Geral

As moscas e a merda

Quando escrevemos fica uma marca pensada, pois temos tempo de refletir, ao contrário da palavra oral, sujeita ao estado de espírito momentâneo. Por isso o título foi por mim pensado,  porque define uma hierarquia bem portuguesa, as moscas antes da merda. Reparem  podia escrever o mesmo que se segue e como título colocar:  A merda e as moscas.

Não estou a brincar, pois o título marca uma caraterística nossa, portuguesa. Preocupamo-nos mais com as moscas do que com a merda. Os portugueses, por exemplo, não aceitam que as moscas os incomodem enquanto se debruçam sobre as refeições (matam-nas). Muito menos toleram merda em casa. Será impossível (acho eu), entrar na casa de uma família portuguesa e encontrar merda espalhada pelo chão, seja  o cócó (eu sei que as palavras não podem ter dois assentos, mas estou um bocado farto de tal regra) de uma criança seja o do um cão.

No entanto, no espaço público, a merda  é aceite, embora as moscas mereçam igualmente a nossa desaprovação, como comprova o nosso esbracejar perante as moscas incómodas. O nosso povo aceita como normal a sujidade no espaço público. Quando passa por  locais porcos, nunca se lembra de pôr fim à sujidade, sujeita-se, incomodado, às moscas, afastando-as da melhor forma possível, à medida que lhes vai lançando injúrias e impropérios. Quanto à merda contorna-a.

Estou convencido que o problema português não são as moscas, é a merda. Teremos no nosso país, pelos meus cálculos, (sou sempre otimista) pelo menos três milhões de moscas, mais as melgas e mosquitos.

Os montes de merda, aqueles que alimentam as moscas, não passarão no entanto de uma centena. A maioria deles mantém-se, independemente do regime se denominar monarquia, monarquia constitucional, 1.ª república, estado novo e a atual democracia constitucional. Livros recentemente publicados em Portugal identificam os montes …

Um dos fatores importantes de mudança que se quer na nossa sociedade passa por uma limpeza da merda nos espaços públicos. Não será decerto tarefa fácil. Podemos começar por contar com a resistência, consciente ou não, de muitos daqueles que irão sofrer direta ou indiretamente com tal limpeza. Estes serão os testas de ferro daqueles que constituem os focos da imundice e da qual vem a verdadeira resistência.

Uma boa “estória” começa por … era uma vez.

Acabo esta crónica, começando por … era uma vez, já lá vão quase 40 anos, um povo que decidiu vir à rua lutar, porque acreditava que tinha uma palavra na construção do seu futuro.

De momento, qual urso no inverno polar, este povo, o meu povo, encontra-se em hibernação!

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