Internacional, Política

Nascidos para matar?

Li algures várias notícias sobre o número de suicídios entre os soldados norte-americanos que estão no Afeganistão.

As hierarquias militares mostraram-se muito preocupadas e referiram a necessidade de se perceber o que se passava, falando ainda em perturbações prévias, stress pós-traumático, etc. não querendo ver a verdade nua e crua que estará por detrás desse número espantoso de suicídios.

É verdade que o cenário de guerra pode desencadear determinadas doenças que existiriam já em potência, mas a verdade é que muitos desses jovens seriam saudáveis e sem doenças potenciais.

Lembro muitos dos nossos ex-combatentes das guerras coloniais que nada sofriam e que vieram quase todos com a tal perturbação pós- stress traumático de guerra provocada pelo assistiram no cenário infernal da guerra que nada tem de comparável ao que nos é referido por terras do Afeganistão e do Iraque.

Apesar de voluntários e bem treinados (hoje sê-lo-ão de forma bem mais sofisticada do que aquela que vimos no filme Nascido para Matar), muitos dos jovens norte-americanos não conseguem sobreviver ao inferno de crueldade e de violência de uma guerra que lhes foi dito ser em defesa da liberdade, da democracia e dos direitos humanos.

Muito deles, terão sido educados nos valores do Não matarás e do Amor ao Próximo e tudo vêm perfidamente subvertido, percebendo que o que está em causa é a luta pelo petróleo e nada mais, como de resto, foi referido por alguns que se manifestaram em Chicago aquando da Cimeira da Nato.

Mas também se trata do controlo do maior abastecedor de ópio do mundo e por razões geopolíticas (proximidade de Rússia e China).

 As atrocidades que vários vídeos mostraram ao mundo, teriam de ter um impacto altamente negativo sobre as consciências de muitos desses jovens, ludibriados, afinal, pelo seu próprio Governo.

Certamente, haverá alguns que se “viciam” na guerra como também nos mostra o filme Hurt Locker, mal traduzido para português por Guerra ao Terror, mas mesmo neste filme o que vemos são jovens ansiosos pelo fim do tempo de campanha, sonhando voltar para junto das famílias, vivendo o tal aperto horrível nos dias que faltavam para a partida.

Serão “fracos” os que se suicidam? Ou serão os mais lúcidos ou sensíveis?

Encurralados numa guerra absurda, muitas vezes, procurando no álcool algum alívio, tornam-se aptos à autodestruição física, talvez, quem sabe, por se sentirem destruídos psicologicamente.

Morrerem mais soldados por suicídio do que em combate, mostra-nos bem o horror vivido naquelas paragens.

Entre Janeiro e Junho de 2012 suicidou-se cerca de um soldado por dia no Afeganistão. As estatísticas, contudo, nada nos dizem sobre o sofrimento anterior ao acto de destruição, as lutas interiores, o hurt locker que os terá tomado, os sonhos perdidos e as ilusões num País que eles acreditaram ser outro.

Muitos destes jovens nem pediram ajuda para não serem, provavelmente, humilhados ou ostracizados num meio onde impera a ideia do “herói duro” que não soçobra nunca. Resta dizer que as tentativas de suicídio foram de 1112 no mesmo período.

Os que não se suicidam como chegarão ao fim do tempo de campanha? E não falo dos estropiados fisicamente que são já muitos.

Tal como após a guerra do Vietnam, assiste-se a um aumento de toxicodependências, de actos de violência sexual e doméstica e de outros crimes praticados por ex-combatentes no Iraque e Afeganistão.

O director-executivo da Associação de Soldados Veteranos da América e do Afeganistão, Paul Rieckhoff, referiu que o número de suicídios entre militares no activo é apenas “a ponta visível do icebergue” — um inquérito conduzido junto dos 160 mil membros da sua organização revelava que 37% tinha conhecimento pessoal de alguém que tinha posto fim à própria vida. O que significa que a taxa de suicídios real é superior à oficial (25 a 30%).

Não sei qual é a taxa de suicídios nos jovens que não foram à guerra, mas penso que haverá quem nos EUA reflita sobre isso e retire as necessárias conclusões.

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One thought on “Nascidos para matar?

  1. É isso mesmo, Anita! Eu próprio, que estive na guerra colonial na Guiné Bissau ( tenho quase 69 anos ), apesar de nunca ter combatido diretamente – estava numa tenda gigante cheia de mapas cartográficos, para onde passava graficamente o conteúdo dos relatórios “classificados” sobre aquilo que acontecia no mato, “no terreno” – vi tantos horrores que não me safei de algum stress pós-traumático que só se manifestou alguns anos após o regresso “à metrópole”…

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