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A imprecisão do discurso científico

No âmbito do meu estágio, o diretor do jornal onde exerço, deu-me como tarefa, assistir à defesa de uma tese de doutoramento. Toda a redação se riu, pois conforme iam comentando abertamente, ir “cobrir” uma tese de doutoramento, era uma “não notícia”. Não fiquei preocupada, pois a comunicação social há muito que dá “não notícias” ou, como diz o meu velho, vai “enchendo chouriços” e “albardando o burro à vontade do dono”.

Na véspera, ao jantar, na sequência trivial das conversas que vamos tendo em família, informei-a que no dia seguinte iria cobrir a tese de doutoramento do quase senhor doutor Francisco Canaviais Serra Matos. Perante a face rosada da minha mãe e o ar pálido de meu pai, percebi que a constante conversa ao telemóvel do meu irmão, lhes tinha dado, por uma vez na vida, jeito, concedendo-lhes tempo para intervirem.

Recuperado, o meu pai disse: «Esse senhor não sabe ler nem escrever, é analfabeto. É um criminoso. Aliás toda a gente o conhece por Chico Seven-up». Continuou: «Seven-up, porque já matou sete pessoas. Mandou-as para o céu, diz ele». Tibuteando a minha mãe ainda exclamou: «A alcunha nada tem a ver com o seu lado criminoso». Calou-se perante o olhar alterado de meu pai.

O pesado silêncio que se seguiu, interrompido pelo tirintar do telemóvel do meu irmão, seguido de uma alterada troca palavras deste com a namorada, apressou o fim do jantar. As dúvidas que me assolaram transitariam para o dia seguinte. A cor das faces dos meus pais surpreenderam-me mais do que a conversa. O título de analfabeto atribuído ao candidato a professor doutor, tomei-o como exagero em relação a alguém que se detesta.

Um problema nos bancos traseiros do automóvel, resolvido com o auxílio do meu namorado, fez com que chegasse muito atrasada, mesmo comparativamente ao comum nacional, à defesa da tese. Cheguei no momento de encontrar o já professor doutor nas despedidas finais e ainda a tempo de me apresentar e de explicar àquilo a que vinha.

Confesso que o seu olhar, profundo e azul, me deixou incomodada, mas foi ao revelar-lhe o meu apelido, que o meu mundo caiu de pantanas. «És tal e qual a tua mãe nessa idade. Sabes que andei a comer a tua mãe? Ia-me casando com ela, pois gostava mesmo dela. Ainda bem que não o fiz, porque assim …». Interrompi, furiosa, vermelha e acalorada: «Não seja ordinário».

Sorriu. «Bom, o que queres?».

«Como decorreu a defesa da sua tese?». Respondeu com um sorriso trocista: «Lindamente». Piscou-me o olho e convidou-me a lanchar. Evitei a resposta e inquiri: «Consta que não sabe ler nem escrever, como pode ter um doutoramento?». Acrescentei, qual pistola engatilhada: «qual o motivo de ser conhecido pela alcunha de Chico Seven-up?».

Respondeu-me de forma simples: « Em relação à tua primeira pergunta, posso dizer que o meu doutoramento está suportado pelo empirismo que, como sabes, é um sistema filosófico que atribui exclusivamente à experiência dos sentidos a origem dos conhecimentos. Logo, o conjunto de conhecimentos adquiridos exclusivamente pela prática é mais do que o suficiente para completar o número de créditos necessários, para obter o grau académico de professor doutor».

Nesta altura, já estava com os olhos por completo arregalados, sem saber o que dizer ou pensar, quando ele completou: « Com respeito à alcunha, vais percebê-la através da práxis, que é o processo pelo qual uma teoria, lição ou habilidade é executada ou praticada, convertendo-se em parte da experiência vivida».

No outro dia de manhã, completamente inteirada do motivo da alcunha do Chico, do embaraço da minha mãe e do mal-estar de meu pai, retemperando forças para uma nova maratona, ele foi-me contando alguns detalhes respeitantes à sua tese.

Era verdade que não sabia ler nem escrever, mas uma professora universitária sua amiga tinha-lhe explicado como poderia ser dr. através do novo sistema de créditos, conhecido por “Bolonha”.

Recusou-se a ser licenciado, pois sendo ele um dos mais conhecidos criminosos portugueses, acrescido às suas raras competências, comprovadas pela alcunha “Seven-up”, concluiu que ser dr. não lhe chegava. Tão pouco mestre. Pediu à amiga para o apresentar à reitora da universidade, à qual mostrou, através do instrumento utilizado, a evidência da sua prática.

A reitora ficou de tal modo entusiasmada e convencida, que lhe propos a possibilidade de se tornar professor doutor.  Bastava passar a história da sua vida para livro, desde que respeitasse as normas burocráticas da escrita académica e tivesse muitas citações de autores conhecidos. E já agora, deixar de se dar com a colega universitária.

Acrescentou que ela própria seria a sua orientadora científica e lhe escreveria a tese, o que demoraria cerca de um ano. As equivalências às disciplinas necessárias, essas eram fáceis de obter, através do sistema de créditos, atribuídos pela sua experiência e prática de vida.

