Cultura, Geral

Para lá do Teatro

Image           A partir de uma certa altura da vida é quase natural mas inaceitável os amigos começarem a desaparecer. Quando o primeiro me faltou, sofri brutalmente. Sempre tinha olhado para os meus amigos como imortais. Todos me sobreviveriam. Foi desolado e com surpresa que o vi ausentar-se da vida. Outros se seguiram. Nunca me conformei. Um dia, esse sim natural, serei eu que me apagarei perante os amigos sobreviventes.

Tenho a idade em que sei que poucas são as coisas essenciais na vida. Uma a paixão. A capacidade de nos apaixonarmos e pela paixão desejar mesmo impossível eternidade. A outra, preciosa e rara, a amizade, Amizade exigente, atenta e crítica. Amizade que cria raízes fundas, inabaláveis.

É dessa amizade e de um desses amigos que hoje falo e que me vai fazer falta, Joaquim Benite.

São anos, muitos anos de encontros de acaso e provocados, desde quando o Joaquim, sempre com o teatro no horizonte, escrevia sobre teatro e outras coisas. Alguns anos até ao “Avançado de Centro Morreu ao Amanhecer”, a primeira peça que encenou e que coloca definitivamente o teatro no centro da sua vida. Meia dúzia de anos depois o Grupo de Teatro de Campolide profissionalizou-se. O Joaquim nunca mais parou, encenando centenas de peças de teatro que sempre e até ao fim nos surpreenderam. Até conseguir ter o seu belo Teatro Azul. Em quarenta anos de actividade o Joaquim, com a sua rara inteligência e cultura, tornou-se num dos pilares da renovação do teatro em Portugal, ganhando reputação internacional que mais se expandiu quando criou o Festival de Teatro de Almada que era “um lugar onde se encontram diferentes linhas estéticas mas que discutem, com maturidade, sobre as suas diferenças, sem se agredirem, e de forma flexível, num nível que não é o da confrontação sectária”.

Do seu trabalho no teatro, do seu lugar na história do teatro, outros falarão, muitos falarão. A evidência da importância e grandeza do seu trabalho não o deixará esquecer. Ao contrário do que uma vez disse numa entrevista “os encenadores nunca ficam na história. Só os escritores, como o Shakespeare. Sabe, acho que vale a pena viver para nos divertirmos. Lutar por coisas para cumprir missões, não. O teatro é um sinal de civilização que está na origem da sociedade. Mas o teatro não tem missão nenhuma. É uma coisa que as pessoas fazem porque gostam, as outras vêm porque lhes dá prazer.” Ele vai ficar para a história pelo seu imenso amor pelo teatro, pelo imenso gosto que tinha em fazer teatro, pelo prazer que nos proporcionava. Disso, repito, outros, muitos outros falarão, todos melhor que eu.

Quero aqui recordá-lo pela amizade que tínhamos. Pelas horas de convívio, pelas trocas de ideias sobre a vida, a cultura e a política, em que participávamos partilhando a mesma trincheira. Até pelos projectos que tivemos, sobretudo os muitos que nunca se concretizaram mas que vivemos como se fossem o último, porque era assim que ele os vivia e fazia os outros viver.

Ao voltar de uma esquina, ao entrar num teatro, ao beber um café nunca mais encontrarei o Joaquim. É com infinita tristeza que o sei.

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7 thoughts on “Para lá do Teatro

  1. Fernanda Paixao dos Santos diz:

    Manuel,

    Ontem ao abrir o computador ja tinha sido alertada por uma amiga sobre Joaquim Benite e li o Publico on line. Hoje, ao telefone falavas do teu blogg. Entao te recordei que duas ou tres vezes estive quase a ser levada por ti ao Teatro Azul mas… olha, nunca deu. Mais te disse que tenho pena de nunca o ter conhecido. Rigorasamente me corrigiste lembrando que nos tinhamos encontrado (brevemente) na Alliance Francaise quando vimos uma peca do Jorge Silva Melo – “Louis de Funes”, se nao me engano. Como ves a minha memoria nao e tao boa como eu gostaria. Mas, certamente que gostaria muito, tanto, de ter conhecido Joaquim Benite, de ter ido ao Teatro Azul. Era jovem, um rapaz da nossa idade (tua e minha).

    Ao ler o Independent ainda na cama, la fui aos obituarios como de costume, e ai, dou de caras com outro rapaz da nossa idade – va la um pouco mais velho – mas que faz muita falta – David Brubeck. Vou ouvir de novo a gravacao ao vivo em Moscovo, quando do encontro Regan – Gorbachov. Direi entre dentes – Take 5 e tambem – Venham + 5.

    Coragem. Ate sempre.

    Abraco de Londres.

    Fernanda

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    • Maria Santa Bárbara diz:

      Manel, pelo teu “saber” com fomentas a amizada mereces o máximo da pontuação !
      E por isso digo ,temos muitas saudades de
      ti . Um beijo da amiga Té

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