Cultura, Geral

ARTE e GUERRA

Os Desastres da Guerra- Goya

1. As nossas cidades são povoadas pelo silêncio do olhar de pedra ou bronze que celebram homens que se erguem sobre pedestais que escondem os cadáveres dos que morreram com os países, as civilizações que foram apagadas pelos interesses político-económicos das malhas de novos impérios a emergir até alcançarem o alfa, para lentamente apodrecerem depois de pilhagens bárbaras dos recursos naturais, dos cabedais acumulados em dezenas, centenas de anos, do património artístico, dos usos e costumes, esvaziando as culturas mesmo as línguas para que uma nova ordem fosse imposta em nome do progresso instalado a ferro e fogo e as bestas fossem iluminadas pela boa nova. A consigna imperialista proclama; exterminem todas as bestas que não se submetem à nova ordem. Que levantam um olhar sem tremor de medo para as nossas armas. Que se atrevem a desafiar a supremacia militar da civilização ocidental.

Desse estado de guerra permanente em que a história, a história eurocêntrica, foi caldeada para conservar as relações de propriedade, enquanto as alterações políticas do Estado inovavam e se fixavam em novas formas que eram um progresso em relação às anteriores que morriam no fio da espada ou corroídas pela obsolescência que as minava por dentro, surgem marcos artísticos, que pontuam lugares emblemáticos das cidades, preenchem paredes de museus, ficam impressos nas páginas de livros, fazem vibrar os cones dos altifalantes, correm nas pantalhas dos cinemas. Marcos artísticos que esquecem os narizes, orelhas cortados e exibidos para aterrorizar os inimigos por um Albuquerque imponente no seu bronze depois de ter sido cantado por Camões nos Lusíadas. A traição e morte transportados nas entranhas do Cavalo de Tróia inventado pela astúcia de Ulisses que Homero elogia nos versos empolgantes da Odisseia. Nos mortos e estropiados física e psicologicamente que vão ficando pelas páginas dos Nus e os Mortos de Mailer. Nos índios massacrados ao som dos cornetins da cavalaria em desfiladas de 24 fotogramas por segundo. Num Patton general, herói de si próprio derrotando os seus irmãos inimigos, amargurado pelos triunfos do exército vermelho. Nas dezenas de cantatas ao L’Homme Armée.

Desse estado de guerra permanente fica uma literatura, onde através de todos os tempos, vazada nos mais diversos géneros, pulsa o sangue da guerra. Histórias que não se repetem e ocupam largas estradas nas bibliotecas artísticas, deslumbrando pelo seu fulgor estético. Extensa galeria de guerreiros, políticos, governantes, cantados em verso, em música, retratados pelos mais geniais artistas, em telas, pedras, bronzes como se fossem os únicos motores da história, porque é assim que a arte os traz através dos tempos até nós. Assim ficariam não fosse Brecht, com a lucidez relampejante de artista militante, nos sentar no lugar geométrico desse panteão, não para nos subtrair ao alumbramento estético, mas para traçar os paralelos e os meridianos da história submersa pela aura artística.

(…) O jovem Alexandre conquistou as Índias

Sozinho?      

César venceu os gauleses.

Nem sequer tinha um cozinheiro ao seu serviço?

Quando a sua armada se afundou Filipe de Espanha

Chorou. E ninguém mais?

Frederico II ganhou a guerra dos sete anos

Quem mais a ganhou?

Em cada página uma vitória.

Quem cozinhava os festins?

Em cada década um grande homem.

Quem pagava as despesas?

Tantas histórias

Quantas perguntas

Berthold Brecht em “Perguntas a um Operário Letrado”

2. Ovídio conta-nos que Perseu, transporta a cabeça da Medusa que amputou do seu corpo num golpe certeiro da sua espada, prolongamento do seu braço abençoado pelos deuses. Tem sede. Pára na margem de um ribeiro. Tira a cabeça da Medusa do saco, Não pode arriscar olhar para os olhos do monstro, correndo o risco certo de ficar petrificado. Cuidadosamente tira a cabeça arranja uma cama de folhas nas águas baixas do rio, Coloca aí a cabeça da Medusa de olhos virados para a areia. Bebe água, descansa dos lances daquela aventura. Tem que retomar o caminho. De novo, com mil cuidados, agarra a cabeça da Medusa pelas serpentes dos seus cabelos, guarda-a no saco. Olha maravilhado para a metamorfose das algas que, submetidas ao furor do olhar da Medusa, se transformaram num espantoso recife de finíssimos e indescritivelmente belos corais. São os desenhos, as gravuras, as pinturas de Goya, Otto Dix, Grosz, Picasso, Bartolomeu dos Santos, o Requiem da Guerra de Britten, a Sinfonia nº 7, Leningrado de Shostakovsky, E tudo o Vento Levou de Victor Fleming, Apocalipse Now de Coppola, Vai e Vê de Efrim Klimov, Nascido para Matar de Kubrik, Cruel Vitória de Nicholas Ray os poemas de Alberti, Aragon, Carlos Oliveira, Machado, Eluard, Vicente Aleixandre, Cernuda, Guillén, as páginas sublimes da Guerra e Paz, ou  Por quem os Sinos Dobram e Adeus às Armas de Hemingway. Obras imortais de centenas de artistas que com os seus escopos olham para os horrores e a irracionalidade das guerras para produzirem corais que são veementes libelos pela paz, que fazem com o barro das artes que praticam o que Maiakovski queria que os seus versos fossem: palavras de ordem contra a desumanidade. Palavras de ordem esteticamente trabalhadas para sempre.

