Cultura, Geral, Media

A Fogueira dos Comentários

Navegar pelos comentários às notícias da imprensa on-line é uma experiência que nos deixa crucificados no pavor. A imagem com que se fica do país é excruciante, partindo do princípio, algo incerto mas que não deve ser completamente fora da realidade, que aquilo é uma amostra representativa da maneira de pensar dominante do povo português.

Alguns traços são comuns qualquer que seja o teor da notícia que desencadeia chusmas de comentários, nos jornais desportivos chegam a ser largas centenas. A indigência intelectual é uma vulgaridade, o péssimo português, as ideias (mal) feitas, a distorção da realidade, mesmo a mais óbvia e por mais claramente que tenha sido expressa, nada detém a matilha de comentadores, a maioria anónimos ou mascarados por pseudónimos. Pensam todos acima das suas possibilidades, tocados por raiva reacionária, pela pequena inveja, pelos lugares comuns rascas.

Uma extrapolação das pilhas de comentários para uma radiografia do país, deixava qualquer um à beira de uma depressão funda, fazendo-nos desistir da nossa pátria que, a avaliar por aqueles textos, está levada pela arreata para o matadouro da inteligência.

Claro que tudo isto mergulha na produção generalizada de um noticiário, feito de notícias e comentários institucionais, plasmado nos diversos meios de comunicação social que, de forma diversa, constroem uma determinada ideia de sociedade em que estamos presos, onde nos querem condenados a prisão perpétua. Para esse objectivo a manipulação da informação é uma das actividades mais produtivas. Manifesta-se das mais diversas formas. Expande-se através de um eficaz sistema de caixas-de-ressonância que, subserviente e mercenariamente propagam informações fabricadas que, para a eficácia ser maior, utilizam toda a gama de imagens, sons e escritas produzidas por uma tropa de choque onde se perfilam os que estridentemente alinham sem uma ligeira névoa de dúvida aos que, exibindo opiniões críticas, omitem deliberadamente partes essenciais do que se noticia e discute Assim se constrói uma “verdade” com objectivos precisos em que o principal, perseguido sem um desfalecimento, omnipresente seja ou não visível, é atingir o desiderato de tornar mesmo impossível ser possível pensar e agir fora desse quadro político, económico e social que se julga eterno e cujas crises, estão eles convictos, serão vencidas por racionalidade gestionária. Para aí apontam as teorias do fim da história, da política, das ideologias. Traveja-se um universo onde as decisões políticas são instrumentais mudando tudo, pouco ou nada, para que nada se perca ou transforme e os intervenientes, todos os intervenientes dos mais activos aos mais indiferentes, são vítimas de uma bulimia noticiosa para que a agulha magnética enlouqueça perdendo o norte.

Na realidade, hoje somos de tal modo bombardeados diariamente por imagens que tudo se amalgama, perdemos ou quase perdemos a capacidade de distinguir a experiência directa do que aparece durante poucos segundos nos ecrãs televisivos, nas notícias on-line. A cabeça é um depósito de sucessivas camadas de lixo, onde tudo, quase tudo se equivale. Poucas serão as imagens que se cristalizam, se tornam icásticas. Mesmo essas, só alguns as conseguirão identificar. São aquela minoria que vai alimentando os cada vez mais esqueléticos canais televisivos, programas radiofónicos, suplementos da comunicação social escrita ditos culturais, que aí ficam confinados, em quarentena para não se correr o risco de contaminar a abominável estupidez que se vai espalhando como uma mancha de óleo pela normalidade do que os rodeia e, já agora, os vai asfixiando. Extraordinário é haver bem intencionados pensantes que consideram esta situação regular, sem se aperceberem que estão a alinhar com uma posição elitista, condenando a esmagadora maioria ao campo de concentração da iliteracia cultural, portanto, à alienação, à perca de capacidade de utilizar as ferramentas de análise crítica que lhes possibilite o exercício da cidadania. Por essa via amplia-se progressivamente o campo dos que são rotinados para ver sem qualquer sentido crítico o que está a ver quando o que está a ver são coisas desinformantes, prontas a consumir e a deitar fora. Ganga que rodeia esse núcleo duro central e que preenche com um empenhamento de formigas no carreiro os espaços entre as notícias que preparam e justificam as acções que o império põe em marcha na luta pela sua sobrevivência. Instala-se e incentiva-se um voyeurismo miserável e degradante seja o de espreitar a roupa intima de fabricadas estrelas que animam a socialite do sistema, seja assistir ao embolsar de umas centenas de euros respondendo a perguntas desconexas, seja ver despontar a esperança de mudar a vida gargarejando canções americanas na forma e internacionais nos sentimentos, seja meter na centrifugadora várias telenovelas onde a vida, a literatura, o teatro e o cinema são suicidados. O populismo mediático não falha um dia na sua infatigável tarefa manipuladora.

