Política

Moção de censura? Sim. E depois?

A credibilidade e a capacidade política do governo Passos Coelho ficaram seriamente danificadas com a questão TSU. Representando um veredicto popular sobre as políticas da troika, a manifestação popular de 15 de Setembro (e certamente também a de 29) bem podem significar o principio do fim deste governo e desta maioria. E o que tem a Esquerda para oferecer ao povo?

Percebe-se que a capacidade de decisão de P. Coelho foi seriamente afectada e que o governo navega à vista, tendo interiorizado a imensa contestação que, “orgânica” ou “inorganicamente” alastra pelo país. Pressionado pelos agentes da troika e pelo povo em sentidos contrários, o governo dá mostras de desorientação.

Um governo está, por regra democrática, a prazo. E no actual contexto esse prazo pode vir a ser muito breve. Se a coligação PSD-CDS for apeada do poder, quem lhe pode suceder? Com a atual composição parlamentar só a reedição do bloco central PSD-PS reuniria uma maioria; ou como recurso um governo de inicial presidencial.

Mas a verdadeira questão é como se pode gerar uma verdadeira alternativa de políticas, susceptível de ser sufragada pela maioria dos portugueses.

O crescente afastamento dos portugueses face aos “políticos” e o desprestígio da vida partidária não abonam em favor de uma sociedade moderna e democrática. Mas demonstram também que não tem sido geradas alternativas suficientemente credíveis no interior do actual sistema político-partidário.

Apesar de as responsabilidades pelo actual estado de coisas ser claramente atribuível aos partidos do auto-designado “arco da governação” (PS, PDS e em menor medida o CDS), que se reveza na governação há mais de trinta anos, os políticos são todos “farinha do mesmo saco” para uma parte muito significativa dos portugueses.

Atenhamo-nos ao espectro partidário existente, já que não parece que estejam em vias de por aí surgirem novos protagonistas…

Os partidos

O PS. É o partido central do actual sistema político, oscilando entre a social-democracia e “terceira via” néo-liberal. Os trágicos resultados da anterior governação socialista irão pairar por muito tempo sobre o partido. É credível uma alternativa à Esquerda que inclua o PS? Se sim, como poderão os socialistas compatibilizar a aceitação do memorandum de entendimento, de que foram primeiros responsáveis, com o repúdio pelas medidas que ele implica e cujo fracasso está à vista? Como desatará a Direcção socialista este nó?

O PCP. Mais que nos votos, a influência do PCP mede-se nas organizações sociais e nos sindicatos. A sua área de poder é tradicionalmente o mundo autárquico. Desde 1976 nunca foi claramente perceptível qualquer aposta táctico-estratégica do PCP para aceder ao poder executivo. Está assim por perceber se o PCP está disponível para integrar uma solução de convergência com o(s) outro(s) partido(s) da esquerda parlamentar? Ou mesmo uma solução mais ampla e de mínimo denominador comum.

O BE. Parece assente que, com maiores ou menores oscilações nos resultados eleitorais, o Bloco assentou arraiais e o seu peso conta no xadrez político. Percebe-se no seu discurso uma vontade de aceder ao poder. A mudança de liderança em simultâneo com um novo modelo dual é uma fase crítica para este partido que ainda mantém diversas formações políticas no seu interior.

Bloco de Esquerda e Partido Comunista Português não estão aparentemente afastados por muito. Votam conjuntamente no parlamento com frequência. Partilham, cada um na sua trincheira, muitas lutas. Mas há escolhos históricos por ultrapassar, aqueles que derivam ainda dos enfrentamentos entre o PCP e a extrema-esquerda nos primórdios do regime democrático.

Com as posições actuais a Esquerda está longe de se constituir como uma alternativa consistente e credível. Tem contra si um histórico de desentendimento, face a uma direita pragmaticamente coligável. Mas como o “caminho faz-se andando”, vejamos.

Uma plataforma comum

A relação com a troika é hoje central e incontornável.

É possível rejeitar o memorandum de entendimento com a troika e recuperar a soberania? Se o fizermos como se procederá ao financiamento do país? Como se honrarão os compromissos com os credores? Euro, sim ou não?

Qualquer alternativa de Esquerda que se perfile terá que responder, de forma credível e circunstanciada a estas perguntas. E reunir consenso nas respostas e soluções apresentadas. E estar disposta a traduzi-las num programa político e económico e numa coligação ou frente política que o suporte. E a arcar com o ónus de governar. Não havendo soluções de um só partido, poderão haver soluções de programa?

Se a Esquerda não o fizer continuará a ser vista pela maioria da população e do eleitorado como uma não-alternativa! E o rotativismo continuará a fazer o caminho por mais uns tempos.

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