Política, Setúbal

Má-fé ou ignorância?

A nova presidente da Federação Distrital de Setúbal do Partido Socialista começa mal o seu mandato. Muito mal.

Em entrevista que concedeu hoje ao jornal “O Setubalense” debita um chorrilho de disparates que, das duas uma, ou são sinal de ignorância ou, pior, são a prova de uma má-fé política a toda a prova. Estou capaz de acreditar mais na segunda hipótese…

Diz a novel dirigente que o “modelo comunista de gestão autárquica está, metaforicamente, falido”, declaração que nada traz de novo ao habitual discurso do PS, de tão habituados que estão a fazer dos comunistas um alvo a abater. A contradição entre o discurso da dirigente socialista e a realidade é, porém, tão acentuada que não é possível ignorá-la…

Madalena Alves Pereira aproveita a passageira brisa da vitória eleitoral nas eleições federativas, enfuna a vela e aí vai ela em velocidade de cruzeiro. Na ânsia de fundamentar o que acabara de afirmar revela que os “números evidenciam um grau de endividamento elevadíssimo. A Câmara do Seixal é uma das três do país com uma dívida a fornecedores acima dos 100 milhões”. Se é verdade que a Câmara do Seixal está nessa lista, já não se compreende que a líder federativa, em nome da sustentação da relação direta que faz entre a dívida seixalense e a falência do “modelo comunista de gestão autárquica”, aparentemente a causa de todos as maleitas das autarquias CDU, não explique, então, por que razão uma das câmaras municipais mais endividadas é, vá-se lá perceber porquê, a autarquia de Portimão, liderada pelo partido de Madalena Alves Pereira e com dívidas que ascendem a 148 milhões de euros. Poderá também a líder socialista explicar a razão que leva a que uma das mais pequenas autarquias do país, liderada também pelo PS, a Câmara de Mourão, tenha uma das maiores dívidas, ou seja, cerca de 3016 euros por habitante. Será do “modelo comunista de gestão autárquica”, ou será antes das sucessivas alterações na lei das finanças locais e da retirada de meios financeiros às autarquias, acompanhada sempre de mais e mais responsabilidades, que afetam, em diferentes escalas, todas as autarquias do país, sejam elas “comunistas” ou “socialistas”?

Depois, vem o disparate mor, asneira da grossa para sustentar mais asneira, ou o que lhe quisermos chamar. Madalena Alves Pereira estende pano e afirma que “Setúbal, como é sabido, já outorgou um contrato de reequilíbrio financeiro”. Já outorgou? Pois já… Mas isso foi em 2004 para pagar as dívidas com que a gestão de 16 anos do socialista Mata Cáceres deixou a autarquia falida. Foi a CDU, a tal do “modelo de gestão comunista”, que resgatou a Câmara Municipal com um contrato de reequilíbrio financeiro celebrado com o Governo e que, além de lhe impor taxas máximas em todos os impostos municipais por uma série de anos, permitiu pagar uma parte bastante significativa da dívida deixada por Mata Cáceres, embora o serviço da dívida contraída no âmbito deste contrato continue a onerar as contas municipais, hoje e ainda por muitos anos, por exclusiva responsabilidade da gestão PS/Mata Cáceres.

O despudor é total. A dirigente federativa usa um contrato de reequilíbrio financeiro que foi assinado pelo executivo CDU na autarquia setubalense para resolver os problemas provocados pela gestão do PS para agora vir atacar precisamente aqueles que resolveram o problema, ou seja, a CDU. Só pode ser má-fé política. Ou pior.

Madalena Alves Pereira tinha 34 anos na altura, mas é difícil acreditar que não estivesse atenta ao que se passava em Setúbal depois da derrota do PS em 2001. É difícil acreditar que não saiba que o contrato de reequilíbrio financeiro foi para pagar as dívidas do PS, e isto porque o Governo reconheceu, o que foi praticamente inédito, o desequilíbrio financeiro das contas deixadas pelo Partido Socialista em Setúbal

Depois, como se não lhe bastassem os disparates anteriores, diz, com a certeza dos sábios, que os “municípios de gestão comunista são aqueles que apresentam, genericamente, o maior número de cargos dirigentes nos quadros de pessoal e que, consequentemente, serão também objeto de redução com as novas medidas do Governo”. Vá lá… Teve o cuidado de introduzir o “genericamente”, mas, ainda assim, não deixa de nos permitir adivinhar, mais uma vez, que a má-fé política é a característica que mais se destacará no seu mandato federativo. Madalena Alves Pereira, nas contas genéricas que fez, só se esqueceu de referir que, nas 13 autarquias do distrito de Setúbal, três são dirigidas pelo PS e que nessas três está uma das que, no país inteiro, mais dirigentes terá de reduzir. Essa autarquia terá de reduzir em 88 por cento o número de cargos dirigentes e é nesse território que o rácio de dirigentes/número de habitantes é, neste momento, de 16,8 dirigentes por cada dez mil habitantes, rácio que, no concelho de Setúbal é apenas de 2,6 dirigentes por dez mil habitantes. Tal município, que não é, de certeza, um dos que obedece ao “modelo comunista de gestão autárquica”, não entrou nas contas da dirigente do PS e é presidido por um dos mais queridos autarcas socialistas, nada mais, nada menos, do que Carlos Beato, tão só o presidente da Câmara Municipal de Grândola.

O que é de estranhar é que, de forma absolutamente oportunista, a dirigente federativa não se pronuncie sobre os malefícios da obrigatoriedade da redução de dirigentes municipais e as dificuldades que tal medida provocará na gestão quotidiana de muitas autarquias. Madalena Alves Pereira não vê para lá do seu umbigo e esquece que a redução de dirigentes, medida cega imposta pela Troica, prejudica de igual forma a esmagadora maioria das autarquias, entre as quais a do seu camarada Carlos Beato.

A novíssima dirigente federativa garante que a mudança da gestão autárquica no distrito “ocorrerá pela afirmação de um projeto autárquico de gestão rigorosa dos dinheiros públicos, de procedimentos éticos e transparentes nas contratações de serviços e de pessoal”. Perante o que disse nesta entrevista ao “Setubalense”, certamente não estará a falar do PS. É que, ainda no que respeita às contratações de pessoal, era interessante que a dirigente federativa apresentasse, por exemplo, o rol de pessoal dos gabinetes pessoais de autarcas como Carlos Beato. Talvez aí se percebesse mesmo que Madalena Alves Pereira, quando fala de “procedimentos éticos”, deve estar a falar de outra coisa qualquer que não do seu próprio partido…

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