Internacional, Política

O euroanzol

É bom pertencer a uma área política que, de forma avisada disse, há muitos anos, e contra a corrente dominante, que as entradas de Portugal na CEE e na zona euro, teriam, a prazo médio, consequências desastrosas para o país e para o povo português.

Embora tendo sido o PCP que, com profundidade analítica e meridiana clareza, demonstrou os graves inconvenientes da adesão ao projecto neoliberal europeu, houve diversas honrosas excepções que, fora do PCP, também defenderam ponto de vista semelhante, entre os quais se encontram o economista João Ferreira do Amaral e, embora de forma menos consistente, o próprio Miguel Cadilhe.

Estamos hoje em condições de perceber e sentir o que é, de facto, o projecto europeu, formatado de acordo com um referencial capitalista tridimensional: federalismo, neoliberalismo e militarismo.

Aquelas três dimensões são unas, inseparáveis e, assim sendo, andam mal aqueles que criticam o capitalismo selvagem da actual direcção europeia, mas entendem que ele é passível de correcção humanista, ou seja, que é “reformável” num sentido de maior coesão socioeconómica, mais democrático e participativo e, finalmente, menos imperialista e belicoso. E, por via dessa aproximação idealista à realidade, acham que é bom continuarmos dentro do “projecto europeu” para podermos, lá dentro, alterá-lo. O capitalismo só é “civilizado”, comedido, ou seja, só adopta receitas sociais-democratas, quando tem medo que os trabalhadores tenham condições para imporem os seus direitos e pontos de vista.

Dito isto, e a propósito do caso grego, passo a explicitar uma tese que, à primeira vista, poderá soar contraditória: sendo correcta a apreciação negativa daquilo que o “projecto europeu” significa, a opção central do KKE (partido comunista grego) neste domínio de análise (as eleições e a saída da crise), não é, contudo, a mais adequada às necessidades das lutas futuras e, o que não é de somenos, às necessidades imediatas dos trabalhadores e das classes mais exploradas da população grega. Ou, dizendo de outra forma, parece poder afirmar-se que, projectada na realidade portuguesa, a opção do KKE poderá ser considerada desacertada face às necessidades objectivas das populações e do país. Reconhece-se, no entanto, que poderão existir razões, só detectáveis a partir de um conhecimento mais profundo da realidade grega, que tornem defensável, na Grécia, aquela opção.

Refiro-me aquilo que, nas suas próprias palavras escritas, é a “ recusa do KKE em subjugar-se a formações de esquerda ou inclusive num governo de esquerda”. O KKE diz, ainda, que está sob o “a mira de inimigos e «amigos» que, directa ou indirectamente, apelam ao KKE para que se una com as restantes forças de esquerda”.

Daquilo que é possível conhecer, partilha-se, em grande parte, da caracterização que o KKE faz do SYRIZA e de outras formações da designada “esquerda livre”. Mas, no entanto, mantém-se a ideia de que é negativa a opção do KKE ao inviabilizar, à partida, e de forma radical, qualquer participação num governo democrático de esquerda, formado a partir de uma eventual maioria formada pela SYRIZA, Esquerda Democrática, o próprio KKE e outros (sem incluir o PASOK do sr. Evangelos Venizelos) que, embora não pugnando pela saída imediata da UE e da zona euro, se propusesse alterar, com coerência, o actual estado de sufoco económico e social que está a esmagar o povo grego.

Embora das eleições realizadas a 6 de Maio tivesse resultado uma situação de impasse político, não há qualquer dúvida de que, quanto à política de austeridade imposta pela Troika e pelos dois partidos dominantes até agora, a ND e o PASOK, a resposta dos eleitores gregos foi clara: um rotundo não!

Isso é evidente no afundamento daqueles partidos, que até aqui representavam perto de 80 por cento dos votos e que, como em Portugal fazem o PSD e o PS, alternam no poder há muitos anos para prosseguir, no essencial, as mesmas políticas desastrosas ao serviço dos monopólios, da grande finança e, até, de interesses obscuros.

É necessário esclarecer que, das eleições de 6 de Maio, não resultou uma possibilidade efectiva de criar um governo de esquerda, porque, mesmo com a hipotética aderência do KKE, isso não se traduziria numa maioria de suporte estável. Assim, o KKE não é responsabilizável por um tal governo de esquerda não se ter formado.

Contudo, havendo uma possibilidade real de se gerar essa maioria no dia 16 de Junho, poderemos interrogar-nos sobre o que os gregos pensarão perante tal hipótese? Porque eles sabem que o KKE, que detém cerca de 8 a 10% das intenções de voto, nunca participará numa alternativa política com o SYRISA? Ou seja, que, na realidade política grega, não será viável um governo que propicie, ou pelo menos se proponha experimentá-lo, um alívio no garrote.

