Geral, Política

O equívoco

Sublimando a calamidade que se abate sobre o país, Passos Coelho faz discursos de “admiração” pela “extrema paciência” com que os portugueses enfrentam as dificuldades, ao mesmo tempo que propala coisas tão incompreensíveis como a forma como o seu governo está a “arrumar da casa” ou que “os portugueses já não estão perante o abismo”.

Não fosse a situação ser trágica, certamente seria cómica. Qual então o motivo da satisfação de Passos Coelho? A aprovação da troika no quarto exame após as duras flagelações a que a maioria dos portugueses está a ser sujeita, mantendo-se um clima social em que não há (!) vandalismo nem desacatos nas ruas. A que se soma a oportunidade histórica de impor uma agenda ideológica de retaliação face aos progressos conseguidos após o 25 de Abril.

A satisfação do PM esconde um país em que a crise se agrava a cada dia e a tragédia se abate sobre muitas famílias, seja por via do desemprego, seja pela dificuldade de acesso a cuidados de saúde, ou seja ainda pelos filhos que têm que abandonar os estudos.

O que há então para festejar quando há um país que se afunda mais e mais na crise?

Triste é ainda vermos um primeiro-ministro mais preocupado com o comportamento de “bom aluno” perante os credores do que com o bem-estar dos seus concidadãos que o elegeram para os defender.

Obcecados com o cumprimento do memorando subscrito com a troika, tudo o resto pode ficar para resolver depois: o definhamento da economia portuguesa revelado por uma recessão de 3%, o desmantelamento acelerado do Estado social, seja nas graves limitações ao acesso à saúde e ao ensino, seja na protecção social. E que dizer de uma taxa de desemprego (oficial) que ultrapassa já os 15%?

E pasme-se! Num país em que o salário mínimo nacional não atinge os 500 euros alguns ideólogos do actual poder político defendem sem pudor a diminuição dos salários. Mas esta gente está bem da cabeça?

Há uma ideia salvífica que parece habitar nos nossos governantes: das cinzas renasceremos. Por isso podem queimar a economia e quiçá o país, esperando que depois um novo país e uma nova economia floresçam – onde é que já vimos isto?

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One thought on “O equívoco

  1. É este divórcio entre a “realidade” de Passos Coelho e a do dia a dia dos portugueses que me tem andado “atravessada na garganta”… como se Portugal fosse apenas o tal rectangulozinho no mapa a que o FMI dá nota positiva e os portugueses servissem tão somente para o eleger e bater palmas…

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