Política, Setúbal

A nova Feira de Santiago

Todos os anos, por esta altura, a maior festa de Setúbal assenta arraiais, desde 2004, na zona das Manteigadas, depois de décadas instalada na Avenida Luísa Todi. Nove anos após a mudança, o tema da transferência de local da Feira de Santiago continua a gerar acesas discussões e acentuadas divergências. Nem seria de esperar outra coisa. Afinal de contas, quem tem mais de 20 anos lembra-se bem do que era a feira naquele espaço, lembra-se do que ali se divertiu e lembra-se dos hábitos que adquiriu de ir à avenida na última semana de julho e na primeira de agosto para comer uma fartura e ver gente.

A discussão sobre a mudança de local da Feira de Santiago não nasceu, porém, em 2004, quando a Câmara Municipal de Setúbal decidiu a mudança para um novo espaço. A discussão, na verdade, tem décadas. Não me lembro de ano em que, antes da feira começar e depois de acabar, não tivesse sido retomada a discussão sobre a necessidade de mudar a feira de lugar por causa das deficientes condições em que se realizava. Por um lado, eram colocadas como razões para a urgente mudança de local as dificuldades de estacionamento, por outro os incómodos que causava a interrupção durante mais de 15 dias do principal eixo viário da cidade. Havia ainda quem, com razão, invocasse o ruído provocado pela festa ou a falta de condições sanitárias e, do lado dos proprietários dos restaurantes da avenida, havia quem lamentasse a concorrência que, por aqueles dias, era feita pelas roullotes de comes e bebes ali instaladas. Ou seja, todos gostavam de ter ali a feira, mas a esmagadora maioria defendia a mudança, poder autárquico incluído.

A discussão tinha, sempre, a limitada duração de pouco mais de 15 dias e morria por aí. Os setubalenses reconheciam que era necessária a mudança, a Câmara Municipal também reconhecia e mostrava-se empenhada em encontrar solução, mas pronto, não passava daí.

A discussão ganhou novos contornos quando, em Outubro de 2001, é apresentado, em véspera de eleições autárquicas, o Plano Estratégico da operação de requalificação urbana Setúbal POLIS, elaborado pelo Ministério do Ambiente e do Ordenamento do Território e pela Câmara Municipal de Setúbal, com o apoio do Parque das Nações e dos consultores Quaternaire Portugal. Era José Sócrates ministro do Ambiente, Manuel da Mata Cáceres presidente da Câmara Municipal de Setúbal e Teresa Almeida vereadora do urbanismo, a mesma militante do PS que viria a ser, em 2009, candidata deste partido à Câmara Municipal.

O documento reconhece que, no contexto global da operação, a questão da localização da feira era uma das que tinha de ser resolvida. O Parque José Afonso era, para os autores do plano, o “campo ou o ‘logradouro do circo que chegava à cidade’. A maior parte do ano é ocupado por estacionamento descontrolado, por ocupações de veículos pesados, por atividades circenses. Durante 15 dias (última semana de julho e primeira semana de agosto) sucede a famosa Feira de Santiago que, embora formando uma parte da afirmação identitária da cidade, atualmente esta carateriza-se por uma certa degradação ao nível da sua imagem e apresentação. A feira, apesar do seu caráter histórico e popular, é considerada pelos atores auscultados, atualmente como um ‘claro elemento de degradação urbana da cidade’”.

Nota-se, nesta caraterização, a constatação da discussão, que durou décadas, sobre a necessidade de mudança do local da feira e a necessidade de defender as propostas que seriam feitas a seguir com a opinião dos “atores auscultados”. Ou seja, aparentemente estava toda a gente de acordo.

É fundamental que se recupere o que pensava o poder autárquico em 2001 para que não se reescreva a história e coloque apenas no atual executivo camarário a responsabilidade da transferência, como muitas vezes tem acontecido nos últimos anos, quer por parte dos atores políticos locais, quer por parte de muitos setubalenses que ignoram, ou esqueceram, alguns com evidente má-fé, as propostas que o PS fez neste Plano nos momentos finais dos 16 anos iniciados em 1985 em que governou a autarquia. Há, porém, que reconhecer que esta avaliação sobre a mudança de local da feira era, e é, correta.

No ponto 5 do Plano, onde se faz a “Caraterização da Intervenção” POLIS e no qual são descritas todas as ações que devem integrar a operação de requalificação urbana, propõe-se, na “ficha de intervenção” sobre a “Revitalização dos espaços públicos nos quarteirões existentes na área consolidada poente”, a “Revitalização do Parque José Afonso”.

