Cultura, Geral

Para Glória Futura dos Bonecos de Extremoz

 

“AMOR CEGO” terracota com englobes / 2010 (40,3×23,5×20 cm)

As relações entre a estética popular e a estética culta foram sempre equívocas. Ortega y Gasset (*) atribui à arte moderna, que se pode considerar ter tido o seu início no Renascimento, a intenção de rejeitar sistematicamente o que é «humano», rejeitando as paixões, as emoções, os sentimentos que os homens vulgares colocam na sua existência vulgar, representando e participando nos acontecimentos artísticos como se fossem acontecimentos reais da sua vida. Quer isto dizer que, nos antípodas da «estética culta» que, no limite, cumpre o destino que Genet traça :teremos a delicadeza, por vós ensinada, de tornar impossível a comunicação (**), a «estética popular » é a afirmação da continuidade da vida na arte. Dois campos distintos, com uma linha de fronteira e uma terra de ninguém que ninguém atravessava, até à democratização iniciada com a Revolução Francesa. Esse território reduziu-se, começou a ser atravessado em vários sentidos. As formas de arte popular adquiriram o estatuto de arte, ainda que fossem classificadas de artesanato, continuando a repetir saberes e práticas ancestrais. Quando eram enriquecidas por novas figurações na música, no teatro, nas artes plásticas, nos contos e na poesia popular, absorviam o novo, obrigando-o a conformar-se formalmente às identidades milenárias. A força das práticas antigas era indestrutível, Submetia o que adoptava aos seus conhecimentos imemoriais, permanecendo insensível às experimentações da «estética culta», às suas buscas formais.

Tudo se irá alterar com o surgimento dos grandes meios de comunicação de massa. Um caminho feito em passo acelerado até ao advento da televisão, dos meios informáticos. Altera-se porque se alteram os modos de vida desde que ficámos ligados ao mundo inteiro. Paradoxalmente, o que hoje nos parece pôr em contacto directo com qualquer lugar do universo, propaga-se por uma multidão global que está cada vez mais solitária e desumanizada. Isto tem o efeito devastador de nos relacionar abstractamente com os sucessos, filtrados e ruminados para serem servidos prontos a comer e a esquecer. Exclui-nos da possibilidade de conviver humanamente, anestesia-nos. Inocula-nos de indiferença, passividade, conformismo. No campo das artes a depredação não é menor. Tanto as formas de arte popular, que eram uma forma de conhecimento e propagavam esse conhecimento,   como as  formas de arte cultas, onde experimentavam as formas de ler e transformar a vida, foram obrigadas a resistir ou a abastardar-se. Se resistiam arriscavam a marginalização. Se se abastardavam submetiam-se às regras dos mercados. Paralelamente, um gosto médio feito de resíduos foi-se estabilizando numa oferta de entretenimento que não exige reflexão, nem sintoniza sentimentos afundando, a nível universal, as massas num perverso gosto homogeneizado que atira para a fornalha da iliteracia cultural, popular ou erudita, um número crescente de pessoas que, também por essa via, são empurradas para a exclusão do exercício da cidadania. Um processo de escravidão mental com objectivos precisos posto intensivamente em prática pelo pensamento dominante que se pretende único.

Por exemplo, as canções. Desde que o seu registo e transmissão se massificaram, alienaram o que as definia: o poder de através delas se traçar o mapa das mudanças sociais. Até ao século XX, até à vulgarização dos registos fonográficos e da sua difusão massiva pelas ondas hertzianas, era possível conhecer as mudanças de costumes, de trabalho, de amores, de revoluções compilando-se as canções. Ler os cancioneiros é ler a história, tomar a temperatura das sociedades. Com a massificação dos meios de registo e transmissão, as canções são, na sua esmagadora maioria, norte-americanas na forma e internacionais nos sentimentos. Os seus traços distintivos são os do marketing que as promove. Tudo vai sendo aprisionado por essa teia que enreda vidas e cabeças. Até mesmo as obras de arte, aquilo que, como observa  Panofsky, exigiria ser visto segundo uma exigência estética, tornou essa exigência num aparato da cotação das artes, que se tornaram num segmento do mercado dos objectos de luxo. Marketing que vigora em todos os meios de comunicação social, que quer comandar a vida, todas as componentes da vida por isso proclama minha lã, meu amor, repetindo a consigna exaustivamente até esvaziar o amor de sentido.

Esvaziará? Não o consegue porque há sempre quem resista e as ruas da vida nunca são de sentido único. Não esvazia, porque vamos descobrir pela mão dos seguidores da grande escola de boniqueiras de Extremoz, preservando memórias com mais de três séculos de idade, que o Amor é Cego, e que continua a ser cego, agora atingido irreversívelmente por uma sofisticada cegueira, (re)descoberta e elaborada pela escultora Noémia Cruz.

