Guerra, História

Linhas de Torres

Mapa das Linhas de Torres Vedras e sua ligação com Lisboa nos anos de 1810 e 1811. In Luz Soriano – História da Guerra Civil e do estabelecimento do governo parlamentar em Portugal. Lisboa: Imprensa Nacional, 1874. T. 3

Nada como um filme para nos trazer à memória aquele que foi um dos mais dramáticos períodos da história de Portugal – as invasões francesas.

“Linhas de Wellington” (realização de Valéria Sarmiento sob argumento de Carlos Saboga) mostra um povo em sofrimento num país devastado pela guerra. Mas um povo que resiste e luta. Uma evocação que não minimiza o sofrimento dos portugueses desta geração mas que o relativiza.

A construção das linhas de Torres (Vedras) foi um processo ciclópico, que mobilizou populações inteiras das regiões abrangidas pelo esforço da guerra. Com o exército anglo-luso sob a direcção de Arthur Wellesley, duque de Wellington, era a última tentativa de deter as tropas napoleónicas que se encaminhavam para Lisboa, já então na sua terceira invasão do país.

Foram construídas em segredo três linhas com 152 fortificações, numa região acidentada de 88 km, entre o rio Tejo e o Atlântico, numa colaboração estreita dos engenheiros britânicos com a população portuguesa. Uma terceira linha em Oeiras assegurava o embarque do exército britânico, em caso de insucesso militar.

Construídas as fortificações, milhares e milhares de pessoas abandonaram cidades, vilas, aldeias e campos (sensivelmente numa região compreendida entre Coimbra as linhas) e dirigiram-se para o anel de segurança. Um país em movimento, de que o filme agora em exibição nos dá alguns frescos. Uma plêiade de personagens de todas as condições sociais – soldados e civis; homens, mulheres e crianças; jovens e velhos -, arrancados à rotina quotidiana pela guerra e lançados por montes e vales, entre povoações em ruína, florestas calcinadas, culturas devastadas. Perseguida encarniçadamente pelos franceses, atormentada por um clima inclemente, a massa dos foragidos continua a avançar – como se pode ler na sinopse do filme.

As invasões francesas deram início, de forma algo paradoxal, a um século XIX de profundas transformações para a nação portuguesa. O país nunca mais seria o mesmo. Primeiro com uma monarquia acompanhada pelas élites em fuga para o recato brasileiro, depois com a resistência popular aos ocupantes franceses e a entrada em cena das tropas inglesas, cuja presença se viria posteriormente a traduzir numa pesada tutela sobre o país. Apesar da bota napoleónica, os ideais da revolução francesa deixariam a semente que conduziria à revolução liberal, ao fim do Antigo Regime e ao advento da monarquia constitucional, abalando até à raíz modos e práticas centenários.

A memória das Linhas de Torres tem, felizmente, vindo a ser objecto de uma merecida atenção nos últimos anos. Os municípios abrangidos pelo circuito das linhas de Torres, Arruda dos Vinhos, Loures, Mafra, Sobral de Monte Agraço, Torres Vedras e Vila Franca de Xira, tem vindo a promover a recuperação dessa memória. Através da investigação da história local relacionada com as invasões e de um projeto integrado de salvaguarda, recuperação e valorização de mais de vinte fortes e da criação de percursos pela região, apoiados numa rede intermunicipal de centros de interpretação. Parte deles já podem ser visitados.

O episódio histórico recriado em “Linhas de Wellington” não pode deixar de evocar o quanto os portugueses são um povo com uma história de quase nove séculos. Que já passou por tantos e tão dramáticos momentos na sua existência, que sempre soube ultrapassar. E sempre porque o povo o quis…

Sugestões

Filme (excertos) – clique aqui. Documentação e percursos – clique aqui e aqui

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