Política

A política e a rua

Durante anos o nosso sistema político beneficiou da placidez distraída dos cidadãos. Uma distração que parece estar a chegar ao fim.

Grupos sociais sem carácter reivindicativo conhecido saem para as ruas para se manifestar. É o caso dos artistas e do pessoal da cultura, dos agentes das forças de segurança, farmacêuticos ou proprietários de restaurantes e respectivos trabalhadores. É a “sociedade civil”, como tantos gostam de a classificar, a movimentar-se e a transcender as tradicionais expressões orgânicas.

O dramático processo de elaboração do orçamento do Estado para 2013 tem tido o mérito de colocar o país a seguir o assunto uma atenção inusitada. O tema deixou de ser uma questão para especialistas e meia dúzia de interessados, como o foi tantas vezes no passado. A política está de regresso, os políticos que se cuidem….

Conhecidas as principais linhas do orçamento, não houve grandes surpresas. O rumo será o mesmo – escavar mais e mais o rendimento das classes médias, cada vez mais empurradas para a pobreza por via do aumento brutal e generalizado de impostos, a que se soma a diminuição das prestações sociais e o desinvestimento generalizado do Estado. Uma rudeza a que continuam a escapar os contratos, ditos blindados, das PPP’s rodoviárias.

À recessão somar-se-á mais recessão não se divisando como poderá este orçamento contribuir para a inversão do ciclo económico. O mercado interno será ainda mais penalizado e o desemprego continuará a aumentar. Com estas medidas suicidas está em causa a sustentação das famílias e do país.

Apesar de todos os esforços e sacrifícios, o peso da dívida continuará a pender sobre os portugueses enquanto o valor dos respectivos juros continuará a aumentar. Com uma economia em queda não será possível sair deste ciclo. O próprio FMI considera que o impacto das medidas se traduzirá, em 2013, num recuo da economia situado entre 2,8 e 5,3%, contra o cenário de quebra de 1% do PIB propalado pelo Governo. Todo o país vê isso, da esquerda à direita.

Há um tique, sob a forma de chantagem, que veio para ficar – o de recurso ao argumento “ou isto ou o caos”. Como outros no passado, Passos Coelho e V. Gaspar não hesitaram em deitar-lhe a mão. Mas a estratégia parece não resultar. É que das próprias fileiras dos partidos apoiantes do governo sucederam-se as críticas arrasadoras das opções orçamentais.

Algumas constatações

Um povo na rua. Partidos e sindicatos, leia-se a esquerda PCP e BE, com algumas simpatias no PS, e a CGTP, como que monopolizaram a expressão política dos movimentos sociais durante anos.

De há tempos para cá – e talvez se possa colocar a fronteira nos acontecimentos da “Primavera árabe” – as redes sociais da internet, facebook e twiter, passaram a desempenhar o papel de um grande amplificador. A informação passou a transmitir-se a altíssima velocidade. Resultado: quando nada o indica, o povo está na rua. Foi o caso das manifestações de 15 de Setembro

Política em espaços fechados. Os protagonistas do poder político, nomeadamente os governantes, recusam crescentemente confrontar-se com os cidadãos (organizados ou não) que se manifestam. Disso são exemplos a escolha de recintos fechados para a organização de eventos, casos da Festa PSD do Pontal num hotel ou das comemorações do 5 de Outubro num espaço fechado.

A manifestação individual. A manifestação individual isolada de protesto no espaço público assumiu uma dimensão desconhecida até à data. É a demonstração de um desespero pessoal que cresce a olhos vistos e que não pode se associada o objectivos políticos de partidos ou sindicatos.

A descredibilização dos governantes. A sucessão de casos com o ministro M. Relvas há muito que aconselha a sua retirada do palco. O dead man walking é frequentemente perseguido por cartazes que dizem “Relvas vai estudar”, enquanto da imprensa “pingam” estórias dia sim, dia não. P. Coelho, porventura até agora protegido pelo escudeiro Relvas, entrou também no foco das investigações a propósito do seu percurso de gestor de empresas… E a coisa promete mais!

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