Costumes

Vou só ali tomar banho, volto já.

A crer na reportagem das nossas TV´s, um tigre fugiu do circo onde se encontrava, na bonita cidade da Régua, atravessou o Douro a nado e foi capturado já na outra margem do rio, no lado de Lamego, “apenas” duas horas depois. Como tudo está bem quando acaba em bem, o dito bicho, lá se apresentou no espectáculo da noite, meia dúzia de horas passadas depois do seu banho de relaxamento e beleza.

Como todos sabemos, independemente das circunstâncias, o espétaculo deve continuar. Nada de novo, pois já passado um século, o navio Titanic ia ao fundo e a orquestra continuava a tocar.

Um representante do circo, fiquei na dúvida qual o seu lugar, se dono se palhaço, explicou que o bicho, coitado, aproveitou-se de uma distração dos limpadores da jaula e decidiu mergulhar no Douro. Mas, rapidamente a situação foi resolvida. Vejam bem, explica o porta-voz, depois de o tigre atravessar o rio, ao chegar ao outro lado, foi apenas uma questão de se lhe deitar um laço e umas horas depois lá estava ele, digo eu, mostrando-se um grande profissional, apresentando o seu “show”.

Pelo que se sabe, um alerta dado ao fim da tarde do dia da fuga envolveu, na procura do grande gato, elementos da GNR e dos bombeiros da Régua e de Lamego, bem como da polícia marítima.

Apenas um breve intervalo, para lhe lembrar, caro leitor, que no caso de se esquecer da chave em casa e se tiver que chamar os bombeiros para lhe abrirem a porta paga cerca de 60€.

Resumindo: alguém vai pagar a intervenção destas corporações e prevejo, após a leitura da minha bola de cristal, que vão ser os nossos impostos. Enfim , apenas um desabafo.

Voltando à vaca fria, perdão ao tigre manso (manso é a tua tia, diria o outro), segundo as palavras do homem que deu rosto ao circo, nada de anormal se passou pois o tigre está domesticado, seja lá isso o que for. Acrescentou que somente devido a uma ligeira distração dos funcionários encarregues da limpeza das jaulas, a tigreza fugiu, foi a banhos no Douro, mas  ao chegar à outra margem foi posto no redil.

Assim ficou esta notícia, nada se passou, nada aconteceu e como tal tudo está bem.

De pequenos nadas é feito o retrato do nosso país. Este é apenas mais um.

Impedir de imediato o espetáculo dessa noite, inspecionar a segurança do circo, a forma como são tratados os animais, a legitimidade legislativa e moral de manter animais em cativeiro, no fundo, saber se estas companhias têm ou não condições para exercer o seu modo de vida, nada disto ocorreu a quem pode e manda, pois tudo está bem quando acaba bem.

Enquanto portugueses sabemos como estas coisa funcionam. Ninguém morreu ou ficou sem um pedaço do seu corpo e, acima de tudo, nenhuma criança foi molestada, pelo que tudo está bem.

Também não vale a pena exagerar nas consequências, ou seja, nas responsabilidades, pois mesmo que alguma criança, mas também jovem, adulto ou velho, tivesse sido comida ou mutilada pelo tigre “domesticado”, após os dias da “carpição” popular e mediática, ou seja, após os dias denominados de “nojo”, este tigre ou outro tigre continuaria a fugir e a matar.

Não se iludam; o nosso problema não é apenas politico, não é somente económico ou financeiro ou seja lá o que queiram dizer …  a nossa verdadeira questão é profundamente cultural e de cidadania.

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