Geral

Interrogações

Recebi este testemunho (em resultado de uma experiência de vida longa mas inacabada) e entendi publicá-lo por considerar o tema relevante.

Será que Deus existe ou tudo não passa de um ideal metafisico e utópico, criado/idealizado por poderosos,  para melhor perpetuar a servidão de muitos a troco do bem estar de alguns?

Nos tempos que correm este pode ser, para muitos, um problema menor… mas cada um saberá, à sua maneira, quais as interrogações a que urge encontrar respostas de modo a poder dar um sentido à vida, porque o “homem não é uma inutilidade num mundo feito, mas obreiro de um mundo a fazer”.

Para Carlos Andrade a dúvida é saber se o empenho e a dedicação de sempre (acreditando na existência de um Deus bom) valeram a pena. E há muitas vidas assim…

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“Há recordações que o tempo não apaga da memória. Se as escrevo agora é na tentativa de aliviar a dúvida que, durante os últimos anos, em silêncio carreguei sem nunca ter evidenciado qualquer amargura, apesar da dor que provoca, primeiro, de mansinho, depois agreste e permanente. Não sei se me vou arrepender, mas isso agora pouco importa.

O meu nome é Carlos Andrade e sempre estive dividido entre o amor que sentia por Matilde (amor verdadeiro) e o amor celestial (contemplativo, imaterial). Para contrariar os meus pais escolhi o caminho mais ambíguo e o menos aguardado. Na altura, não foi uma decisão difícil de tomar, talvez por ter uma idade diminuta.

Tudo parecia ser simples, claro, por essa altura.  

Por isso nunca cheguei a levá-la à praia nem a lado nenhum. Nunca cheguei a fazer, por pequenas que fossem, todas as coisas normais que fazem as pessoas que se amam. Ir às compras, jantar num bom restaurante à luz das velas, dançar num dos muitos lugares que conhecia mas onde nunca entrei, passear de mãos dadas pelas ruas da minha cidade, encantado, viajar em período de férias e saborear outros lugares, outras gentes.

É verdade que nunca nos zangamos… nem nunca senti o pequeno (ou será grande?) prazer de adormecer nos seus braços. E, no entanto, todos os dias almejava por uma surpresa… que nunca sobreveio.

Sempre que pensava na Matilde era tomado por uma incómoda sensação de mal-estar, de consciência pesada, muito próximo ou no limiar de alguém que se predispõe à prática de um crime (ou será de um pecado?).

Os nossos encontros (por razões várias) não passaram de intenções adiadas. (Sempre fui um poço cheio de dúvidas e de indecisões que em nada me ajudaram a viver).

Por fim decidi partir para outra cidade, onde procurei esquecê-la, apesar de ter sido uma decisão dolorosa.

Não sei, de todo, se procedi bem ou mal. A verdade é que hoje vivo só e, em momentos de maior desespero, mergulho em cogitações e embrenho-me nos secretos lugares da minha alma, onde uma voz inexpressiva mas persistente, querendo divertir-se, desdenha do caminho por mim escolhido.

Como é longínquo o tempo em que sonhava com o futuro!

Aos Domingos não falto à missa das dez e trinta, na igreja do lugar onde moro, para repetir, que o nosso “Deus é bom e misericordioso”, e eu, acredito, apesar de os meus dias serem dias de um contínuo desprazer.

Quando regresso a casa, ainda oiço os beatos:

– Deus, tende piedade de nós!

É nesses secretos momentos que penso:

-Será que Deus existe?” 

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