A estupidez estampa-se nas pantalhas e expande-.se. A vida perdeu o seu sentido perdurável e com essa perca perdeu-se também a vergonha. É o que se pode ler na esmagadora maioria dos comentários. De tão corriqueiros já quase passamos por eles sem lhe dar a importância que têm por ser a verdadeira imagem de Portugal e explicarem melhor que qualquer análise porque é que chegámos ao ponto em que estamos depois de durante mais de trinta anos paulatinamente se terem destruído todas, quase todas, as esperanças que a Revolução de Abril tinha plantado.

Convive-se com essa realidade, passando ao lado, ainda que tapando o nariz. Há um momento em que se deve dizer BASTA!

O que é certo é que ela, a escumalha é incansável. Manifesta-se em todos os lados. Parasita todas as notícias, mesmo as mais aparentemente neutras. Um exemplo de hoje são os comentários às noticias  da abertura da Fundação Saramago na Casa dos Bicos, como antes nas notícias que a anunciaram, onde se espumam raivas, algumas inesperadas, se mente com quantos dentes têm, mesmo que a notícia os desminta rotundamente. Nada detém a cainçalha.

Não lhes interessa que a Casa dos Bicos necessitasse urgentemente de obras, dado o estrado de degradação a que tinha chegado depois da obra de reabilitação projectada por José Daniel Santa-Rita e Manuel Vicente, modernizando o espaço em 1983, para a XVII Exposição Europeia de Arte, Ciência e Cultura. Nem lhes interessa que instalar ali a Fundação Saramago, por um período inicial de dez anos, foi uma oportunidade para que essa obra se realizasse, valorizando um monumento edificado da cidade de Lisboa. As obras teriam que ser feitas, com ou sem Fundação Saramago, outro pormenor para eles desprezível. Com tantas intervenções espúrias que maltrataram a obra realizada em 1983, agora a instalação da Fundação Saramago, inquilino provisório desse espaço, foi a oportunidade de se fazer uma recuperação arquitectónica com rigor. Invertem a verdade para atacar José Saramago sobretudo por ter sido toda a sua vida um comunista coerente. Essa a base para denegrir a sua obra indo ao ponto de se socorrerem de um obscuro escritor mexicano que, procurando protagonismo que de outro modo não obtinha, acusou Saramago de plágio: Vai-se ver e a base de tamanha aleivosia é uma frase que certamente milhares de outros escritores já escreveram. É tão medíocre o argumentário que nem vale a pena referi-lo.

Os supostamente mais letrados dessa canalha vociferante, chega mesmo à baixeza de fazer citações para acusar Saramago de contrafacção. Dão o exemplo de Pessoa, demonstrando a sua ignorância. Coitados, o que diriam se comparassem Pessoa/Álvaro de Campos que escreveu na Ode Triunfal: ” Canto e canto o presente, e também o passado e o futuro / Porque o presente é todo o passado e todo o futuro”, com o que T.S.Elliot escreveu em The Four Quartets:Time presente and time past / Are both perhaps present time in the time future/ and time future contained in time past”(O tempo presente é o tempo passado/ São talvez, presente no tempo future/ e o tempo futuro contido no tempo passado). Não é um obscuro escritor e um grande escritor, são dois grandes poetas que coincidem na apreciação do tempo vivido, passado,presente e futuro, com algumas dezenas de anos de distância.

Mas essa gente fala por falar para intrigar. Instilar a dúvida. Falam por outiva, desavergonhadamente, aleijões intelectuais babando os maiores dislates.

