado e resolver a dificuldade de construir com aquela dimensão sem recurso a pesada estrutura; continua a ser assim na sede do Partido Comunista Francês em Paris onde o terreno onde está implantada é radicalmente transformado por um edifício que parece flutuar atrás de uma cúpula que marca a confluência de duas avenidas limítrofes que fazem duro e apertado ângulo agudo; continua a ser assim no Museu de Arte Contemporânea em Niterói, flor-ovni suspenso no extremo de uma falésia à beira mar. Quase cem anos entre o primeiro e o mais recente projecto, a imaginação que se plasma nos desenhos contínua jovem para assombro do mundo. Poder-se-ia desfiar o resto do rol de projectos de arquitectura que continuam a sair da mão, sobretudo da cabeça genial de Niemeyer para continuar a descobrir em cada um deles a extraordinária inventiva que, se por um lado, libertou a arquitectura dos espartilhos funcionais que a esqueletizavam, apagando o valor da forma arquitectónica para se satisfazerem na aridez de ver o tubo digestivo funcionar com precisão relojoeira, por outro, nunca resvalou nos maneirismos patéticos que subalternizam o uso para que se projecta acenando com as gloríolas de frustres iconografias, um decorativismo de adereços que actualmente enxameiam até ao bocejo as revistas de arquitectura. Próximo do seu modo de pensar e fazer arquitectura estiveram os construtivistas soviéticos explorando novos materiais, novas técnicas levando o «espaço arquitectural» aos limites da imaginação desamarrando-se do racionalismo funcional sem perder o seu sentido.

Considerado, por muitos dos seus contemporâneos, um escultor dos espaços urbanos livres, o que o eleva à condição de artista, a sua obra influenciou arquitectos em todo o mundo. No entanto o que prevalece em todos os seus projectos, seja o Conjunto da Pampulha (1940), Edifício Copan, São Paulo (1951), Brasília (1957-1965), Sambódromo, Rio de Janeiro (1983), Auditório Ibirapuera (1999), Centro Cultural Internacional, Avilez, Espanha (2011), para referir alguns entre os mais de 600 projectos que realizou, é o seu uso colectivo. A extrema preocupação em os tornar abertos ao uso colectivo. Toda a sua obra é emblemática, iconográfica e simultaneamente icástica. Mas a sua grande preocupação é social e política. Até ao fim da sua vida revoltou-se com a mesma intensidade da juventude. A revolta de Niemeyer cresce com as injustiças, com a exploração, a violência, legal ou ilegal, que é o ADN desta sociedade.

«Às vezes acompanho – o (José Aparecido) nas suas idas às cidades-satélites. Logo um grupo de moradores o cerca, aflito por velhas promessas – promessas centenárias – a implorar ajuda dos sucessivos governantes. Pedidos humildes, mas fundamentais para os que lutam por subsistir, dentro dessa discriminação odiosa que o capitalismo institui. Não reivindicam casa para morar, mas apenas um pedaço de terra que também lhes pertence e que nada representa num país imenso, um verdadeiro continente. Passei a compreender então como nós, arquitectos, estávamos enganados quando pensávamos nos grandes complexos populares, nas casas pré-fabricadas, moduladas e económicas, que a técnica actual oferece. E senti, dentro da realidade brasileira, que a miséria do povo é maior, muito maior – tão grande que os nossos irmãos mais pobres só reclamam um pequeno lote onde possam construir seus míseros barracos.»

Transformar a vida

Sempre que o propósito político se torna mais claramente visível, como na sede do Partido Comunista Francês, no Monumento aos Sem Terra, no Memorial da América Latina ou nalgumas obras de carácter social, onde consciente e propositadamente Niemeyer recorreu a uma iconografia explícita, a manipulação política não é possível porque formalmente a sua arquitectura nunca se reduz a um cliché, nem é demagogicamente mais simples para parecer mais ligada e ser mais «entendível» pelo povo.

Por outro lado as suas obras mais distanciadas de qualquer propósito político, como os hotéis ou as inúmeras obras de enorme monumentalidade que realizou, não podem ser entendidas como formas politicamente puras, quimicamente expurgadas da ideologia, e como tal incorporando-se na ideologia da artes apolíticas tão do agrado da inteligentsia bem pensante e serventuária do pensamento por ora dominante e que aspira a se tornar globalmente único. Elas foram riscadas para surpreenderem pelo arrojo formal, para evidenciarem a evolução da técnica, para marcarem o seu tempo e o ultrapassarem inexoravelmente. Elas existem para mudarem o modo de ver e assim mudarem e transformarem a vida. Não são passíveis de neutralização política

Era assim Oscar Niemeyer, homem simples apesar das distinções com que o distinguiram em todo o mundo, desapegado do dinheiro, doou muitos projectos – como os da sede do Partido Comunista Francês, do Centro Cultural Internacional em Avilez e da casa do seu motorista, embora tenha cobrado caro por outros, e não acumulou riqueza. Militante comunista em quem nunca faleceu a esperança num mundo sem exploradores nem explorados. Indignou-se sempre com a sociedade capitalista, indignou-se sempre quando partidos comunistas perdem o espírito revolucionário, acomodando-se até miserável apagamento. O seu compromisso enquanto homem e arquitecto sempre foi político e social.

«Afinal o que vocês comunistas pretendem? Mudar a sociedade respondi. O homem dirigiu-se ao rapaz que batia à máquina: escreve aí… mudar a sociedade. E o dactilógrafo, voltando-se para mim, retrucou: Vai ser difícil.»

Bem sabia, como todos sabemos, que vai ser difícil. Vai, mas nunca se desiste de lutar. O ano passado, ao fazer 104 anos, explicava por que continuava a gostar da vida, ele um dos grandes génios do século XX e de todos os tempos, bon-vivant, fumador, apreciador da boa mesa e dos bons vinhos, de olhar a natureza e o mar, militante comunista desde 1945.

«A idade não é importante. O que nós criamos não é importante. Somos muito insignificantes. O que é importante é ser tranquilo e optimista (…) O capitalismo domina, mas vai fracassar. Tenho fé nisso. A revolução não pode parar. O que me faz levantar todas as manhãs é o mesmo de sempre: a luta, o comunismo puro e simples»

(publicado no Avante! de 27 de Dezembro de 2012)

Standard

One thought on “Um génio do nosso tempo/Um camarada de sempre

Comente aqui. Os comentários são moderados por opção dos editores do blogue.

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s