Chico, que não era parvo, percebeu que durante um ano, ela lhe poria a rédea curta. Mas esse instinto selvagem, que nasce com todos os portugueses, de quererem ser professores doutores, ou pelo menos só dr., prevaleceu. E depois, pensou, a mulher não vai aguentar tanto tempo.

Ao longo dos anos, Chico tinha guardado todas as evidências do seu percurso pessoal. Recortes de jornais e de revistas referentes a assaltos e assassínios, sentenças dos tribunais, relatórios da polícia, reportagens da tv, cartas das suas fãs, cópias dos vídeos dos filmes pornográficos onde tinha participado. Pensou que, não só apresentaria uma tese de doutoramento muito forte, como esta seria extremamente enriquecida com todas estas evidências apresentadas em anexo.

Da tese, confidenciou, só não gostava do título, pois este era muito comprido. Por ele bastava “A imprecisão do discurso”. Mas gostava muito das citações, envolvendo grandes nomes como o Marquês de Sade, Casanova, Anais Nin, Marilyn Monroe, Cicciolina, Henry Miller, Vénus de Milo, Tomás Taveira. Percebeu a razão do título também ter a palavra “científico”. Assim era possível citar-se grandes nomes dessa área, dos quais ele só tinha fixado um: Albert Einstein.

Perante a minha curiosidade, explicou que esse tal Einstein, embora mau aluno na escola, tinha acabado por ser um grande homem, um “vulto”, como dizia a minha orientadora científica. Tal como ele, Einstein fora um burro na escola, mas um “vulto” na vida real.

Definitivamente, o título da tese estava-lhe atravessado, qual espinho na garganta, pois voltou a ele, refletindo em voz alta, como se estivesse apenas a falar consigo.

«A imprecisão do discurso chegava, pois mostro na tese como o discurso não é preciso. Já fui para a cama com mais de mil mulheres. Juízas, advogadas, costureiras, operárias, diretoras da cadeia, polícias, bombeiras, professoras, ministras, engenheiras, estrangeiras, pretas e brancas, amarelas e mulatas, novas, maduras e velhas, casadas e solteiras, viúvas e divorciadas, desempregadas, irmãs e gémeas.  Porquê? Porque falo bem? Não, nem preciso de dizer nada.

Fui protagonista de uma série de filmes, nos quais nunca precisei de falar, uns grunhidos chegaram.

Matei sete tipos, não foi preciso dizer nada, aponta-se a “fusca” à tola e dispara-se.

Nos assaltos, basta dizer mãos no ar ou tiro nos cornos, obedeçam!

Enriqueci, tenho uma boa vida, para tal não necessitei saber ler nem escrever, muito menos falar».

Respirou fundo, alheio a tudo o que o rodeava e continuou:

«Agora reparem nos que falam muito. O primeiro que me lembro foi um profesor tutor que tive, quando tinha 13 ou 14 anos. Um dia estava ele a discursar sobre as horas a que eu me devia levantar, quando me passei e lhe parti os dentes. Ficou em estado de choque e deixou de ser professor. Depois um juíz mandou-me para o reformatório até aos 18 anos, não sem antes ler um discurso interminável, sobre a honestidade, retidão, reabilitação, juventude, fé no futuro.

Apanhei quatro anos, mas uma noite, ao fim de três semanas, eu e mais três malandros sequestrámos os vigilantes, pegámos fogo a uma ala do edifício e pirámo-nos. Só fui apanhado alguns anos depois, perto do meu vigésimo aniversário, porque tive que matar um palerma que se pôs à frente de uma caixa registadora, que nem sequer era dele.

Ao descobrirem quem eu era, vi as coisas pretas. Felizmente tinham-me falado de uma dondoca advogada, muito reconhecida, que só defendia os in e a troco de muito dinheiro. Consegui que me atendesse, mas, meia enojada, começou com um grande discurso, que não defendia gente simples que não tivesse bens. Quando baixei as calças não disse mais nada e defendeu-me na barra de tribunal com unhas e dentes. Tanto que apanhei apenas cinco anos de pena suspensa. Desde esse dia que é a minha advogada particular, sempre com bons resultados para os dois.

Pelas minhas contas, já estive presente em mais de 20 julgamentos e ao todo apanhei quase 100 anos de prisão. Milhares e milhares de páginas escritas, discursos intermináveis dos polícias, das testemunhas, dos juízes e dos advogados, para quê? Estive lá dentro ao todo pouco mais de cinco anos. Concluo: Era preciso tanto discurso? Não! Só fala muito quem não tem argumentos, evidências.».

Esboçou o seu sorriso caraterístico, sinal que tinha voltado à realidade. «Acho que nunca falei tanto. Devo estar com o coração mole, fazes-me lembrar muito a tua mãe».

Perguntei-lhe se sabia o significado da palavra imprecisão. Sorriu com os olhos, puxou-me para ele e disse: «Se quiseres ter conversas intelectuais, arranja um namorado».

Antes de recomeçarmos, ainda lhe perguntei: «O que é feito da tua orientadora de tese?». Com alguma nostalgia na voz, respondeu: « Valia mais do que eu pensava. Há cerca de 15 dias, fruto de uma noite muito animada, teve um ataque de coração e ficou-se. Paz à sua alma!».

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