A Medusa da guerra é exorcizada nessas obras de arte que golpeiam o estado de sítio de uma sociedade injusta e sem dignidade que vai despejando a lava da exploração, destruindo a humanidade e a terra por ela habitada, somando crises à sua crise permanente a que no limite sobrevive explodindo nos vulcões das guerras, que lhes regeneram temporariamente o poder malsão.

Walter Benjamin regista “ há um quadro de Klee intitulado Angelus Novus. Representa um anjo que parece preparar-se para se afastar de qualquer coisa que olha fixamente. Tem os olhos esbugalhados, a boca escancarada e as asas abertas. O anjo da história deve ter este aspecto. Voltou o rosto para o passado. A cadeia de factos que aparece diante dos nossos olhos é para ele uma catástrofe sem fim, que incessantemente acumula ruínas sobre ruínas e lhas lança aos pés. Ele gostaria de parar para acordar os mortos e reconstituir, a partir dos seus fragmentos, aquilo que foi destruído”(1). Esses artistas que fazem, utilizando o tema da guerra, obras de arte contra a guerra, que denunciam a guerra, vão inscrevendo estrelas na constelação de anjos da história a caminhar entre ruínas, por entre as catástrofes. Olham para o passado para com ele fabricarem o futuro no presente. Exibem a Medusa aos olhos do mundo extraindo corais do seu olhar apocalíptico.

3. A guerra mobiliza, num período relativamente curto, a quase totalidade dos recursos técnicos e humanos. Previamente preparada pelas mais sofisticadas técnicas e ciências, pela manipulação informativa que as justifica, a guerra faz parte, é uma exigência do poder agora dominante.

Antes de explodir e mesmo depois de mostrarem o seu poder de disseminar o horror, as suas máquinas são fascinantes. As invenções produzidas para que o estado de guerra esteja permanentemente actualizado e pronto para se por em movimento são extraordinárias. Antecedem em muito a sua posterior utilização pacífica que só acontece quando começam a ser obsoletas do ponto de vista militar.

Das armas mais primitivas às actuais, onde se inscrevem todas as que existem e que ainda nos são desconhecidas, o arsenal das máquinas de guerra é fascinante. Lembrem-se as desenhadas por Leonardo da Vinci. Extraordinários desenhos que registam uma poderosa inventiva ao serviço da morte. Tão belas como as actuais riscadas por programas de desenho computorizado que não adquirem o estatuto de obra arte.

Temos o pudor ou o medo de olhar de frente o hiper-realismo do cogumelo da explosão da bomba atómica. No entanto ecoa nessa cobardia o smell this! smell this! grito inebriado pelo cheiro do napalm que mata indiscriminadamente, sem deixar sobreviventes, seres vivos humanos e vegetais enquanto o dono do grito salta para a prancha de surf indiferente às mortes que se acumulam nas sucessivas descargas do líquido ardente.

Tudo é mutante para tudo se conservar. As armaduras medievais deixam de proteger o corpo com uma metalização exterior que migra para o interior do corpo do exterminador. O homem que se elevava no primitivo helicóptero de Da Vinci para sobrevoar e aniquilar o inimigo hoje está num bunker algures, em frente do ecrã de um computador orientando um drone que vai com uma certeza mais certa que um golpe de kung fu de Bruce Lee assassinar um inimigo no outro lado da terra.

O horror continua o seu curso. Faz parte do nosso quotidiano. A arte está de costas viradas. Faz frustes e frágeis denúncias, mais para dentro de si do que para o exterior. Escusa-se a comprometer-se politicamente. Enforca-se nos direitos humanos. Perde-se em labirintos retóricos que maquilham a sua impotência. Limpa Guernica do seu significado político para se adormecer no embalo estético-artístico. Os Horrores da Guerra de Goya são coisa do passado enterrando o seu significado ideológico na contemplação dos admiráveis desenhos. Os ratos de Bartolomeu dos Santos são olhados de passagem mesmo quando continuam a ser um libelo actualíssimo contra uma guerra, a do Iraque, que ainda não acabou e vai explodindo obliquamente noutros países do Médio Oriente.

Esta sociedade criou aptidões para absorver os seus cancros. Quando a arte os expõe, afunda-os em acontecimentos mundanos. Radioterapia político-ideológica que tem funcionado com eficácia equivalente à manipulação informativa que progressivamente apaga as mentiras de um Colin Powell quando, com o ar mais convicto e sério do mundo, desdobrava mapas localizando fábricas de armas de destruição maciça que não existiam, propagando um terror universal a ser resolvido numa guerra. Episódio teatral que se tem revivido permanentemente nos seus continuadores Condolezza Rice, Hilary Clinton e os senhores ou senhoras que se seguirão, cérebros lobomotizados pela propaganda cínica, degenerada que justifica toda e qualquer agressão para conforto do dólar e colagem das fissuras dos pés de barro do império.

