Setúbal

Setúbal e o estudo da DECO

O “estudo” da DECO recentemente divulgado no qual se atribui a Setúbal o estatuto de pior cidade do país para se viver não pode ser levado a sério. Constitui, além de uma ofensa à inteligência de quem o lê, uma ofensa aos setubalenses, produzida com enorme leviandade e falta de bom senso.

Vamos por partes.

Seria de esperar que um estudo da DECO, associação de defesa do consumidor com enorme prestígio, apresentasse uma ficha técnica detalhada com as metodologias utilizadas, em particular porque, no caso em apreço, se trata de avaliar cidades. Avaliações negativas, como a que é atribuída a Setúbal, têm, naturalmente, enormes repercussões políticas, sociais e económicas que acabam por ser ainda mais ampliadas pela reprodução dos resultados do estudo em vários órgãos de comunicação social.

O único dado sobre a metodologia utilizada no estudo, divulgado na revista Proteste, indica que foram enviados 3055 questionários para uma “amostra representativa” nas 21 cidades portuguesas  sobre as quais incide o trabalho (capitais de distrito e Funchal, Angra do Heroísmo e Ponta Delgada). Nada mais é explicado, nada mais é apresentado aos leitores que não uma avaliação das cidades em vários aspetos, numa escala de pontuação de zero a cem.

Não se pode ter a certeza, mas pressupõe-se que os questionários terão sido enviados a associados da DECO. Não se sabe a estratificação da amostra e, mais importante, não se sabe quantos questionários foram respondidos em cada cidade.

Contas simples indicam que a cada uma das cidades caberiam 145 questionários. E são contas simples porque outras não nos são permitidas fazer, face à ausência de mais elementos. Ainda que a Setúbal pudessem caber mais cinquenta por cento de questionários, ou seja, 217, há que reconhecer que é uma base bastante limitada para uma cidade que tem 121 mil habitantes.

Depois, há um problema que, esse, é insolúvel. O estudo apresenta comparações entre cidades, quando o que foi, provavelmente, pedido aos inquiridos não foi que comparassem cidades, até porque nãos as podem conhecer a todas, mas apenas que dessem a sua opinião sobre questões concretas. Porém, no resultado final temos, na prática, cidades que são comparadas com outras, sem que os inquiridos tenham feito essa comparação. Um exemplo: como pode Setúbal ter a pior classificação nos horários municipais, quando eles são iguais em todo o país e sabendo-se, até, que em Setúbal vários serviços funcionam à hora de almoço para facilitar a vida aos munícipes? Supõe-se que se está a falar de horários de atendimento ao público, mas , também aqui, não se pode ter a certeza. São então piores os horários municipais em Setúbal, que, de forma geral, implicam a abertura dos serviços às 9h00 e encerramento às 17h30, do que no resto do país?

O estudo da DECO tem, por outro lado, a particularidade de colocar Setúbal à altura de Sevilha, cidade que, neste pseudo ranking feito sem qualquer rigor, está na 97ª posição do estudo europeu feito em parceria com as associações congéneres da DECO. Setúbal, aliás, está até à frente de muitas outras cidades europeias, o que revela, uma vez mais, a pouca sustentação técnica do estudo, que mais não é do um estudo que avalia a perceção que meia dúzia de cidadãos tem da sua cidade.

Nada impede a DECO de fazer estudos destes, mas divulgá-los como o produto de um trabalho de rigor, a partir do qual praticamente nos dão certezas sobre a qualidade de vida nas cidades é de uma irresponsabilidade atroz, de uma enorme falta de bom senso e, no limite, uma ofensa a todos os cidadãos destas cidades, e, em particular, aos cidadãos de Setúbal.

A nossa cidade não é nem melhor nem pior do que as outras. Tem defeitos que outras não têm; tem virtudes que outras não têm.

Setúbal, porém, é forçoso afirmá-lo, é uma cidade dotada de enorme riqueza cultural, social, histórica e política e grande força de trabalho e económica, tem excelentes acessibilidades rodoferroviárias e marítimas, está dotada de hospitais públicos e privados de qualidade e tem rápido acesso aos melhores e maiores hospitais do país. A cidade possui companhias de teatro, de dança, dezenas de coletividades e associações populares, produz artistas e desportista em enormes quantidades, tem equipamentos culturais, uns em remodelação outros em construção, tem um instituto politécnico reconhecido. Temos, por outro lado, património natural incomparável, praias de qualidade, hotelaria que se qualifica cada vez mais, uma escola de hotelaria de grande qualidade que começará a funcionar em breve, espaços públicos requalificados, uma zona ribeirinha que se abre cada vez mais aos cidadãos.

Temos enormes recursos e virtudes que não podem ser postos em causa por um estudo mal feito, pouco sério, ofensivo e disparatado.

A DECO, para manter a seriedade e credibilidade a que nos habituou, deveria, de imediato divulgar os critérios e metodologias utilizadas no estudo e divulgar quantos questionários recebeu de Setúbal para que todos possamos saber do que estamos a falar.

Até lá, para mim, este estudo mais não é do que uma invenção sobre o que é Setúbal sem qualquer correspondência com a realidade da cidade.

