Política, saúde

Os lucros da GALP e as consultas nos hospitais

A imprensa de hoje revela duas notícias extraordinárias. A primeira dá conta de um aumento de 56,7 por cento dos lucros da GALP no primeiro semestre de 2012, ano de todas as crises e da glorificação da austeridade, mas só para os pobres, como modo virtuoso de vida. A outra, ainda mais extraordinária, constata que, nos primeiros cinco meses de 2012,  houve menos 283 mil urgências nos hospitais públicos, menos 400 mil idas aos serviços de atendimento permanente (SAP) e menos 562 mil consultas presenciais nos centros de saúde. Em contrapartida, de acordo com o jornal “Público”, “as consultas hospitalares aumentaram 2,2% (mais 106 mil) e as cirurgias recuperaram para os mesmos níveis do ano passado, depois de nos primeiros quatro meses deste ano terem diminuído substancialmente. Nos centros de saúde, houve também um aumento assinalável das consultas não presenciais (por telefone, e-mail), mais 298 mil, e das consultas domiciliárias, mas esta evolução não foi suficiente para compensar a quebra das consultas não presenciais e a enorme diminuição dos atendimentos em SAP (as “urgências” dos centros de saúde)”.

A notícia contém, em si, algo ainda mais inquietante. A ACSS – Administração Central do Sistema de Saúde, de acordo com um relatório desta entidade citado pelo jornal, “congratula-se com a diminuição da procura das urgências hospitalares: ‘A evolução da actividade (…) está em linha de conta com o esperado, registando-se uma desejável moderação do acesso”. Quanto à diminuição das consultas presenciais nos centros de saúde, o documento destaca que houve uma ‘transferência para as consultas médicas não presenciais”.

O que quer isto dizer? Que a saúde dos portugueses melhorou? Que se fartaram dos médicos? Que se transformaram em exímios utilizadores das novas tecnologias da informação? Que gostam de telefonar? Não sei bem, mas sei que, no que às consultas diz respeito, não é de estranhar muito o aumento das consultas telefónicas, ainda que seja estranha a felicidade da ACSS com esse crecimento. Na verdade, falta aqui referir as restrições que, entretanto, foram introduzidas no transporte de doentes não urgentes, cujo pagamento foi extensivamente alargado a muitos milhares de utentes do SNS que, agora, perante os preços incomportáveis de uma deslocação em ambulância dos bombeiros a um hospital central ou a um centro de saúde, o único meio que tinham disponível para essa finalidade, ficam, naturalmente, em casa à espera de morrer mais cedo, com o consolo da voz amiga que lhe dá a consulta pelo telefone. Pouca importância tem para a ACSS que o Bastonário da Ordem dos Médicos seja de opinião que os contactos telefónicos não constituem verdadeiras consultas médicas, porque o que interessa, de acordo com a visão que têm os responsáveis desta entidade, é falar com um médico, nem que seja ao telefone.

O problema das restrições ao transporte de doentes não urgentes será, muito provavelmente, uma das mais importantes causas desta redução e seria importante que alguém do sistema de saúde relacionasse os factos, a bem da transparência com que estas coisas devem ser tratadas. Ainda há dias ouvia o responsável de uma associação humanitária de bombeiros voluntários situada a meio do distrito de Setúbal que se lamentava por ter visto a sua faturação média de transporte de doentes não urgentes reduzida de seis a oito mil euros para duzentos a trezentos euros por mês, o que só pode significar que quem necessita de cuidados médicos deixou de os procurar por falta de transporte. O mesmo responsável lamentava-se ainda das faturas incobráveis de gente incapaz de pagar os serviços de transporte, mas a quem, dizia ele, não rejeitaria nunca estes transportes. Afinal, é ele que vive naquela comunidade, que conhece as pessoas, que sabe que perderá a confianças das populações se as deixar de servir.

Estávamos, de facto, a viver acima das nossas possibilidades, como agora se diz por aí. Por isso, é melhor deixar morrer…

O caso dos lucros da GALP é igualmente fantástico. A dúvida que se coloca é, como é que, com o arrefecimento global da economia, a diminuição das transações e das deslocações pode esta empresa aumentar os lucros? Talvez a justificação esteja no facto de pagarmos uma das mais caras gasolinas da Europa, onde o preço médio da gasolina sem chumbo é, à data de hoje,  1.538 euros, enquanto o preço português, na mesma data, é de  1.713 euros. Talvez, mas não só, claro…

Dirão os defensores ultra liberais do mercado que uma coisa nada tem a ver com a outra, mas não consigo entender como pode a GALP ter tão significativo aumento de lucros num país onde o Estado não quer pagar transportes não urgentes de doentes, preferindo deixá-los morrer por falta de assistência. O mesmo Estado que não hesita em rasgar compromissos constitucionais de garantir a igualdade de tratamento entre todos os cidadãos, ao retirar a uma parte dos portugueses subsídios de férias e de natal, já depois de lhes ter baixado o salário. Estou a exagerar? Acho que não, mas, por via das dúvidas, se adoecerem, não recorram a um centro de saúde. Telefonem, mesmo que estejam afónicos…

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