Política

A indolência do senhor administrador

Qual a diferença entre despedir cem ou duzentos mil trabalhadores? Isto é, cem ou duzentas mil pessoas? Para Carlos M. Ribeiro, administrador-delegado da Siemens Portugal, é exactamente o mesmo.

Será que o gestor, do alto das prebendas que o cargo certamente lhe garante, se preocupou em perceber o que fazem esses cem ou duzentos mil trabalhadores cujo despedimento incentiva? E já agora, porque não trezentos mil, senhor administrador Ribeiro?

O senhor administrador Ribeiro, como bom gestor que é – pelo menos na empresa de que é funcionário -, certamente terá (terá?) estudado o assunto. Será que nos poderá dizer quais os impactos, para usar um termo troikiano, desse “ajustamento”? Para o funcionamento desses serviços. E para o público, para quem, em última instância, esses funcionários prestam os seus serviços.

Terá o senhor administrador Ribeiro noção de como vão ser garantidos os serviços na saúde, na educação ou na justiça, de entre tantas outras áreas de interesse público? E nas funções de soberania, como as forças armadas ou a segurança? Ou qual será o impacto na macroeconomia do país? Saberá ele qual o reflexo de mais “cem ou duzentos mil” na taxa de desemprego e no consequente desembolso de prestações sociais pelo Estado? E no mercado interno que compra os produtos da sua empresa? E na colecta de impostos? E por aí a fora.

É claro que ao senhor administrador Ribeiro – e certamente todos os que no Governo assim pensam, mas não o dizem, ainda, em voz alta – não os preocupa os problemas individuais e familiares de trabalhadores com uma vida de trabalho, com vinte, trinta, quarenta ou mais anos de serviço e em idade pouco apropriada para arranjarem alternativas.

A discussão da reconfiguração do Estado social até podia ser um debate sério. Podia e devia ser um debate sério, se não estivesse condicionado por uma única conclusão pré-definida: diminuir a carga salarial. O Governo já apresentou algum estudo sobre o que se pretende “reconfigurar”? E quais os recursos financeiros e humanos necessários?

A nebulosa “reconfiguração” das funções sociais do Estado que se anuncia, a não ser arrepiado caminho, mais não será que um corte cego e brutal na Administração, com um profundo e prolongado impacto no funcionamento do próprio Estado, do país e da vida das pessoas.

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