A questão central desta proposta reside, como seria de esperar, na realização da Feira de Santiago naquele espaço. Os autores do plano começam por defender a transformação do parque “numa praça central, nomeável, parte fortemente integrante da cidade”. Para o MAOT e para a CMS, o “aproveitamento deste espaço em termos lúdicos potencia as suas mais nobres vocações, como elemento identitário de toda a cidade. As envolventes de praça pública, o centro de espetáculos e um espaço de feiras com frequência valorizariam todos estes vetores. Além do mais, um dos atravessamentos pedonais privilegiados entre a cidade e o rio passaria por esta zona. Verificou-se que existia um potencial garantido ao nível das feiras temáticas. É muito interessante verificar que a maior parte dos atores auscultados assumiu, desde logo, a sua disponibilidade para o apoio à divulgação destas dinâmicas”. Mais uma vez, e ainda que não os nomeie, o plano refere os “atores auscultados”, o que reflete, insisto, o alargado acordo que existia na cidade em torno da necessidade de mudar a feira.

Os autores do plano assumem que o “grande constrangimento aqui existente surge ao nível da realização da Feira de Santiago. Após uma cuidada auscultação de todos os atores, verificou-se que praticamente todos eles surgem de acordo em que a atual situação da feira anual não pode continuar como está”.

Os responsáveis do Plano Estratégico do POLIS reconheciam, também, que a “alteração do local da Feira de Santiago deveria ser objeto de uma análise mais aprofundada, dado o seu impacto na representação e identidade dos cidadãos perante a cidade”, mas não se inibiam de propor, “desde já”, “duas soluções alternativas”. Propunham, em Outubro de 2001, a “passagem da feira anual para uma outra zona da cidade, ainda bastante central. A zona das Manteigadas, assumidamente uma das novas centralidades da cidade, tem sido apontada como a hipótese mais preferencial. Esta é uma zona onde já estão instalados o Politécnico de Setúbal, a Escola Superior de Educação e onde já vive, atualmente, cerca de 50 por cento da população da cidade. Será importante ainda referir que a Feira de Santiago já esteve, na maior parte da sua existência, instalada noutro local”. A outra proposta refere que se pode aceitar a “continuidade da feira no local – Esta solução implica uma muito mais cuidada regulação da feira, por forma a evitar a sua atual descaraterização”.

Uma vez mais, e é importante referir que é uma vez mais, o plano salienta que “tanto a CMS como os diferentes atores auscultados estão de acordo com estas soluções, tendo ajudado na maturação destas. Existe a preocupação natural com algum tipo de contestação popular face à mudança da Feira de Santiago. Mas considera-se que não haverá grandes questionamentos se começarem a existir ‘feiras de qualidade’, e muito mais frequentes, no parque, e a feira passasse para as Manteigadas, o que todos consideram ser uma zona suficientemente central”.

Eis o que preconizava o ministro José Sócrates, o presidente da Câmara Municipal Mata Cáceres e a vereadora do urbanismo em Outubro de 2001 no Plano Estratégico da Setúbal Polis, o documento que determinou toda a estratégia de intervenção do POLIS de Setúbal.

Perante o que é defendido neste documento subscrito pelo executivo camarário de então, não deixa de ser extraordinário que, ainda hoje, se ouçam vozes, em particular do PS, a defender o regresso da feira à avenida e a atacar a nova localização. Os argumentos utilizados no ataque são vários, mas os que mais interessam são os que são passados subterraneamente e que, no essencial, são um ataque àquela zona da cidade e às pessoas que nela vivem. Claro que o objetivo principal é atacar o atual executivo municipal, aquele que teve a capacidade de pôr em prática o que todos defenderam durante décadas como inevitável.

A solução encontrada até pode não ter sido a melhor, mas a verdade é que foi a única possível no contexto da cidade e dos espaços que tem disponíveis para a realização de um evento deste tipo. Recusar esta ideia é uma manifestação de miopia inqualificável, só justificável por preconceitos partidários, ainda por cima contraditórios, no caso do PS, com o que propôs em 2001 no Plano Estratégico do POLIS. A coerência em matérias como esta deveria ser um bem absoluto. Infelizmente, não é assim…

Claro que, também eu, tenho uma posição clara sobre a Feira. Preferia que pudesse continuar a ser feita no local onde sempre a conheci e ao qual tenho uma ligação afetiva insuperável. Adorava ver o circo em frente ao Duarte dos Frangos, a roulotte do Torrão de Alicante sempre no mesmo sítio e as Bolachas Piedade com o mesmo pavilhão de todos os anos no mesmo local de sempre. Adorava os barros na zona poente da avenida, as bifanas e as imperiais na faixa de rodagem da avenida, as árvores do lago iluminadas por lâmpadas coloridas. Claro que adorava, mas isso não impede que se compreenda a racionalidade da decisão que foi tomada para que se pudesse fazer mais e melhor cidade na Avenida Luísa Todi, que hoje, não tenho dúvidas, está muito melhor do que estava, tem mais vida, mais atividade, mais gente. Além disso, só com grandes dificuldades suportaria, de novo, a feira.

