Praça do Bocage

Grécia: Corrupção e Fuga de capitais superam valor dos cortes

Antonio Cuesta, 21.Jul.12

Na Grécia, na maioria dos casos, falar de corrupção é referir um mal endémico, idiossincrático do Estado que atravessa todas as esferas da vida pública, e graças ao que se justificam as políticas de austeridade impostas contra a generalidade da população. No entanto, raramente é argumentada contra uma classe política que perpetuou um sistema fraudulento com o qual beneficiou durante décadas, em detrimento dos cofres públicos.

O exemplo mais paradigmático da corrupção entre a classe política foi o grande negócio das Olimpíadas de Atenas em 2004. Com um orçamento oficial de 9 mil milhões de euros, os custos foram-se multiplicando até atingir um montante próximo dos 28 mil milhões euros que ninguém, até hoje, conseguiu explicar onde foram parar.

Um relatório recente publicado pelo diário Kathimerini assegura que o custo anual da corrupção na Grécia supera em valor os cortes que foram feitos em 2012 nas pensões e nos salários. De acordo com esta investigação o montante superaria os 4 mil milhões de euros por ano, a que terá de se acrescentar a vultuosa, e até agora legal, fuga de capitais.

As estimativas mais conservadoras calculam que desde a data do primeiro empréstimo em 2010, mais de 60 mil milhões de euros saíram do país na senda de bancos suíços ou paraísos fiscais, uma quantia que representa 27% do PIB grego. Quem o explica é o economista Leonidas Vatikiotis, para quem a famosa «livre circulação de capitais» significa a permissividade dos diferentes governos para uma elite financeira que, para fazer o branqueamento dos seus capitais, roubam ao país a capacidade produtiva. «Esta prática – diz o economista – deve-se a uma série de medidas e regulamentos que datam dos anos 80 e 90, e que agora é altura de rever», impondo controlos aos movimentos especulativos de capitais, como fizeram nos últimos anos a Argentina, o Brasil, a Coreia do Sul. As grandes fortunas gregas – armadores e proprietários de grandes grupos de comunicação principalmente – aproveitaram essas leis impostas por organismos como o Fundo Monetário Internacional, a OCDE, o Banco Mundial e a União Europeia para retirarem as suas fortunas com total impunidade e, além disso, evitar o pagamento de impostos.

Por último, as constantes ameaças lançadas pelas instituições financeiras internacionais de que o país poderia ver-se fora da eurozona se não cumprisse as draconianas medidas de ajuste exigidas só serviram para fomentar a evasão de capitais, calculada em 5-6 mil milhões de euros mensais, chegando ao seu ponto mais elevado no passado mês de Outubro (com a renúncia do primeiro-ministro Papandreu), que chegou a duplicar aquela quantia, de acordo com Vatikiotis.

A corrupção na administração

Esta conivência de âmbito internacional existe também a nível local, onde as empresas gregas aceitam com normalidade o pagamento de comissões ilegais a uma classe política ávida por dinheiro, e em que chegaram a estar implicadas multinacionais como a Siemens.

Para a secção grega da ONG Transparência Internacional, o volume de subornos pagos a funcionários públicos durante o passado ano superaria os 500 milhões de euros, e uma quantia idêntica refere o último relatório do Banco Mundial referente a 2010: 436 milhões de euros para «facilitar» a obtenção de permissões ou licenças, evitar inspecções fiscais, ou conseguir contratos ou concessões das diferentes administrações públicas.

O estudo feito junto de 550 firmas gregas concluiu que 21,6% delas pagavam habitualmente para conseguir acelerar a tramitação administrativa, 55,9% faziam-no para esconder problemas com a Fazenda e 14,5% das empresas sondadas asseguraram que o suborno era uma condição sine qua non para conseguir um contrato estatal.

De acordo com este estudo, as empresas destinavam em média 0,2% do seu volume de vendas para «olear» os diferentes escalões da administração e uns 0,8% como contribuição nos processos de concursos, licitações ou contratos públicos.

Um dos últimos casos descobertos, há apenas um mês, tem como protagonista o ex-ministro da Defesa do PASOK, Akis Tsojatzopulos (amigo e colaborador íntimo de Andreas Papandreu), acusado de «branqueamento de capitais procedentes de actividades ilícitas», para além de ter cobrado importantes comissões à indústria armamentista entre 1997 e 2001, com o que acumulou uma importante fortuna investida em propriedades imobiliárias.

A fraude de branqueamento de dinheiro duplicou o ano passado e os montantes descobertos pela Brigada de Delitos Financeiros indicam que cerca de 3 mil milhões de euros por ano foram utilizados para o comércio ilegal de drogas, álcool e tabaco, e ainda no contrabando de armas e combustíveis.

As quantidades evidenciam a falta de vontade política para pôr fim a uma prática que só beneficia os mais ricos e que supera amplamente o montante dos cortes sociais aplicados contra a maior parte da sociedade grega.

Este texto foi publicado em:
www.gara.net/paperezkoa/20120528/343588/es/La-corrupcion-fuga-capitales-superan-valor-recortes-Grecia
Tradução de José Paulo Gascão

E, por cá? Todos bem, muito obrigado!