Política

Novas fábulas exigem novos entendimentos

Ao ler os últimos e otimistas parágrafos da nova fábula da formiga e da cigarra publicada, há dias, na Praça do Bocage por Demétrio Alves deparei-me com algumas dúvidas que ainda não consegui ultrapassar.

A história do Demétrio terminava assim: “Ainda há, também, uma outra versão: as formigas, cansadas de tantas exigências e perseguições, combinando as forças das várias espécies – lembram-se que há formigas de muitos e variados tipos e tamanhos – decidiram cavar muitos túneis por baixo da árvore das cigarras, levando-a a secar e a cair, arrastando com ela as cigarras.

“Ora, no chão, as cigarras, por mais que cantem, não duram muito. E, embora não tivessem morrido todas, o que foi bom porque o seu cantar alegra as noites deverão, ficaram reduzidas a um número que não fazia mal às formigas.

“As formigas terão, então, levado algumas sementes, que não comeram, semeando novas árvores para substituir as que tiveram que ser derrubadas.”

A principal dúvida que me assola, e que poderia ter sido esclarecida se o autor da nova fábula não tivesse, aparentemente, saltado vários dos capítulos finais da história, é saber como se entenderam as formigas, porque, havendo-as de “muitos e variados tipos e tamanhos”, é sabido que têm, habitualmente, muitas dificuldades para se entenderem, em especial porque nenhuma das espécies gosta de ceder. Essa é, aliás, a razão que me leva a classificar a parte final da nova fábula como otimista, ainda que reconheça que este otimismo é fundamental para que se consiga semear as novas árvores desta nova história.

A fábula seria mais interessante se pudéssemos saber como ultrapassaram divergências as formigas velhas, a mais sábia espécie, dotada de enorme persistência e justa crença nas suas razões e práticas de combate as cigarras, mesmo que, por vezes, não sejam bem entendidas, e as formigas novas, mais coloridas na defesa destas justas razões mas, muitas vezes, inconsequentes, caraterística que as faz frequentemente cair em armadilhas que apenas atrasam o progresso de todas as formigas e permitem às cigarras manter o domínio que, todas o sabem, é apenas uma fase que será ultrapassada. Em comum têm a teimosia, característica que sempre lhes tolheu a progressão nos carreiros e que, em dias de fortes vendavais, as continua a impedir de fazer frente às ventanias em conjunto, com mais força e capacidade de resistência, a mesma capacidade que seria o fator determinante para pôr as cigarras à defesa…

Ainda assim, com todas as diferenças que as separam, têm objetivos comuns e muito parecidos. Por isso, era importante saber como se entenderam para escavar “muitos túneis” e, em particular, quais as raízes das primeiras árvores que decidiram atacar, o que naturalmente, implicaria saber também do que cada uma delas abdicou, que carreiros abandonaram e que novos carreiros decidiram construir. Claro que tiveram de o fazer rapidamente, pois, caso não o fizessem (não o façam…) corriam o risco, real, de serem riscadas do ecossistema pelas cada vez mais esfomeadas e agressivas cigarras.

Aceito que a nova fábula do Demétrio não incluiu estas partes da história porque, talvez, elas ainda estejam a ser delineadas para que possam ser escritas. O importante é que se comecem já a fazer os primeiros rascunhos para que a nova fábula da formiga e da cigarra tenha um final feliz, porque de finais tristes estamos todos fartos…

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