A feira já mudou de lugar, ao longo dos seus 430 anos de existência, várias vezes. Arronches Junqueiro, em 1930, escrevia sobre a mudança de local da Feira de Santiago um texto cuja versão completa pode ser encontrada aqui e que, no essencial, continua absolutamente atual e serve de lição para aqueles que recusam a transformação, apenas porque têm saudades de si próprios: “Realejos, sinetas, tambores, gaitinhas, pregões, fazem um coro especial, característico da feira, que nunca se repete durante o ano em qualquer festa que se realize. É da feira. Só ela o produz. E em prova de que assim é, apresento o contraste entre este bulício, e o quase silêncio que reina hoje na atual Feira de Sant’iago.”

“É que são diferentes as duas feiras: a primeira morreu quando passou a sua iluminação do petróleo para o acetileno; a segunda nasceu com a eletricidade. Diferença de cenário, diferença de objetivos, trazem a modificação nos costumes.”

Para melhor?”  ̶  perguntava Arronches Junqueiro. “Evidentemente que sim” ̶  foi a decisiva resposta que deu à pergunta. E acrescentou  ̶  “nenhum de nós toleraria hoje a feira de há cinquenta anos. Se alguma saudade me desperta a recordação dela, é apenas saudade de mim.”

Arronches Junqueiro escreveu isto há mais oitenta anos, mas bem podia tê-lo escrito ontem, tal é a atualidade das suas palavras.

Não desprezo, obviamente, as saudades que cada um tem de si próprio. Mas a verdade é que já é tempo de passarmos à frente. Com a expansão da cidade para esta zona, com a requalificação da Avenida Luísa Todi, com novas exigências de estacionamento e de funcionalidade urbana, foi nas Manteigadas, junto à zona urbana com mais população e potencialidades de crescimento, que nasceu uma nova Feira. Porque ali também é Setúbal.

Standard

6 thoughts on “A nova Feira de Santiago

  1. Paulo Eusébio diz:

    Saudades de mim, também, não nego.
    Mas o que realmente resultou do Polis, para além dos gastos de meios, que terão deixado de ser utilizados em obras bem mais úteis, e, provavelmente, mais necessárias? A requalificação do antigo Lago, ou Parque das Escolas, contem um erro fundamental – a construção do apelidado de auditório, tal como foi concebido, projectado e erigido.
    Aquilo não serve para nada, além de ocupar o espaço com uma evocação, embora inconsciente, da construção naval, como se prova pela montagem de um palco para actuações englobadas na Setfest, e pela recusa dos elementos da Orquestra que tinha um concerto agendado para aquele local que chegaram, viram as condições acústicas, e não só, em que teriam de actuar, e debandaram, por falta de condições mínimas para execução musical de qualidade. Aquilo só serve para ocupar espaço e para “justificar” a despesa de quatro milhões de euro.
    Conta a ferira nas Manteigadas, tenho principalmente saudades de mim, melhor. do tempo em que não tinha quaisquer dificuldades motoras e poderia se então a Feira já se realizasse na actual localização deslocar-me com toda a facilidade que só um terreno plano como aquele em que decorreu o evento durante mais de meio século, me permitiria hoje.
    Saudades não sé de mim, mas de todos os que entretanto envelhecemos, e não podemos por esse motivo, desfrutar da Feira com o prazer que tínhamos outrora.

    • Também eu deixei de ter a alegria que tinha outrora em ir à feira, mas a verdade é que as coisas mudam mesmo. Veja a questão de outra forma: hoje, quem tem menos de 20 anos pouco se lembra do que era a feira na avenida. A referência destes jovens será sempre as Manteigadas. Podemos sempre dizer: no meu tempo é que era bom. Mas isso faz parte da própria vida e é o que os jovens de hoje dirão amanhã.

