Setúbal

Ainda o estudo da DECO…

A minha posição sobre o “estudo” em que a DECO conclui que Setúbal é a cidade portuguesa capital de distrito com pior qualidade de vida tem suscitado alguns reparos e comentários, em particular de setubalenses, alguns deles meus amigos.

Acusam-me, em síntese, de ter um olhar manietado pela minha condição profissional, no pressuposto de que a cidade não será tão boa quanto eu a pinto. Aliás, isto acontece-me frequentemente, o que, convenhamos, me deixa na desconfortável posição de ser acusado de seguidista, de andar encarneirado, de ser obtuso… Alguns, com ligeira condescendência, até “percebem” que tenha “de ter” estas posições. Outros, menos compreensivos, acham que afirmar que “Setúbal é a melhor cidade do mundo para se viver“ é um manifesto exagero. Talvez seja, mas a verdade é que, das poucas cidades que conheço, esta é mesmo a melhor do mundo para se viver.

Terei de viver com as justificações alheias para o que defendo aqui, que não me preocupam excessivamente. Contudo, não as ignoro e, por isso, parece-me importante clarificar perante muitos setubalenses que, afinal, não gostam da sua cidade (pelo menos é isso que parece), qual é a minha ideia da cidade e do “estudo” da DECO que a coloca numa posição disparatada.

Admito que outros conheçam muitas cidades, em muitos continentes, e possam fazer comparações informadas.

Eu não conheço, o que, naturalmente, significa que o meu mundo é limitado. Mas será só o meu? Só conheço meia dúzia de cidades portuguesas e umas quantas na Europa onde não estive mais do três ou quatro dias como turista, o que não me autoriza dizer que as conheço muito bem. Com muita pena minha, aliás…

Sou um provinciano setubalense, que gosta da sua terra, gosta de peixe assado na Fonte Nova, da Avenida Luísa Todi, do Lago (como antigamente se chamava ao que era o Parque das Escolas e passou a ser o Largo José Afonso), do Bairro das Fontainhas, mesmo que decrépito, das redes desarrumadas em cima do pontão da doca, do cheiro a maresia, das ruas estreitas do bairro de São Domingos, da magnífica vista que se tem do Bairro Azul, da dignidade poética da Praça do Bocage, da pequenez comercial do Largo da Misericórdia, dos jacarandás em flor na Avenida Cinco de Outubro, da estação das camionetas nesta mesma avenida (estaria hoje melhor noutro lado) de onde parti para muitas aventuras, das águas gélidas da praia do Portinho, dos barcos para a Troia (mesmo caros).

Gosto do que tem melhorado significativamente nos últimos anos (lá estou eu…), da melhoria da limpeza urbana (ainda insuficiente, claro), das novas e mais regradas políticas urbanísticas, da Casa da Baía, da nova Casa da Cultura que abre este ano, do Fórum Luísa Todi que, tardiamente, é certo, vai reabrir em Setembro, da nova Avenida Luísa Todi. Gosto do esforço que se fez para sensibilizar os cidadãos para não sujarem a sua cidade. Ora cá estão aquelas coisas que podem perfeitamente dizer que “compreendem” por que é que as escrevo…

Tenho dificuldade em sair desta condição de setubalense, mas, claro, isso é problema meu.

Gosto da cidade, que acho cheia de virtudes, mas aceito e reconheço-lhe defeitos, com os quais me preocupo e contribuo com o meu esforço para ajudar a corrigi-los. Reconhecer-lhe virtudes e valorizá-las, independentemente de quem está no poder autárquico, é algo que sempre fiz e não será por, amanhã, haver uma transferência deste poder que deixarei de gostar da minha cidade, qual sócio do Vitória que rasga o cartão em dia de goleada à equipa da casa.

Temos problemas para resolver? Claro que temos. Fará isso de Setúbal a cidade do país com pior qualidade de vida? Acho que não.

Será possível chegar a conclusões perentórias, como as do “estudo”, que nos traz um conceito difuso de qualidade de vida, mascarado com índices de satisfação gerados a partir de 157 respostas de, supõe-se, associados da DECO? Também acho que não.

Quem são os 157 respondentes? Em que parte da cidade moram? Que idades têm? É suficiente para aferir a qualidade de uma cidade com 121 mil habitantes uma amostra de 157 pessoas? Pode esta amostra ser classificada como “representativa”, como faz a DECO?

Admito, sem qualquer dificuldade, que haja quem imagine uma cidade melhor e, por isso, não se satisfaça com a que temos hoje. Também eu quero uma melhor cidade, mas custa-me a admitir que, a partir deste estudo, se possa extrapolar para a conclusão de que esta é a cidade com menos qualidade de vida. Assim como me custa a admitir que se comparem realidades diferenciadas, como Viseu e Setúbal. Duas cidades, dois mundos completamente distintos do ponto de vista geográfico, obviamente, mas sobretudo do ponto de vista da composição social, económica, populacional e demográfica, dos saldos migratórios. Será possível fazer comparações entre Viseu, cidade interior, rural, sem metade das pressões demográficas, industriais e urbanísticas que aqui tivemos ao longo dos últimos cinquenta anos, para não ir mais longe, e a cidade sadina? Será justo basear esta apreciação num estudo de perceção, que não tem em consideração índices básicos, que podem ser retirados, sem dificuldades, de múltiplos estudos estatísticos?

Nem me parece que, neste momento, valha a pena valorizar mais o que de bom aqui existe, o que está a ser feito, o que foi feito. Para dar apenas dois ou três exemplos do que significou uma enorme melhoria da nossa qualidade urbana, recordo a construção da ETAR de Setúbal, há mais de dez anos, que melhorou, significativamente, a qualidade das águas do estuário, ou a construção de várias piscinas no concelho. Não resisto a dar mais um exemplo de como a cidade avança e se transforma: o Parque Urbano da Albarquel e o Passeio Ribeirinho da Praia da Saúde, que recuperam e devolvem aos setubalenses uma parte fundamental da sua identidade baseada na relação, económica e afetiva, como seu mar..

Paro por aqui os exemplos para não me venham dizer mais tarde que “percebem” por que escrevo isto.

Numa coisa, porém, o estudo da DECO, compreende bem esta cidade. Somos os nossos piores detratores, ainda que, em conjunto, adoremos a nossa cidade e cantemos, sem ponta de arrependimento, a canção onde o Mário Regalado e os Galés nos faziam perguntar, com a resposta já sabida, “onde é que existia um Rio Azul” igual ao nosso. Pode-se sempre argumentar que o Mário Regalado escreveu a canção noutros tempos e falava apenas do rio. Não me parece. O Sado dos Galés é e sempre foi a nossa cidade, e também sobre ela podemos perguntar, sem hesitação, onde é que existe uma igual à nossa.

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3 thoughts on “Ainda o estudo da DECO…

  1. Não nasci em Setúbal, mas moro na cidade há mais de 15 anos, não seria capaz de colocar por palavras o que sinto da forma que o faz aqui, mas é mesmo isso… todos os dias faço 55 Kms para cada lado para ir trabalhar do outro lado do Tejo, já me tentaram convencer várias vezes a mudar para mais próximo, mas não conseguem, porque concordo completamente consigo, Setúbal não será a melhor cidade do mundo para se viver, mas anda lá muito perto.

    Jorge Soares

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