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4 thoughts on “Setúbal e o estudo da DECO

  1. Lígia Andrade diz:

    A cidade de Setúbal sem a Arrábida, sem o Sado e a beleza geográfica que a enquadra o que seria? Um amontoado de uma paisagem urbana descaracterizada, feia, triste, grande parte ao abandono – culpa de anteriores executivos que deviam estar envergonhadíssimos com este estudo da DECO. A Secil mata, a cada dia, o verde da Serra Mãe, ‘morada preferencial’ do poeta Sebastião da Gama. Admirar as antigas e pitorescas fotografias de Américo Ribeiro, ilustre fotógrafo setubalense, e compará-las com a actualidade é exercício penoso. Claro que a culpa, ou a grande culpa, não seja do actual executivo, que, em parte, tem vindo a desenvolver uma política de interacção entre munícipes no âmbito de diversos projectos autárquicos. Contudo lamento que o mesmo não seja estendido a outras áreas, acabando por cair num manancial de festas, carnavais e muitos eventos (muitos deles esfumam-se no tempo). Onde está uma publicação condigna sobre a cidade e a actualidade – não exitem investigadores, historiadores? – Porque não aposta a Câmara Municipal mais em estudos, livros, que em eventos? Sobre a qualidade de vida e a limpeza – as pessoas sujam a cidade, o que hoje está limpo, amanhã está sujo e/ou grafitado. Basta andar pelas ruas e perceber que assim é – o senhor Paulo Anjos não deve andar muito a pé nas ruas da cidade para não lhe achar mácula alguma – que com o seu ponto de vista que só lhe encontra virtudes também não é objectivo nem sério… Continuando, os bairros da Bela Vista, do Montebelo, Terroa ou Camarinha são medonhos. Na Bela Vista, por exemplo, os moradores não se agrupam para cuidar dos seus jardins tornando-se necessário que sejam os funcionários autárquicos que venham limpar o que eles próprios sujam ou degradam. Como diz o velho provérbio ‘não lhe ofereças o peixe, ensina-o a pescar’. A baixa da cidade está decrépita. A Avenida 5 de Outubro está um susto, etc, etc… Até o lindíssimo Convento de Jesus tem um largo árido e inconsequente à sua porta. Reitero: as ‘coisas’ bonitas da cidade são de outras épocas, tudo o que lhe foi acrescentado veio estragar. O único oásis do Concelho, em diversos aspectos, por enquanto, ainda é Vila Nogueira de Azeitão porém as novas moradias, construidas no centro da vila (e em Brejos…) também não lhe conferem grande beleza. E nesse sentido pergunto onde está o supervisionamento da Câmara – os fiscais, o gabinete de arquitectura paisagística, etc…?! Setúbal é hoje, infelizmente, uma cidade estagnada. A praia de Tróia também foi, de certo modo, barrada aos setubalenses. No Distrito de Setúbal até a cidade de Almada lhe passou à frente no que concerne a desenvolvimento. Lamento tudo isto que enunciei e teria adorado não estar a escrever estas palavras sobre a cidade mas penso que se deve colocar o dedo na ferida para analisar melhor os problemas. (Nota: acerca do título do blogue fiquei na dúvida se se diz Praça do Bocage ou Praça de Bocage. Parece-me mais correcta esta última)

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    • Lamento que apenas goste de uma cidade que já não existe. Eu gosto da minha cidade, gosto da Setubal que sempre conheci e onde nasci, independentemente do poder autárquico que a cada momento governe. Não escrevi em lado nenhum que não lhe encontro mácula, pelo que não percebo de onde tirou essa conclusão. Por conhecer bem dos males que padece é que me interesso tanto por ela. Coisa bem diferente de contestar um estudo que tem por base 157 respostas que são dadas como representativas de uma população de 121 mil habitantes, estudo que se afirma sério e credivel, ainda que nao saibamos como foi feito. Se acha que o estudo é sério só porque confirma as suas opiniões, então estamos conversados.
      Ha contudo algo que me intriga: se esta é uma cidade tão má para se viver, como é que continua a atrair tanta gente?
      Sobre o título, a praça sempre foi conhecida pelos setubalenses como Do Bocage, ainda que a designação oficial possa ser De Bocage. Preferi a designação popular…

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  2. Manuel diz:

    Acho que Setúbal não é de facto uma boa cidade para se viver, tendo eu vivido em duas outras cidades muito recentemente. Infelizmente este executivo camarário está mais interessado em deslindar o método deste estudo do que melhorar a vida da população. Trabalhem mais e analisem menos métodos alheios.

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    • Concordo que tem o direito de não gostar de viver em Setúbal e de gostar de viver noutro lado qualquer. Eu gosto de cá viver e acho que é uma boa cidade para se viver. Registo, porém, que, para sustentar a sua opinião afirma que viveu, e recentemente, noutras duas cidades sem dizer quais. Seria importante poder confirmar isso, mas não faço questão.
      Sobre o estudo em si, imagine que o seu patrão chegava um dia e lhe dizia “fiz um estudo entre os teus colegas que indica que tu és um mau colega de trabalho e, por isso, vou-te despedir”. O que o preocupava mais, ainda por cima estando certo de que é bom colega e bom trabalhador: saber como chegou o patrão àquela conclusão, que para si é totalmente descabida, ou ia melhorar a sua prestação profissional, que já é boa, ainda que já tivesse sido despedido e condenado à partida?
      Sobre a qualidade da cidade, sei que lhe deve ser difícil reconhecer, mas a verdade é que esta é a melhor cidade do mundo para se viver, e, nos últimos anos, muito tem sido feito para que seja ainda melhor. Dispenso-me de lhe dar exemplos, porque eles são visíveis e para que não me acuse de fazer propaganda. Ainda que seja verdadeira…

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