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CAMINHAR

Hoje não! Hoje, não me apetece escrever sobre política! Quero divagar, deixar que o pensamento esvoaçe e, se for caso disso, escreva uns quantos disparates. Mas… hoje, não!

Aí vai o Caminhar.

Andava lentamente pelo estreito caminho entre arbustos e árvores, por entre cheiros a rosmaninho e alecrim; com o mar lá em baixo, o pensamento soltara-se, vago, impreciso, sem tema claro. Deixava simplesmente planar as ideias desconjuntadas que mal tocavam a consciência.

Parou.

Os olhos alongaram-se na vastidão e fixaram aquela zona onde céu e mar se uniam formando uma curva ténue, ligeira, mais sabida que sentida, e que, para além daquela, outra e mais outra e outra levariam ao encontro de uma porção da Terra.

Ela sabia e não temia que aquela linha fugazmente curvilínea fosse o fim do mundo, onde as águas do mar se precipitariam, arrastando o céu para o vazio e o negro onde o tempo se perderia.

Ela não temia, como o temeram outros olhos, que, espantados, se perguntavam onde acabaria aquela vastidão.

Os séculos passaram e esses olhos morreram e outros se ergueram e sonharam, vendo a imensidão do mar em tumulto, o desconhecido que gerava a ânsia do desafio.

Esses antepassados longínquos que tão pouco sabiam do além, onde o Sol desaparecia em cada dia no seu girar enganoso, mas feito da certeza ensinada de que a Terra era o centro do universo.

Talvez o mundo deles fosse mais curto e breve, mas talvez os seus dias fossem mais longos e duradoiros!

O tempo era o dia e era a noite; o Sol era o relógio que lhes guiava os gestos e os passos.

A Lua anunciava-lhes os meses, a duração das gestações dos novos seres e predizia um outro tempo. A Lua anunciava-lhes um outro tempo mais longo: o das noites, das sementeiras, das doenças e das chuvas, das menstruações, e o número de luas contava-lhes as estações e os anos de vida.

O tempo não seria tão rigorosamente avaliado como hoje, em que o tempo vale tudo e vale nada. Adoecemos, porque já não nos ajustamos à passagem das horas! Eles viviam as horas e o tempo era acolhido sem angústia; a vida era o tempo do Sol e da Lua e apenas se temiam os ventos, as tempestades, as cheias dos rios, que destruíam o tempo, tornando inútil a labuta de crepúsculo a crepúsculo, o da noite e o do dia.

Sentiu-se irmanada com eles, desejando que não lhe fugisse o tempo daquele crepúsculo solar fazendo cama sobre o mar.

E a linha ao longe, pareceu-lhe mais nítida na sua curvatura, união intemporal do mar e do céu, curva inefável da Terra, dissimuladora tenaz, revolteando-se sempre sobre si mesma há séculos, milénios de vida e de assombro humano!

Suspirou longamente sem quase o sentir. E deixou que o turbilhão das águas a levasse lá onde o mar se lançava no negro e no vazio, arrastando consigo o céu, as estrelas e o sol e onde o tempo seria Nada.

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