E, é bom relembrar, esse garrote, para além de outras coisas, já fez disparar em 40 por cento a taxa de suicídios na Grécia, país que passou a liderar este indicador na União Europeia.

O KKE diz que “a saída da crise a favor do povo não está na gestão da crise com ferramentas expansivas ou restritivas” e, acrescenta, a alternativa verdadeira “ está na organização da luta a nível nacional, por uma via diferente de desenvolvimento que, com o poder popular, a saída da UE e a socialização dos meios de produção, vai desenvolver todas as capacidades do país para benefício do povo”. Estando-se de acordo com a segunda parte, não se pode partilhar da primeira! E mais, não se pode concordar com a ideia de que não vale a pena tentar forçar, numa primeira fase, a UE, o FMI, o BCE, a abandonarem as políticas restritivas e anti-sociais impostas, substituindo-as por políticas viradas para o crescimento económico imediato.

Parece razoável dizer que, se esta via fosse experimentada e tivesse êxito, isso em nada prejudicaria as fases seguintes de aprofundamento revolucionário. Antes pelo contrário. E seria bom por em prática aquilo que a democracia eleitoral ditasse, desta a vez a favor da esquerda e dos interesses imediatos de milhões de cidadãos gregos asfixiados com a crise.

É que, com todos os vícios, limitações e defeitos que a democracia parlamentar tem, e no caso grego até tem, desde logo, com aquele bónus escandaloso de 50 lugares ao partido que fique em primeiro lugar, não parece adequado prescindir deste direito que é, também, um instrumento de luta. Mas, para isso, não se deveria ir a jogo só para marcar presença simbólica, prescindindo de, através de um eventual resultado favorável, poder subir alguns patamares na luta política contra a exploração, governando em sentido contrário ao projecto neoliberal.

Não é em vão que já se encontra demonstrado há bastante tempo que os processos políticos, sobretudo aqueles com registo revolucionário, têm fases distintas e percursos que se vão fazendo de acordo com as realidades objectivas.

O KKE assume que, quanto ao tema da política de cooperação internacionalista, “acumulou enorme experiência histórica”, tendo dirigido a “luta antifascista de uma grande frente armada que teve uma enorme contribuição na luta do povo”. É compreensível que o KKE, que fez “alianças de esquerda” nas décadas de 1950 e 1980, tenha adquirido uma experiência sobre a política de alianças que o leva a não querer “repetir os mesmos erros”. Mas isso não deveria leva-lo a confundir situações, queimando etapas incontornáveis, ou mantendo-se, a todo o custo, inamovível num reduto ideológico, como se ainda estivéssemos na última década do século XX. Hoje, tudo se move à velocidade da nova “máquina de vapor”: a livre (e descontrolada) circulação de capitais, de mercadorias, de pessoas, e de ideias, certas e erradas. A resistência, necessária e acertada, contra o oportunismo social-democrata que cresceu alimentado pelo deflagrar do Muro de Berlim, tem ela própria que se transmutar para ser revolucionária.

O KKE afirma que há inimigos e, sobretudo, “amigos”, que “estão muito irritados pela acção internacional do PCG com vista à reconstrução do movimento comunista internacional, sobre a base do marxismo-leninismo e do internacionalismo proletário, lembrando que os Encontros Internacionais de Partidos Comunistas e Operários, tal como outras iniciativas comunistas internacionais, começaram em Atenas”.

Reconhecendo-se todo o valor do KKE no plano interno e externo, é bom lembrar que há outros partidos comunistas com uma história de luta coerente.

Em Portugal, após o 25 de Abril, durante os primeiros governos, que tiveram a participação do PCP, defendeu-se, por acaso, a saída imediata da NATO? Será que se pode afirmar que, nesse caso, os comunistas portugueses achavam que o país deveria continuar a integrar esta organização ao serviço do imperialismo? Claro que não! Mas sabia-se não ser aquela a fase mais certa para esse desafio.

E, continuando com o caso português, pergunta-se: se houvesse, no futuro próximo, uma possibilidade real de, à saída de eleições, haver um governo com base no PCP, BE, Verdes, ID e patriotas independentes que quisessem, assumindo as suas responsabilidades, dirigir um governo que renegociasse tudo o que há para renegociar no sentido de aliviar a corda que nos estrangula e que, em paralelo, lançasse as bases para um vasto plano de reformas políticas, económicas e sociais, que desmontassem progressivamente toda a monstruosa construção neoliberal dos últimos trinta anos, deveria o PCP, logo à partida, impossibilitar a formação de tal governo?

