Política

O novo léxico de Passos Coelho

P. Passos Coelho adoptou um novo léxico. Depois de classificar os portugueses como “piegas” e de não pôr “porcaria na ventoinha”, enquanto recusava “malabarices”(!), pretende agora passar a mensagem de que se está a “lixar para as eleições”. O que leva o primeiro-ministro a baixar o nível do seu discurso à coloquialidade rasteira?

A eficácia da comunicação entre os políticos e o público é bem a medida do seu êxito. Mede-se regularmente em votos. Mas, fora das eleições, mede-se também na opinião expressa pelo público. Fazer com que esse público (ou, na verdade, uma parte progressivamente maior deste) compreenda e aceite as políticas e as correspondentes medidas é uma das mais importantes tarefas de qualquer governação democrática. O que é tanto mais verdade, mas difícil, numa sociedade que dispõe de inúmeros dispositivos de informação e comunicação – aos clássicos imprensa, rádio e televisão, juntaram-se nas últimas décadas os sistemas assentes na internet e mais recentemente ainda as redes sociais.

É grande a tentação de utilizar novos e velhos media, condicionando-lhes e reorientando-lhes as mensagens. E se, tal como “no princípio era o verbo” (João 1:1-3), a força da palavra continua a ser determinante…

A tactica agora levada à prática por P. Passos Coelho é a de recorrer a um nível de linguagem simples e rasteiro, rápido e aparentemente insusceptível de outras interpretações. Que, primeiro, criando o sound byte, desperte a atenção do pessoal dos media e, por via destes, do zés e das marias, essas mirificas figuras que, julgam eles, só entendem a linguagem ligeira.

Convenha-se que a táctica garante alguns frutos: mais tempo de antena e maior atenção dos agentes dos media e centramento do debate político. Já cá tínhamos  Alberto João Jardim, um mestre experimentado dessa técnica discursiva. Durante algum tempo a atenção centra-se sobre o autor. Pelo inusitado, pela não correspondência entre o estatuto do locutor e o nível de linguagem empregue. É a surpresa pela estranheza. E aí há uma mensagem que consegue maior difusão.

Que nos traz de novo o registo de discurso rasteiro encetado por P. Passos Coelho?

A nova artilharia discursiva de P. Coelho apenas se destina a conseguir uma maior eficácia na transmissão da mesma mensagem: a da justificação das actuais políticas, que tem os resultados que estão à vista. Ela não traduz uma praxis ou sequer políticas diferentes. Não passa de mero vocabulário com fins pragmáticos.

Pese todo o esforço de justificação cinicamente vendido nas televisões por muitos comentadores de serviço, é notório que o PM aparece cada vez mais isolado na defesa do Governo e das suas políticas. Ao seu número dois, o por enquanto ministro M. Relvas, terá sido dada ordem de defeso, isto é, de silêncio e de recato. Paulo Portas gere o presente com um olho no futuro – pode fazer outros casamentos nas próximas estações. Os restantes ministros remetem-se ao tratamento dos assuntos das suas pastas e mesmo aí a maior parte deles com grandes dificuldades.

Passos Coelho e os seus spin doctors* terão concluído que o líder ficaria a ganhar com a táctica. Vamos ver.

*  Do inglês doutor em engano,mas que também traduz a função de especialista em relações públicas e comunicação política

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