Geral

Bom dia, tristeza.

Nos anos 50 do século passado, a escritora francesa Françoise Sagan, publicou o seu primeiro romance a que deu o nome de “Bonjour Tristesse”. Depois, o romance foi transposto para o cinema e ainda me lembro também de uma canção da Juliette Grego, com este nome.

Sempre associei este título a um vago sentimento de tédio, impotência e principalmente de tristeza. Não me lembro do conteúdo do livro, se por acaso alguma vez o li, não vi decerto o filme e fui rever há pouco a canção. A canção reavivou-me este mau estar físico e psicológico que sempre me invade quando penso no título. E mais uma vez a sensação de impotência, de nada poder fazer.

Pois foi assim que ontem me apresentei ao serviço depois de um mês de férias. Normalmente o meu regresso ao trabalho é composto por duas faces. Uma que definiria da seguinte forma: “que chatice, acabaram as férias”; a outra com alegria de voltar a ver os colegas, os alunos e de voltar ao trabalho, pois gosto do que faço. Ontem foi apenas de tristeza,  de impotência.

Faço parte de um grupo profissional que assistiu no passado dia 1 de Setembro ao maior despedimento coletivo de sempre existente em Portugal e provavelmente a um dos maiores do mundo. Mais de 30 mil professores não foram colocados. Existem cerca de 10 mil com horário zero, o que equivale a uma passagem certa ao quadro de excedentes daqui a 2 anos. E mais o que aí virá para o próximo ano.

Não estamos a falar de candidatos a professor. A maior parte tem mais de 5 anos de profissão, muitos com 10, 15 e 20 anos. Alguns com mais de 25 anos a exercerem. Esta deve ser a tal segurança no trabalho de que tantos falam, quando se fala dos funcionários públicos…

Existem professores a mais? Se calhar existem. A demografia não ajuda, o número de jovens tem caído a pique. Algumas disciplinas apareciam no curriculum e não se percebia muito bem para o que serviam. Existiam 40 mil professores a mais? Não! não existiam!

Mas a reforma feita não foi apenas essa. A reforma estrutural passou por:

1)      aumentar o número de alunos por turma (só quem nunca deu aulas é que não sabe o que significa atualmente ter 30 alunos numa sala), incluindo as turmas com alunos considerados com necessidades educativas especiais;

2)      diminuir o número de horas letivas dos alunos, o que não seria em si uma má ideia se a escola lhes desse a eles e às famílias algo em troca: apoio individualizado ao estudo, teatro, música, desporto, cinema, cidadania, ecologia, defesa do consumidor…

3)      ao aumentar o horário letivo dos professores e cortando a possibilidade de nesse horário entrarem os apoios, o ministério deu a estocada final.

Tudo isto vai melhorar a escola? Não! Não vai!

Claro que este governo quer dar cabo do ensino público. Não será o melhor dos tempos, a pensar no número de famílias que este ano letivo tiveram que matricular os seus filhos no ensino público, retirando-os do privado. Enfim, os passos vão sendo dados.

Bonjour tristesse. Onde os senhores com sede em Lisboa, que se governam em vez de governarem o país, veem números, eu vejo caras e nomes. Vejo a Raquel, o Pedro, a Adelaide, a Vânia e tantos outros, vejo gente com filhos, com família, com contas a pagar, cidadãos a quem prometeram um futuro digno e que agora brutalmente o negam.

Mais umas dezenas de milhares a engrossarem os cerca de 600 mil desempregados oficialmente, mais os outros que já nem contam. Quantos portugueses estarão sem trabalho atualmente, 1 milhão? Um em cada dez portugueses? A negação ao trabalho é uma das formas de retirarem às pessoas a sua dignidade humana.

Para onde nos levam? Para uma nova grande depressão? Para uma guerra? Para uma ditadura?

Bom dia, tristeza.

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