Alguém teria dúvidas em Portugal que o PCP, embora não impondo para o primeiro dia de um governo onde participasse, a saída do euro e da União Europeia, continuaria a defender que se deverão desmantelar estas aberrações capitalistas?

Aliás, se isso acontecesse, quem quereria Portugal imediatamente fora do espaço europeu seria Bruxelas, Berlim e, até, a Paris de Holand! Ou talvez não! Isto porque não há a certeza de qual seria a reação da Europa dos monopólios, já que os diversos interesses capitalistas são contraditórios, e há muito bluff no jogo em curso.

De facto, não estão apuradas todas as consequências imediatas e mediatas de uma eventual saída de um país, seja a Grécia ou seja Portugal, do euro ou do próprio espaço político-económico europeu. As forças do capital agitam fantasmas, fazem chantagens, ameaçam. A resposta não deverá ser, contudo, dada com declarações baseados na construção de futuros idealizados e, porventura, longínquos.

Em qualquer situação, é seguro admitir que, entrando num processo de rutura imediata com as Tróikas interna e externa, não teríamos, e por um prazo ainda indeterminado – há quem refira cerca de dois anos – consequências imediatas vantajosas para os trabalhadores. Depois, a médio prazo, há a convicção de que, em novas circunstâncias económicas e financeiras, as condições sociais melhorariam. Isto se houvesse “tempo político” para estas alterações, ou seja, isso só seria possível contando com um forte empenhamento popular no projecto.

Pugnar, à esquerda, por todos aqueles que defendem outra coisa bem diferente desta europa neoliberal, por uma saída imediata e total do euro e da União Europeia, pode constituir um erro com consequências desastrosas, caso isso viesse de facto, a acontecer. Em alternativa, há que ir pressionando nesse sentido, mas quem tem que pagar a factura social da crise de transição deverão ser aqueles que nos fizeram embarcar nesta barca rôta.

É muito mau manter na garganta um anzol como aquele que, engodado de promessas demagógicas e iscado com soluções tóxicas, tivemos que engolir à força. Retira-nos liberdade, não nos deixa respirar, falar, viver. Mas, não seria bom cairmos na tentação de arrancá-lo à força, puxando ou dando a linha para que alguém o faça, principalmente se for ao próprio pescador manhoso e ressabiado.

Anúncios
Standard

8 thoughts on “O euroanzol

  1. edgar diz:

    Nesta fase em nos encontramos, de crise do capitalismo, crise do euro, recessão e empobrecimento acelerado, confesso que já não sei se morreremos mais depressa e com mais sofrimento da doença ou da medicação.
    Compreendo a argumentação do KKE que pretende perder votos a criar mais ilusões e não conheço o suficiente da situação grega para pensar que não possam ter razão.
    Do euro, estou convencido que sairemos quase de certeza quando a classe dominante da Europa e do país considerar que isso é mais vantajoso, quando as riquezas nacionais estiverem todas sugadas ou quando a luta popular não lhes permitir governar como querem.
    Como é costume dizer-se, estamos numa curva bem apertada mas pertencemos a um partido firme, determinado, experiente, lutador que nunca esquece a sua origem, a sua condição de classe, a sua história e os seu objectivo supremo de luta pela paz, pelo progresso, pelo socialismo, e pelo comunismo.
    Um abraço

    Gostar

  2. Alvaro J. Fernandes diz:

    RAZÃO?!? É facil dizer e ser do contra sempre em todas as circunstâncias. Mas, alternativas e soluções prévias, convincentes, nunca são apresentadas…! Nunca é por se falar muito, e fazer muitos barulhos, que se alcança a razão ! É muito o que faz a “Esquerda”, mas… que nunca confessa seus erros e exageros e engodos.

    Gostar

  3. HM diz:

    Aos camaradas gregos faria proveito reler o Lénine (recomendo o «Cap. VIII – Nenhum compromisso?» do «A Doença Infantil do “Esquerdismo” no Comunismo».

    Seja como for, estou desse lado da trincheira e sofro com o desastre eleitoral previsível do KKE (agravado agora pela tremenda pressão do voto útil no Syriza).

    O KKE foi, desde há mais de meio ano, o partido político que mais insistentemente reclamou eleições (previstas inicialmente para os inícios do ano e sucessivamente adiadas até Maio). Apesar da inegável combatividade, do devotamento à causa operária e popular, do empenho na luta e da capacidade de mobilização (que contudo, convém não idealizar) corre, paradoxalmente, o risco de sair bastante chamuscado do ciclo eleitoral, com uma representação eleitoral e parlamentar reduzida e desmoralização nos seus apoiantes e, possivelmente, nas próprias fileiras.

