Cultura, Setúbal

Fonte Nova, Troino, Setúbal

Largo da Fonte Nova (ou Praça Machado dos Santos), Troino, Setúbal. Ao centro o novo fogareiro colectivo.

A Fonte Nova, cuja toponímia oficial homenageia o líder republicano Machado dos Santos, o herói da rotunda, é um dos mais típicos recantos de Setúbal. É uma daquelas pequenas praças acolhedoras que ainda vemos nas partes antigas das nossas vilas e cidades. Fica numa zona conhecida por Troino, antigo arrabalde do casco medieval de Setúbal, que com a passagem dos séculos se transformou na cidade dos nossos dias.

Ancestralmente ligado às actividades do mar e com uma população tradicionalmente constituída por pescadores e, em tempos idos, operários (sobretudo mulheres) da indústria conserveira – não fosse nas suas imediações terem-se localizado inúmeras fábricas de conserva de peixe – Troino continua a manter uma forte ligação ao Sado, ao mar e à pesca.

A Setúbal de hoje não é já terra de conservas de peixe, assim como a população de Troino também já não é esmagadoramente constituída por pescadores e outros trabalhadores do mar – a pesca já viu melhores dias e cidade das indústrias, do comércio e dos serviços predomina. Mas perdura em Troino essa ligação, não só pelos que continuam nessa faina, mas também em hábitos e costumes transmitidos de geração para geração. Até porque a doca pesca e a respectiva lota estão ali a dois passos. E em épocas de crise grave, como a que agora vivemos, o rio e o mar continuam a providenciar o sustento de muitos dos que viram as suas empresas encerrar.

A restauração tornou-se, de mansinho, nas duas últimas décadas, um dos maiores activos turísticos de Troino (e de Setúbal, em geral). Multiplicaram-se os estabelecimentos no interior do bairro, na grande avenida da cidade, a Luisa Todi, e junto à zona ribeirinha. O sector tornou-se num relevante contribuinte para a criação de empregos.

O peixe, bem representado por esse ex-libris da cidade que é a sardinha assada, sem desprimor para as outras espécies prestigiadas como o salmonete ou, mais recentemente, o choco, puseram Setúbal em ponto de destaque no mapa gastronómico do país. E Troino e a sua Fonte Nova estão no epicentro desse mapa da restauração popular! Desde há muito que se percebeu a vocação de Troino e da velha Fonte Nova – a restauração, o pequeno comércio e a habitação. Se há mais de vinte anos o largo foi fechado ao trânsito, tornando-se num local mais aprazível, tardava a modernização dos pequenos restaurantes.

Grelhar o peixe à vista do cliente, na rua, foi-se ao longo das duas últimas décadas tornando uma prática corrente. Se tal era absolutamente necessário para alguns restaurantes, dada a exiguidade dos seus espaços interiores, o facto é que tal prática se generalizou. Mesmo quando havia espaço o interior. Porventura como que numa afirmação de uma “imagem de marca” que evocava as tascas populares de outras épocas. Essa prática trouxe graves problemas devido aos fumos produzidos em espaço público. Problemas que, melhor ou pior, se tem tentado minimizar com o recurso a sistemas de ventilação e exaustão.

O fogareiro colectivo que o Município de Setúbal, em colaboração com quatro restaurantes, se apresta a inaugurar na Fonte Nova é um equipamento que certamente virá contribuir para a modermização da restauração da zona. Possibilitará melhores condições. A estrutura, com o exterior em madeira, e que tanto pode estar aberta ou fechada, inclui fogareiros, vitrinas para exposição e zonas de apoio para lavagem e preparação do peixe totalmente independentes para cada um dos utilizadores. Está equipado com um sistema de extração de fumos que, através de um filtro de água, elimina os odores e retém as gorduras provenientes dos fogareiros.

Troino (como outros bairros mais antigos) continuará a precisar de atenção. A valorização de espaços públicos e as melhorias nas condições operacionais da restauração operada no âmbito do Plano Integrado de Valorização da Zona Ribeirinha de Setúbal não escondem um edificado envelhecido, abandonado e carente de recuperação e renovação, frequentemente à beira da ruína, como já aqui abordei.  Urgem medidas e instrumentos de incentivo e apoio neste domínio – que terão que ser políticas publicas nacionais, a executar com a participação activa dos municípios.

Será que com a paralisação da construção de novas habitações haverá espaço para a recuperação das edificações mais antigas? É uma questão de racionalidade e bom senso, agora que as dificuldades de acesso ao crédito refreiam a aquisição de novas habitações.

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