Atacam Saramago por ter ido para Lanzarote com Pilar del Rio, quase lhe atribuindo poderes de bruxaria, omitindo que o escritor se retirou fisicamente de Portugal sem nunca o abandonar intelectual, moral e politicamente, justamente indignado por um cinzentíssimo subsecretário de Estado da Cultura, de um governo de Cavaco Silva e subordinado a essa luminária cultural que é Santana Lopes, ter de uma assentada censurado dois artistas portugueses, por sinal dos de maior projecção internacional, José Saramago e João César Monteiro, proibindo-os de integrarem uma representação cultural portuguesa em Itália, onde eram os dois artistas mais conhecidos e destacados. O governo que solidariamente fez esse acto vergonhoso e abjecto tinha entre os seus membros ilustres homens como Oliveira Costa e Dias Loureiro, entre outros. A equipa maravilha cavaquista.

Nada disso interessa à turbamulta que despeja veneno e mentiras sobre o comuna Saramago e a “castelhana” Pilar que afirmam ir ser paga pelo nosso dinheiro, omitindo que a Fundação e os seus funcionários não recebe um tostão do Estado nem da Câmara Municipal de Lisboa, a única benesse é durante um período de dez anos estar instalada na Casa dos Bicos. A gajada que diz isto é a mesma que paga com o seu dinheiro, o dinheiro das contribuições directas e indirectas a que os portugueses estão agrilhoados, o Borges que diz ser uma urgência baixar os salários, o Relvas das manigâncias com as secretas, o resto da quadrilha que anda a empobrecer o país transferindo os recursos do Estado para os bolsos do grande capital, os juros ao empréstimo da troika, as centenas de milhares de euros de honorários à troika, os milhares de milhões à banca que lhes garrota a vida e por aí fora. É confrangedor confrontar-nos com tanta estupidez.

É arrasante ler os comentários nos jornais on-line, os radiofónicos e televisivos. Nos meios de comunicação social ouvir horas e horas preenchidas com o trabalho, a humildade, o caracter dos chutadores da bola para gloríola nacional, aturar os opinadores que se repetem com variações mínimas, assistir às manipulações informativas de gato escondido com o rabo de fora, afogarmo-nos nas piscinas da vida cor-de-rosa de uma socialite de aterro sanitário, assistir ao desfile de políticos de pacotilha alinhados pela canga do pensamento único de que só sabem os lugares comuns.  Ser todos os dias knocteados por esta realidade medíocre deveria fazer qualquer um perder a esperança de resgate da nossa pátria.

No entanto, nada deterá olhar do Anjo da História de que continuamos possuídos porque dentro de nós habita o salto de tigre da história.

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4 thoughts on “A Fogueira dos Comentários

  1. Carlos Alberto SantosPinho diz:

    Tens toda a razão. Não me orgulho de ter desistido de ler os comentários on line.Mas foi o que fiz. Para não piorar o meu estado de espírito. Já basta o resto.

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  2. Rui Moreira diz:

    O controle dos média é indispensável para esta gente que de democrata nem a fachada tem. Ocupam esse espaço com uma ferocidade neo-inquisitorial. São tempos obscuros, se não mesmo negros, os que eles pretendem impor-nos.
    Faria minhas as tuas palavras se não tivesses utilizado o termo elitista na frase:

    “Extraordinário é haver bem intencionados pensantes que consideram esta situação regular, sem se aperceberem que estão a alinhar com uma posição elitista, condenando a esmagadora maioria ao campo de concentração da iliteracia cultural, portanto, à alienação, à perca de capacidade de utilizar as ferramentas de análise crítica que lhes possibilite o exercício da cidadania.”

    Esta gentalha não constitui nenhuma elite. Constitui, isso sim, uma oligarquia, ou, melhor dito, uma plutocracia. Apenas isso. Uma elite, digna desse nome, nunca pretenderia condenar “… a esmagadora maioria ao campo da ileteracia cultural…”.

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  3. A net não quer… mas eu também não quero deixar passar este artigo sem subscrever cada palavra. Fiquei francamente deprimida quando tive a minha primeira experiência com os comentários das notícias. Penso que só não entrei em depressão por causa deste meu já longo hábito – que a vida me impôs… – de ir ao inferno e voltar sem deixar por lá a alma.

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