  2. José diz:

    Sempre me fez confusão esse argumento dos restaurantes. Que clientes é que estavam a perder? Provavelmente uma parte significativa dos clientes das roulottes de bifanas não iriam comer aos restaurantes da avenida de qualquer forma. Mais: quando a feira era na baixa havia mais um motivo para jantar na baixa. Agora qual é o interesse de jantar na baixa para depois pegar no carro e ir para as manteigadas? Agora sim, faz sentido comer uma bifana na feira, e deixar os restaurantes da baixa vazios. Sinceramente já me conformei que a feira é nas manteigadas, e que já não tenho razão para lá ir. A razão por que ia à feira era precisamente porque era na baixa, perto de bares e restaurantes, não tinha de me deslocar de propósito até lado nenhum. Animava o coração da cidade, dava vida a uma baixa que cada vez está mais moribunda. Agora nem me apercebo de que há feira, para mim foi uma festa que simplesmente deixou de existir. A «requalificação» do largo josé afonso foi um flop de todo o tamanho, não sei o dizem os «atores auscultados», mas nunca ouvi de nenhum setubalense uma opiniao positiva dessa «obra». Também não sei onde é que a avenida tem mais utilização e pessoas hoje do que nos tempos da feira, deve ser mais um dado dos «atores auscultados». Enfim, quem está mal muda-se, e eu se pudesse já me tinha mudado para outra cidade, Setúbal cada vez mais é interessante para ver de longe e rir um bocado.

    • O argumento dos restaurantes não é meu, mas sim dos proprietários dos restaurantes. Ainda me lembro do que diziam. Aliás, seria interessante fazer um levantamento dos jornais da época para se perceber bem o que se dizia então sobre a mudança da feira.
      Quanto ao facto de só ir a à feira porque era na baixa, compreende-se perfeitamente. Provavelmente, estava perto de casa e ia a pé. Mas, e agora, não serão muitos mais o vão a pé porque têm a feira mais perto de casa? Eu, pelo menos, quando lá vou veja centenas de pessoas a deslocarem.se a pé para a feira. Suponho que antes teria de apanhar a camioneta, como o senhor terá de fazer hoje para lá ir se não tiver carro.
      Sugiro-lhe que leia melhor o texto que escrevi, pois os “atores auscultados” que são referidos são os que constam no Plano Estratégico do Polis elaborado em 2001, repito, em 2001, e referem-se apenas à localização da feira e não a nenhuma obra em concreto. Também não sei quem são, mas não fui eu quem os inventou, embora me lembre bem do que se dizia por altura da feira sobre a necessidade de mudar de local. Talvez a vereadora do urbanismo na altura, que foi responsável pela elaboração deste plano, saiba a que “atores” se referia o documento, Temos de lhe perguntar… Ou melhor, se ela ainda exercesse o cargo de vereadora para o qual foi eleita nas últimas eleições talvez fosse mais fácil de lhe perguntar.
      A utilidade do auditório é, de facto, bastante reduzida. Concordo consigo. Todos reconhecem que a coisa não foi bem conseguida. Todos, não. Os pais da obra, Mata Cáceres e Manuel salgado, o arquiteto que é hoje vereador da CML, não se pronunciaram ainda.
      Já sobre a avenida Luisa Todi discordo em absoluto do que escreve. Nasci no parque das escolas, numa casa ao lado do Duarte dos Frangos e cresci na Fonte Nova. Sei bem o que era a avenida no tempo em que, às sete da tarde, não havia nada nem ninguém, excepto uma casa de frangos que está ali ao pé do pátio do Sérgio encerrada há muitos, muitos anos. Quer comparar o que era então com o que é hoje, com bares, esplanadas, a Casa da Baía? Mesmo na zona nascente da avenida há hoje mais gente, mais vida, ainda que não a mesma que na zona poente. Se não consegue ver isto, então não sei que lhe diga. Aqui não se trata de uma questão de opinião. Trata-se apenas de constatar uma realidade.

  3. Mike diz:

    Não obstante das razões apresentadas para a mudança, verificamos que a avenida está deserta ou quando não, é disponibilizado espaço a alguns feirantes para uma mini-feira, desprovida de qualquer qualidade, precisamente no local reclamado. É o que se verifica no presente, um espaço muito pouco utilizado, cheio de regras urbanísticas, de boa apresentação, mas sem utilidade pública. Isto tudo em nome da “funcionalidade urbana” que retira, pelo menos 15 dias de convívio setubalense à população, na sua baixa.
    Pense-se simples e reconheçam-se os erros. São somente 15 dias de “importuno” saudável à baixa.
    Importante mesmo não será proporcionar condições para que os habitantes desta cidade tenham gosto em andar na baixa da sua cidade? Esta pelo menos gozaria desta função nestes dias. Ficam 350 restantes dias disponíveis para a criatividade Camarária!

    • Nunca a avenida teve tanta utilização e pessoas como hoje. Afirmar que está deserta é um manifesto exagero. Quanto ao resto, claro que também eu sou de opinião de que a feira era melhor cá em baixo. Mas a questão é que já não é, e com o apoio dos muitos atores auscultados, como escreveram os responsáveis do plano estratégico do polis.

Comente aqui. Os comentários são moderados por opção dos editores do blogue.

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s