Política

Um povo zangado

A questão da TSU foi “ideologicamente capturada pela esquerda”, Ângelo Correia na SIC-Notícias, 18/Setembro/2012

Provavelmente todos ficámos surpreendidos com a dimensão que o protesto popular atingiu no dia 15 de Setembro um pouco por todo o país. Conhecíamos o grau de frustração e de zanga que se abateu sobre grande parte do nosso povo mas não tínhamos, até sábado passado, percepção de como, e em que grau, tal se iria expressar.

O que seguirá é imprevisível. Compete aos agentes políticos, sobretudo aos governantes, ler os sinais: há um povo zangado e irado que grita nas ruas. Há gente em desespero. É certo que saíram às ruas os que habitualmente vão às manifestações… mas também é verdade que desfilaram muitos que nunca o haviam feito. Em lugares insuspeitos de simpatia esquerdista. Como Viseu, no antigo “Cavaquistão”. E muitos mais poderão ainda vir a sair às ruas.

O que fez transbordar o copo da paciência dos portugueses é bem claro. Depois de o encher com desemprego, cortes nos salários e nas prestações sociais, aumentos generalizados de impostos e de preços de bens básicos, a questão TSU foi a “gota” que o fez transbordar. Pelo desastroso impacto que se antevê no rendimento dos cidadãos, mas também pelo que de simbólico ela transporta: a transferência de milhares de milhões de euros dos trabalhadores para as empresas.

Apesar de a alteração da TSU ter sido unanimemente recusada por trabalhadores e patrões e de ser olhada com desconfiança pela Academia, os Angelos Correias de serviço insistem em apresentar essa rejeição como “uma captura ideológica da esquerda”. Devem julgar que toda aquela gente que saiu às ruas é estúpida!

O protesto popular generalizado ameaça agora ultrapassar o enquadramento da contestação institucional, tradicionalmente orientada pela CGTP-IN, sindicatos e partidos de esquerda. Sendo uma contestação sem o enquadramento dessas organizações formais, ou “inorgânica” no dizer de alguns, aumentam os riscos de se ultrapassar algumas marcas de segurança que caracterizam as pacíficas manifestações sindicais. E quando o povo, mesmo que pacífico, sai para rua, traz sempre algumas boleias indesejáveis…

Estes governantes (como outros antes destes) gostam de desvalorizar o significado e a importância das manifestações populares. Respaldados na legitimidade da democracia representativa, menorizam as outras formas de expressão política; e tanto mais as desvalorizam quando essas manifestações têm a designada marca “orgânica” ou sindical. Mas fazem mal. Será que preferirão um dia negociar com poderosos movimentos, socialmente profundos, mas difusos e de difícil representação? E como o farão?

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