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Crónica de uma viagem… a Lisboa

Os dias têm estado bonitos e com temperaturas a combinar, ideais para viajar, para conviver com os amigos ou simplesmente para desfrutar… do local ou da companhia.

O Carlos, amigo de infância e colega de carteira de muitos e muitos anos de escola, há meses que insiste para que o vá visitar.

Dos amigos gosto de saber que há reciprocidade de sentimentos e que se continua fiel à jura de amizade eterna, erigida há muitos anos atrás e mantida ao longo de décadas, apesar dos muitos percalços que a vida se encarregou de criar.

Ter amigos ajuda sempre nos poucos ou nos copiosos instantes de felicidade ou nos momentos de desânimo.

Podia ter ido de carro (ao sair de casa, lá está ele, no parque de estacionamento, a olhar para mim, e eu… a olhar para ele. Ainda não é desta que o levo.), mas os tempos são de contenção. Decidi ir de autocarro por ser o transporte mais económico.

Quando viajo, só, diligencio o modo adequado de dissimular o tempo. Podia dormir um pouco, é certo (atendendo a que o dia ainda agora principiou), mas não seria nada agradável para a pessoa que tem a desdita de compartilhar comigo o mesmo banco.

Invariavelmente opto por comprar um ou dois jornais para ler ao longo da viagem.

Já sentado, procuro encontrar a posição mais confortável e o modo de não incomodar o meu parceiro de viagem. Acreditem que é um problema difícil dado o pouco espaço que medeia entre os assentos. Ainda na gare, quando me preparava para ver os títulos da primeira página de um dos matutinos, o veículo (comprado na Alemanha, quem sabe…) pôs-se em marcha, pontualmente, à hora marcada.

Ainda tento abrir um dos jornais, mas depressa abdico. O cavalheiro que está ao meu lado é forte. Gordo, mesmo. Estou encurralado entre ele e a janela do autocarro. Não há nada a fazer. Poucos minutos depois, já com a cidade de Setúbal a ficar para trás, o martírio principia. O meu companheiro adormeceu, de modo abrupto, e descobriu que o meu ombro era o travesseiro providencial. Que maçada, penso.

Quanto ao jornal… mantenho-o dobrado.

Olho através da janela – na tentativa de me distrair – e aprecio a serra, que bem conheço, mas que nunca é igual. O espectáculo que proporciona, de cor e de vida, é de um esplendor inenarrável. O pior é o percurso, todo ele entrecortado de subidas e descidas, de acelerações e travagens, algumas bruscas, mais as múltiplas paragens às quais já perdi o conto (número), num trajecto longo e tortuoso que só termina em Cacilhas.

À medida que o autocarro avança, o ar que se respira, no interior, é cada vez mais quente, e quase que asfixia. A roupa dá os primeiros sinais de se querer colar à pele.

O roncar do motor é, também ele, uma autêntica sinfonia… sinfonia diabólica e desafinada. Mas a música continua. A do motor e a do meu companheiro de viagem. Possivelmente, eu é que não estou aclimatado.

São muitos os que a esta hora se dirigem para os seus empregos e todos são indiferentes (assim me parece) a tais circunstâncias.

O meu companheiro de viagem dormiu o tempo todo. Diria que até sonhou. Estou amarfanhado, fatigado.

Ainda falta chegar à margem norte do Tejo.

Embarco no cacilheiro, apinhado de gente e, enquanto navega, descanso e aproveito a paisagem bela, e fico inebriado pelo prazer olfativo a maresia que o vento me trás de mansinho. Ao fundo, já de costas para Lisboa, a caminho da linha do horizonte, avisto a Sagres, a “grande”, com suas velas ao vento desfraldadas, símbolo do “nosso querer… e saber”, tantas e tantas vezes tão mal tratado e amado.

É preciso acabar com a satisfação pequena (que nos querem impor) de nos contentarmos com “o bastante de nos bastar”. Adiante… são contas de outro rosário.

Aqui, onde viajo, as preocupações são mais pequenas. Há pressa em chegar mas mais em voltar. Haverá outras?

São muitos – maus e bons – os contratempos e as surpresas inesperadas que acompanham os que viajam. É sempre bom sair de casa. Mesmo que seja para dar pequenos passeios, pequenos nadas…

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