economia, Internacional, Política

DE OUVIDOS BEM ABERTOS!

Lembram-se quando Manuela Ferreira Leite disse que seria bom suspender a democracia por seis meses para por tudo em ordem? As críticas choveram de todos os lados, mesmo dos seus mais próximos. Um excesso, um lapso, dizer aquilo, mesmo por ironia a uma hipótese teórica, era inaceitável.

Agora, nos meios de comunicação social, silencia-se o facto de a senhora ter ilustríssimos seguidores, se calhar eram percursores mas de Conrado guardavam o prudente silêncio. Por essa Europa e arredores já não se eximem a dizer o que lhes vai na alma, considerando que chegou o momento de deixar extravasar as suas mais firmes convicções, sem receio de causar escândalo de maior. Devem considerar que a razia social, política e económica que os mercados têm efectuado, limpou o campo pelo que se multiplicam as declarações que colocam em causa, a democracia, os procedimentos impostos pela democracia, mesmo a viabilidade da democracia.

Na última reunião do Fundo Monetário Internacional, levantaram-se notáveis vozes a lamentar os efeitos dos processos democráticos. Uma chatice que atrapalha o normal funcionamento dos mercados e do sistema financeiro. Mário Draghi, actual presidente do Banco Central Europeu e ex alto quadro da Goldman Sachs, essa benemérita instituição com tentáculos sugadores em todo o mundo da alta finança, depois de elogiar as políticas de austeridade que estrangulam as economias e destroem direitos sociais e políticos, cortam cegamente salários dos trabalhadores e reformas dos pensionistas, fazem tudo para garantir que as remunerações ao capital se mantêm em alta, políticas que considera ser um assinalável progresso em relação ao passado, queixou-se amargamente dos empecilhos democráticos que atrasam o processo de união bancária europeia que ele queria estar a funcionar amanhã mas que, por causa da democracia, das aprovações nos parlamentos dos países da união, essa tralha de discussões e votações, só lá para 2014 ficará finalizada. Maldita democracia que vai atrasar a entrega numa bandeja dourada de um poder imenso sobre o sistema económico-financeiro ao senhor Draghi, para ele actuar proficientemente em prol da boa saúde do grande capital. Draghi, que nunca se submeteu a nenhum escrutínio democrático, muito se preocupa com essa tonteira lesiva da boa saúde dos mercados, essas reivindicações de soberanias populares e transparências. Coisas de uma ralé apegada a princípios obsoletos.

Nessa mesma reunião a senhora Lagarde, presidente do FMI onde vai ziguezagueando entre os interesses imperialistas dos EUA e as políticas prussianas da senhora Merkel que comandam a Europa comum, depois de muitos jogos florais em relação à crise económica quando aponta os caminhos que ela considera serem os necessários para a ultrapassar, sempre os mesmos e de todos nós sobejamente conhecidos, tem uma frase assassina em relação aos processos democráticos prescrevendo que é necessário o “compromisso entre eficácia financeira e democracia”. Para bom entendedor, um quarto de palavra basta. Para essa gente, serventuários bem remunerados do grande capital, a eficácia financeira é valor acima de qualquer suspeita e não passível de ser questionado, a democracia deve ser obrigada a todas as concessões, até ser uma sombra produzida por nada.

Os outros participantes, eméritos membros do mundo financeiro, nomeadamente presidentes e governadores de bancos centrais, afinaram pelo mesmo diapasão preocupadíssimos com o nervosismo e a volatilidade dos mercados, sensíveis às demoras, os recuos e as travagens que os processos democráticos induzem, tudo o que atrapalha decisões fundamentais e atrasa pontualmente a sua colecta de lucros. Alto e bom som proclamaram que “os tempos dos mercados não são os da democracia”. Não palavras de acaso. São palavras prontas a guilhotinarem a democracia. A queimarem nas fogueiras da inquisição da alta finança o voto democrático e popular.

Bem sabemos que as classes dominantes sempre falaram de «democracia» mas nunca hesitaram em recorrer à violência, ao terrorismo político, se a sua «democracia» não der as garantias suficientes para manter a ordem económica que cauciona os seus privilégios. A história está prenhe de trágicos e não muito longínquos exemplos. Os fascismos, nas suas múltiplas variantes, não aparecem de chofre. Há que estar bem atento aos sinais. O que está a acontecer em Portugal, um reflexo do que se passa no mundo, é um retorno por veredas «democráticas» ao 24 de Abril. É a destruição, por via económica, das conquistas de Abril. Destruição avalizada, como se ilustra no princípio deste texto, nos areópagos internacionais.

Está em curso a nível mundial, com a progressiva transferência das soberanias nacionais para mega pólos financeiros de oligarcas (quase) sem rosto, a destruição dos direitos económicos, políticos e sociais. Que movem as rodas das guerras regionais, como se assiste no Médio-Oriente, não sendo de omitir a hipótese de uma 3ª Guerra Mundial. Essa gente é capaz de tudo e não olha a meios para atingir os fins. Na melhor das hipóteses espreita-nos ao virar da esquina, um fascismo de rosto humano e colarinho branco, com a pior dentro da gaveta pronta a ser aberta.

Há que estar atento. Há que lutar. Há que forjar, sem perca de princípios, identidade e lucidez, uma unidade de esquerda que enfrente sem tergiversações esta situação. Um caminho árduo que deve ser corajosamente empreendido.

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3 thoughts on “DE OUVIDOS BEM ABERTOS!

  1. Henrique Moreira diz:

    Pois é, concordo contigo:

    “Há que estar atento. Há que lutar. Há que forjar, sem perca de princípios, identidade e lucidez, uma unidade de esquerda que enfrente sem tergiversações esta situação. Um caminho árduo que deve ser corajosamente empreendido.”

    Então temos, para fazer a tão necessária unidade de esquerda, que não querer impôr à cabeça e durante a procura da unidade os “princípios” de cada uma das partes como se fossem os únicos e autênticos princípios a seguir por quem defende as “classes trabalhadoras”. Somos na esquerda todos filhos da “social-democracia”!

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    • jose salavisa diz:

      Subscrevo totalmente, mas o pior é sabermos que não existem forças á altura para os travar. veja-se o que se passa em Portugal. Todos sentimos que estamos a cair no precipício e, no entanto, nada existe em termos de o evitar. Não há alternativa politica! Porra!
      As forças da oposição não conseguem encontrar um mínimo denominador comum que as leve a unirem-se e a agirem em comum. Veja-se o caso das ultimas moções de censura! E, no entanto, todas são contra o desemprego, por uma renegociação da dívida e de uma redução dos juros a pagar. Para não me alargar!!!!…..
      Na base destes pressupostos, não há capacidade de alguém tomar a iniciativa e dizer: vamos reunir e discutir, na base do que estamos de acordo e encontrar formas de acção conjuntas que levem a uma alteração da politica que se está a seguir.
      Esta a realidade.

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