economia, Política

O Burro do Cigano

É impossível descortinar qual vai ser o desempenho político do novo presidente francês escassas horas depois de ter tomado posse, mas é importante destacar que elegeu a justiça como principal tema do discurso inaugural da sua presidência.

O interessante é perceber de que justiça fala o novo presidente. Para Hollande, a justiça está na “repartição dos esforços”, o que significa que “não pode haver sacrifícios sempre para os mesmos”. E acrescentou: “este vai ser o sentido das reformas do Governo”.

A declaração, simples mas verdadeiramente importante no atual contexto de ferozes políticas de austeridade, das quais está arredado o investimento, em particular o público, tão diabolizado nos últimos dias pelo nosso ministro Gaspar das Finanças, devia ser ouvida com atenção na presidência portuguesa do Conselho de Ministros. Devia, mas dificilmente será, porque já todos percebemos que há ali um sério problema de ouvido, que o mesmo é dizer, uma séria incapacidade de entender o que é esta justiça de que fala Hollande. De que muitos falam há muito em Portugal, muito antes de Hollande acordar para a política… Ainda assim, é bom que haja alguém na Europa que finalmente amplifique esta ideia e que lhe dê a dimensão de que necessita.

Percebe-se melhor esta incapacidade quando lemos nos jornais que os salários dos gestores das principais cotadas na bolsa de Lisboa não seguiram a tendência geral de perda de rendimentos que se verificou em 2011. As remunerações dos presidentes executivos destas vinte empresas aumentaram 5,3 %, para 17,6 milhões de euros. Já a média salarial dos trabalhadores caiu quase 11%. Esta é a única justiça que Passos Coelho entende…

Perante tão extraordinários números, conjugados com as quebras do consumo particular hoje divulgadas pelo Banco de Portugal, o facto de o chefe do governo afirmar que o desemprego pode ser uma oportunidade para quem tem a “sorte” de ser despedido até poderia apenas ser encarado como um fait diver, não se desse o caso de a criatura que tal coisa afirmou ser o primeiro-ministro do nosso país. Revela o Banco de Portugal que “a queda [do consumo privado] de 3.9%, em termos reais, é a mais pronunciada desde 1975″. Porém, na Comissão Europeia são ainda mais pessimistas e já se prevê uma quebra do consumo privado, em 2012, na ordem dos 6%, o valor mais negativo em toda a União Europeia.

A esta quebra no consumo das famílias, refere a imprensa, “não é estranho o facto de o rendimento disponível ter diminuído 1 % em termos nominais, mas menos 4.5 % em termos reais. Curiosamente, esta evolução contrasta o que se passou 2009, ano em que se registou uma redução do rendimento disponível em termos nominais menos pronunciada do que a redução dos preços, originando um aumento do rendimento disponível em termos reais”.

Conjugue-se ainda estes dados com a quebra, no primeiro trimestre deste ano, de 4,4 por cento nas receitas fiscais arrecadadas, ainda que a carga de impostos que nos caiu em cima seja “insuportável”, de acordo com o esclarecimento que nos deu há dias Passos Coelho, e temos um quadro mais nítido das reais dificuldades que impuseram à sobrevivência dos portugueses. Percebe-se assim perfeitamente que a justiça de que fala Hollande seja mesmo um conceito desconhecido pelo primeiro-ministro português e seus mentores, o que, de resto, nem deveria constituir grande motivo de surpresa.

Entretanto, continuam a exigir aos trabalhadores ainda mais sacrifícios em nome do aumento da produtividade, que deverá ser certamente muito inferior à dos gestores das empresas do PSI 20, embora ainda há dias o Eurostat tenha divulgado que o custo de cada hora de trabalho em Portugal vale cerca de metade do valor médio dos outros trabalhadores da União Europeia. Quando comparado apenas com os países da moeda única, o custo da hora de trabalho em Portugal é ainda mais baixo.

Pode ser que Hollande ainda tenha a possibilidade de explicar a Passos Coelho numa dessas cimeiras em que se vão encontrando pela Europa os líderes governamentais o que é a justiça de que falava hoje na sua tomada de posse. Mas tem de ser rápido, antes que, em nome da produtividade, os nossos níveis salariais caiam ainda mais, de tal maneira que a história do burro do cigano passe a ser realidade…

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