Geral, Política

Nova fábula da formiga e da cigarra

Há muito tempo atrás, a formiga, que, desde que se conhecia, trabalhava durante todo o verão para conseguir comer e viver no inverno, sofreu uma prova muito difícil.

Conta-se que, nos últimos anos de certa era, passou a ser obrigada a laborar também na primavera e outono. E, até sob os rigores invernosos, havia dias em que tinha que abandonar o seu abrigo, para procurar sustento. Morreram milhões delas por isso mesmo.

Tudo isto porque, devido a fenómenos que as formigas não alcançavam, as sementes e pequenas palhas tornaram-se mais escassas e menos nutritivas.

E apareceram, também, muitas e diferentes espécies de novas formigas, vindas de sítios remotos onde as coisas estavam ainda pior, e que eram dotadas de pinças especializadas e rijas, disputando-lhes os grãos por mais secos que estivessem.

O pior, contudo, não era as suas irmãs de infortúnio, porque, com essas até tinham arranjado um acordo: umas escavavam a terra e cortavam os alimentos mais duros e outras transportavam-no rapidamente.

É que o bando das cigarras, que sempre se tinha achado superior às formigas, passando a sua vida a sugar a seiva das árvores onde habitavam, cantando sob as ramagens que as protegiam das inclemências do tempo, passaram a ter um comportamento muito estranho.

É certo que sempre tinham sido um bocado manhosas, tentando enganar as formigas com as suas cantorias, pedindo comida quando as árvores ficavam menos alimentícias – as cigarras têm uma técnica especial que consegue transformar as sementes numa espécie de seiva, que elas muito gostam de comer no inverno.

Mas, naquele tempo, passaram a não usar apenas meigas cantigas: começaram a exigir que as formigas lhes dessem as suas reservas e até entoavam hinos e marchas numa língua áspera e marcial, assustando-as com negras consequências se elas não aderissem a bem.

Fazemos isto, diziam as cigarras, porque a culpa é toda das formigas, que além do mais passavam o inverno a mandriar.

Diziam, então, que as árvores já não davam tanta seiva, porque as formigas, ao escavarem os pequenos túneis e câmaras que lhes servem de abrigo, prejudicavam-nas tornando-as mais fracas. E também era culpa do sol, que está mais quente e seca tudo, acrescentavam algumas poucas cigarras que tinham umas cabeçorras verdes.

Bem argumentaram as formigas que, não senhora, que não era nada disso, porque o seu trabalho até é importante para as próprias árvores. E o sol, senhoras cigarras, não está mais quente do que nos tempos idos, lá dizem as nossas avós.

Mas, qual quê. Nada demoveu as cigarras, muito estimuladas por uma nova geração cheia de ginásticas e engenharias, e com umas técnicas de canto especial, aprendidas em terras do outro lado do mar atlântico.

Houve mesmo um grupo dessas espertas cigarras que tentou convencer as formigas a habitarem os buracos feitos pelos cucos nas “suas” próprias árvores. Assim, diziam, ficavam protegidas da chuva e só tinham que lhes pagar uma pequena renda. O seu segredo, que as cigarras não contavam a ninguém, era que, com as formigas nas árvores, principalmente aquelas mais amarelas e grandes, os pássaros que se alimentavam de cigarras, passariam a virar-se para as formigas, mais fáceis de apanhar.

E, estávamos neste pé, quando, aos poucos, as coisas, que sempre estão em movimento e mudança, sofreram profundas alterações.

Aqui chegados, porém, temos dúvidas sobre o verdadeiro final que esta estória teve.

Há quem diga que as cigarras, teimando nas suas exigências, acabaram por levar ao desaparecimento das formigas, tendo isso determinado que os matos crescessem, abafando as árvores que morreram, assim exterminando as próprias cigarras. Mas, esta versão não explica por que razão ainda hoje existem cigarras e formigas.

Outros afirmam que não foi assim, porque tudo acabou por se resolver a bem depois muito diz tu direi eu. Mas, esta visão, que é a preferida dos melros que exploram os campos à procura de minhocas, é pouco provável, porque as cigarras e as formigas têm falas diferentes.

Ainda há, também, uma outra versão: as formigas, cansadas de tantas exigências e perseguições, combinando as forças das várias espécies – lembram-se que há formigas de muitos e variados tipos e tamanhos – decidiram cavar muitos túneis por baixo da árvore das cigarras, levando-a a secar e a cair, arrastando com ela as cigarras.

Ora, no chão, as cigarras, por mais que cantem, não duram muito. E, embora não tivessem morrido todas, o que foi bom porque o seu cantar alegra as noites deverão, ficaram reduzidas a um número que não fazia mal às formigas.

As formigas terão, então, levado algumas sementes, que não comeram, semeando novas árvores para substituir as que tiveram que ser derrubadas.

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5 thoughts on “Nova fábula da formiga e da cigarra

  1. Pingback: Recordar | Praça do Bocage

  2. Pingback: Novas fábulas exigem novos entendimentos « Praça do Bocage

  3. Edite Frazão diz:

    História verídica e mais atual nãp podia ser.Quando conseguirmos unir as formigas, faremos as cigarras deixarem de cantar a melodia do adormecer e obrigar.Temos de ter a esperança que as cigarras se desintegrem e fiquem sem “VOZ” para cantar a cantiga do ENGANO…

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