Esse é o contraponto da normalização e aplainamento do gosto universalmente perseguido pelo sistema político-económico que se julga eterno, capaz de afugentar a morte anunciada com medidas de suposta racionalidade gestionária que, em lume brando, vão de crise em crise, porque julgam que o sistema nunca se consumirá à custa de ir triturando a humanidade, como se tem observado a olho nu, com as intervenções que impõem supostas reformas estruturais para tudo continuar na graça do capital.

Contra a normalização as boniqueiras de Estremoz e a escultora Noémia Cruz estão a praticar um acto de resistência. São artesãos-artistas que preservam a memória dos alacres bonecos de Estremoz que vão buscar as suas figurações aos motivos religiosos, sobretudo centrados nas personagens humanas e animais do presépio, na representação das tipologias do trabalho, da sátira social, dos costumes, plasmados em técnicas de manipulação barrística ancestrais. Modelos que se vão repetindo sem perderem o seu poder encantatório, mesmo quando incorporam novos elementos obrigando-os aos modelos imaginados e fabricados por mulheres anónimas de há muitos séculos atrás. Um mundo que deslumbrava e decorria sem inquietações de maior até aparecer uma escultora, senhora de outras saberes e conhecimentos, que quer aprender com os saberes e conhecimentos instituídos e preservados, não para os continuar mas para neles intervir, introduzindo a modernidade na tradição, criando um novo imaginário. Não é um processo original. Desenvolve-se na esteira do que, depois da descoberta da arte e da valorização do fantástico  popular, fizeram por cá  Lopes-Graça com as canções tradicionais que reescreveu para coros de diversa composição e dimensão, ou o que fizeram vários poetas desde Gil Vicente, recuperando a oralidade da poesia popular para a verter nos moldes da sua poesia.

Assim o fez Noémia Cruz que, olhando paras as figurações dos Bonecos de Estremoz,, seleccionou as figuras que poderiam ter secâncias com o pano de fundo dos seus trabalhos de escultura onde a afirmação feminista, através da representação da mulher, dos direitos da mulher, pela afirmação e problematização da sexualidade, é recorrente, expressando-se de forma directa ou oblíqua. Há todo um processo mental em que a escultora mergulha para perceber o repertório tradicional dos Bonecos de Estremoz, com a intenção de recuperar e subverter a sua evidente função de representação da memória colectiva da vida estremocense. Tem  o manifesto propósito de introduzir desordem naquela ordem assente na replicação perfeita de modelos por fazedores altamente especializados. Para isso, apura-se nas técnicas tradicionais, no recorte dos elementos formais centrais. Faz o percurso de aprendizagem da escultura para o artesanato de onde retornará novamente à escultura. É também um trajecto de afirmação feminista, sempre bem presente na sua vida e no seu trabalho, que vai dando forma aos Meus Bonecos que são Bonecos de Estremoz que descobriram outra voz . Uma voz que interpela as vozes que ecoavam desde os primeiros bonecos que, segundo diversos estudiosos, apareceram pela primeira vez no século XVII e até hoje não tem deixado de deslumbrar quem os descobre, até o dia em que quem os descobre atravessa a porta do deslumbramento para refazer o seu imaginário.

A resultante é um colectivo de oito novos bonecos de Estremoz feitos à imagem e semelhança dos Bonecos de Estremoz originais, produzidos pelas excelentes artesãs, as irmãs Flores, por onde perpassa uma finíssima ironia que questiona o imaginário estabilizado propondo narrativas totalmente novas, nada alheias ao humor e à sabedoria popular, o que dá uma dimensão inesperada a esta incursão de Noémia Cruz  pela mitologia até agora imutável dos Bonecos de Estremoz. Essa intenção da escultora é bem visível quando as denominações de cada uma das oito figurações que realizou funcionam em espelho com as denominações originais mesmo quando coincidem, caso do Santo António ou quando todos os elementos identificadores dos bonecos originais são reconhecíveis mesmo se completamente modificados, fechando em arco perfeito a subversão que realiza para glória dos Bonecos de Estremoz.

Manuel Augusto Araújo

(*) La deshumanizacion del arte y otros ensayos de estetica, Ortega Y Gasset, revista Occidente, Madris, 1926

(**) Prólogo de Les Négres, Jean Genet, Gallimard, Paris, 2002

 

Texto escrito para o catálogo da exposição “OS MEUS BONECOS” de Noémia Cruz, no Museu Nacional de Arqueologia,/ Mosteiro dos Jerónimos até dia 1 de Julho

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