Enquanto as bombas e as mentiras continuam a explodir em todo o mundo, por anda a arte?

Passeia-se pelos salões de olhos postos nos martelos shobethys, christies. Arte peralta, política e ideologicamente perclusa, vitimada pela danação pós-moderna.

4. Uma tese de Walter Benjamin é um foguete poderosamente iluminador desde o momento em que foi formulada até quando esta sociedade for outra. Uma tese despoletada por um manifesto de Marinetti. O pretexto é a guerra colonial etíope. Mudam-se os tempos e as guerras, a modernidade e a actualidade percutante de Benjamin, não sofre um milímetro de desgaste. Façamos dela a nossa palavra de ordem.

“No manifesto de Marinetti sobre a guerra colonial etíope pode ler-se: «Há vinte e sete anos que nós, futuristas, nos erguemos contra o facto de a guerra ser considerada antiestética… De acordo com isso, verificamos que: A guerra é bela porque graças às máscaras de gás, aos horríveis megafones, aos lança-chamas e aos tanques pequenos, consegue fundamentar a supremacia do homem sobre a máquina subjugada. A guerra é bela porque inaugura a tão sonhada metalização do corpo humano. A guerra é bela porque enriquece um prado florido com as orquídeas flamejantes das metralhadoras. A guerra é bela porque reúne numa sinfonia os tiros de espingarda, de canhão, as pausas do cessar-fogo e os perfumes e odores dos cadáveres em decomposição. A guerra é bela porque cria novas formas arquitectónicas, como as dos grandes tanques, das esquadrilhas geométricas de aviões, das espirais de fumo das aldeias incendiadas e muitas outras coisas… Poetas e artistas do Futurismo…, lembrai-vos destes fundamentos de uma estética da guerra, para que a vossa luta por uma nova poesia e uma nova escultura, seja por eles iluminada!»

Este manifesto tem a vantagem da clareza. A maneira como aborda a questão merece ser adoptada pela dialéctica. A estética da guerra contemporânea coloca-se-lhe da seguinte maneira: se o aproveitamento natural das forças produtivas é retardado e impedido pelas relações de propriedade vigentes, a intensificação dos recursos técnicos, dos ritmos de vida, das fontes de energia, leva a que elas sejam aproveitadas de um modo não natural. É o que se passa na guerra que, com as suas destruições, prova que a sociedade não estava suficientemente madura para se servir da técnica como um órgão seu, que a técnica não estava suficientemente avançada para dominar as forças sociais elementares. Nos seus traços mais horrendos, a guerra imperialista é determinada pela discrepância entre os meios de produção poderosos e o seu aproveitamento insuficiente no processo produtivo (por outras palavras: pelo desemprego e falta de mercados). A guerra imperialista é a revolta da técnica que recolhe no «material humano» os direitos que a sociedade lhe retirou do seu material natural. Em vez de canalizar cursos de água, a técnica canaliza a corrente humana para o leito das suas trincheiras, em vez de lançar sementes do alto dos seus aviões, espalha bombas incendiárias pelas cidades, e na guerra do gás encontrou uma nova maneira de acabar com a aura.

Fiat ars – pereat mundus, diz o fascismo que, como confessou Marinetti, espera da guerra a satisfação artística da percepção transformada pela técnica. Trata-se visivelmente da consumação da arte pela arte. A humanidade, que antigamente, com Homero, foi objecto de contemplação para os deuses olímpicos, tornou-se objecto de contemplação para si própria. A alienação de si própria atingiu o grau que lhe permite viver a sua própria aniquilação como um prazer estético de primeira ordem. É assim a estetização da política praticada pelo fascismo. O comunismo responde-lhe com politização da arte.(2)

                                                                  

(1)     Sobre o Conceito de História, IX, em O Anjo da História, Walter Benjamim, Obras Escolhidas de Walter Benjamin, tradução e notas João Barrento, Assírio e Alvim, 2008

(2)     A Obra de Arte na Época da sua Possibilidade de Reprodução Mecânica, Pósfacio, em A Modernidade, Walter Benjamim, Obras Escolhidas de Walter Benjamin, tradução e notas João Barrento, Assírio e Alvim, 2006

PUBLICADO NO CADERNO VERMELHO, Setembro 2012

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2 thoughts on “ARTE e GUERRA

  1. DILIA SAMARTH diz:

    Texto que nos ajuda a tomar consciência do papel que a arte e os artistas podem/devem desempenhar neste contexto soció-politico amargo democraticamente e violento.A lógica imperial continua a governar os cidadãos do planeta.Urge o nosso grito…pintadooo, cantadooooooo, dançadooooo, gritadoooooooooooooooooooo!!!!!

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