    Como pode um partido com, aparentemente, influência social crescente aparecer com representação política diminuída?

    Já sei que muitos se refugiarão nas habituais explicações metafísicas de que “nestas condições, o sistema promove os partidos [leia-se Syriza] que não o põem em causa”, ou variantes do mesmo género. As vacuidades do costume, que nunca elucidam os mecanismos concretos que tornam isso possível.

    Tenho para mim que o PC Grego tem grandes responsabilidades nesta matéria. Seja nos movimentos sociais seja nas eleições, seja na luta social seja na luta política, seja onde for, as pessoas só participam em algo quando sentem que vale a pena ou, pelo menos, que pode valer a pena.

    Ao fechar qualquer possibilidade de acordo eleitoral, seja para integrar, seja para viabilizar um governo de esquerda (palavra banida oficialmente do léxico do KKE), ao excluir qualquer possibilidade de entendimento com forças políticas à esquerda do Pasok, ao dar esse monumental tiro no pé de se recusar sequer a encontrar-se para conversar com o Syriza, o KKE está, na prática, a passar a mensagem ao eleitorado de que só vai para o Governo sozinho e que não apoia, nem sequer viabiliza, nenhum Governo de nenhuma outra força política.

    Ora como estas eleições são sobretudo (não exclusivamente, mas principalmente) para constituir um novo Governo e como não passa pela cabeça de ninguém – julgo que nem pela do mais sonhador militante comunista – que o KKE vai para o Governo sozinho sem outras forças de esquerda daqui a duas semanas, o que o KKE está a fazer, em termos práticos, é a dizer ao eleitorado que não vale a pena votar nele.

    Imagino facilmente eleitores de esquerda gregos a dizerem: «Gosto do KKE, estou fundamentalmente de acordo com o projecto político do KKE, admiro a combatividade e o empenho na luta do KKE, até confio no KKE, mas, desculpem lá, não vou votar no KKE, porque, nestas eleições, marcadas para constituir um Governo, o KKE recusa-se a contribuir para encontrar uma solução, é completamente inútil votar nos comunistas».

    Se estivesse na Grécia, votaria KKE. Estou em Portugal e, como disse, sofro com a possibilidade real de ficarem com menos de 6%.

    Daqui só me resta tirar, mais uma vez, esta lição de vida. Nunca fechar, na luta política, em particular na luta eleitoral, as possibilidades de que os trabalhadores e os cidadãos se sintam úteis em estar connosco. Se o KKE não quer discutir um programa mínimo de entendimento com outras forças políticas de esquerda (ainda que reformistas), se não quer integrar um Governo que não decrete a saída imediata da Nato, do euro, da UE e nacionalize logo o grosso dos grandes meios de produção – numa incompreensão infantil das etapas da luta, da articulação da estratégia com as questões tácticas, da política de alianças, do reconhecimento de uma por enquanto inexistente situação revolucionária – muito bem, mas então que saiba encontrar as formulações, a orientação, as propostas, que não levem os eleitores a concluir que, daqui a duas semanas, não vale a pena votar KKE.

    Mais ou menos provocadoramente, mas genuinamente em sofrimento com tanta asneira eleitoral, aqui deixo um comentário de alguém que, tanto eu como os comunistas gregos muito apreciamos:

    «Fazer a guerra para derrotar a burguesia internacional, uma guerra cem vezes mais difícil, prolongada e complexa que a mais encarniçada das guerras comuns entre Estados, e renunciar de antemão a qualquer manobra, a explorar os antagonismos de interesses (mesmo que sejam apenas temporários) que dividem nossos inimigos, renunciar a acordos e compromissos com possíveis aliados (ainda que provisórios, inconsistentes, vacilantes, condicionais), não é, por acaso, qualquer coisa de extremamente ridículo?»

    E, mais à frente, a propósito de uma situação histórica em que os comunistas gregos poderiam, apesar dos limites da analogia, colher alguns ensinamentos:

    «Por que será que na Alemanha uma tendência igual, absolutamente idêntica, dos operários passarem da direita para a esquerda não levou ao fortalecimento imediato dos comunistas, mas sim, no inicio, ao do partido intermediário dos “independentes”, embora esse partido nunca tenha tido nenhuma idéia política independente e nenhuma política independente, nem tenha feito outra coisa que vacilar entre Scheidemann e os comunistas ?

    Não há dúvida de que uma das causas foi a tática errada dos comunistas alemães…»

    Sempre dentro dos limites da analogia, para o bom entendedor que saiba trocar os nomes.

    HM

    Gostar

Comente aqui. Os comentários são moderados por opção dos editores do blogue.

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s