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II – Suicídio – Ajuda e prevenção

Tal como referi, vou acabar a abordagem sobre a temática do suicídio. Espero que não tenha defraudado o companheiro Álvaro que me lançou o desafio. Espero ainda poder dado algum contributo válido para que todos possamos mudar as nossos preconceitos e sejamos compreensivos e colaborantes com quem tem o sofrimento de achar o suicídio o único recurso para a sua vida.

No caso de suicídio, nada poderemos fazer em relação à pessoa que o cometeu. Podemos ajudar os familiares amparando-os na sua fase de luto.

 Para ajudarmos alguém que fez uma tentativa de suicídio ou ameaça com o suicídio, temos de evitar que surjam alguns dos sentimentos que habitualmente aqueles comportamentos suscitam em nós. (hostilidade, rejeição, angústia). É importante que o nosso principal pensamento seja o de que esse alguém está em sofrimento e que precisa de ajuda. Temos de nos desfazer de todas as ideias feitas que nos podem levar a atitudes incorrectas.

Todas as ameaças de suicídio devem ser encaradas com muita seriedade, mesmo que possam parecer manipulativas. Toda a ameaça de suicídio deve ser considerada um pedido de ajuda,de socorro, talvez o mais pungente e infeliz de todos. O suicídio não é um acto de cobardia ou de coragem, pois o que faz com que uma pessoa pense na morte como solução é uma dor insuportável e a crença de não existirem alternativas.

Assim há um certo número de ideias a combater:

  • Quem quer matar-se, mata-se mesmo
  • Quem quer matar-se, não avisa
  •  O que a pessoa quer é chamar a atenção
  •  Ele ou ela já fizeram isso mais vezes

Todos os estudos feitos comprovam que 2/3 das pessoas que se mataram haviam comunicado de alguma maneira as suas intenções a amigos, a familiares e mesmo a simples conhecidos. Também os mesmos estudos comprovam que as pessoas que rodeavam o potencial suicida se recordam desses avisos que não foram tidos em consideração.

Frases de alerta:

  • Mais valia morrer
  • Eu preferia estar morto
  • Eu não aguento mais
  • Sou um peso para os outros
  • Não posso fazer nada
  • Não presto para nada
  • Os outros vão ser mais felizes sem mim
  • Viver já nada me diz ou já não há razão para eu viver
  • Sinto-me cansado de tudo

Estas frases interligadas a situações tais como perda de alguém próximo, de desemprego, de separações ou divórcios, de isolamento social, de  sentimentos de solidão, de perda de ano escolar, de roturas amorosas, de tentativas de suicídio anteriores, etc. devem ser especialmente valorizadas.

Contudo, na ausência destes factores de risco, devemos manter a posição de alerta e de ajuda perante estes avisos.

Devemos prestar atenção a outras potenciais mudanças ocorridas no comportamento da pessoa ou algumas queixas que manifeste, procurando detectar se existe uma depressão ou outra doença psiquiátrica.

Prestar a tenção a:

  • Comportamentos de isolamento, de incapacidade no relacionamento familiar e com amigos
  • Hábitos recentes de consumo de álcool ou o aumento de ingestão do mesmo ou outras drogas
  • Mais irritável e/ou impaciente
  • Mais silencioso, apático e pessimista
  • Crises de Ansiedade
  • Queixas de fadiga e cansaço constantes
  • Desinteresse por hobbies ou outras actividades que fazia com prazer
  • Alterações nos hábitos alimentares
  • Perturbações do sono – dificuldades em adormecer e acordar muito cedo
  • Manifestar sentimentos de desesperança, de impotência e de desamparo
  • Desfazer-se de objectos estimados, organizar documentos
  • Falar com frequência na morte ou temas com ela relacionados
  • Atenção às redes sociais, pois aí muitas vezes as pessoas estão mais à vontade para colocar os avisos de ameaças de suicídio.

Há 3 características próprias do estado em que se encontra a maioria das pessoas sob risco de suicídio:

1 – Ambivalência – querem ao mesmo tempo morrer, mas também viver.

(vale a pena aqui referir a força do nosso instinto de autoconservação). O predomínio do desejo de viver sobre o de morrer é o factor que possibilita a prevenção do suicídio e que devemos valorizar para uma actuação da nossa parte.

2 – Impulsividade – o acto suicida pode decorrer de um impulso súbito sem qualquer premeditação prévia

3 – Rigidez e Estreitamento do estado cognitivo do potencial suicida. A consciência da pessoa funciona dicotomicamente: tudo ou nada. Os pensamentos, os sentimentos e as acções estão limitados ao suicídio como única solução e não são capazes de pensar em outras formas de sair do problema. Pensam: «O único caminho é o da morte, nada mais posso fazer.» É como se fosse uma obsessão de que não consegue libertar-se.

Nunca por nunca tentar doutrinar a pessoa, isto é, não se deve ter reacções moralistas ou críticas que fariam ainda mais infeliz a pessoa que se sentiria profundamente incompreendida.

Evitar mostrar-se chocado ou muito emocionado ou tentar mostrar um optimismo face à situação com frases do género: «Vais ver que tudo passa, que tudo vai ficar bem»

A melhor maneira de ajudarmos será procurar um lugar tranquilo, silencioso e muito calmamente ouvir a pessoa, evitando interrupções frequentes. Ouvir é por si só o passo maior para reduzir a nível do desespero.

Deve mostrar-se empatia e respeito pelas opiniões e valores da pessoa, isto é, termos uma atitude de aceitação e não de julgamento.

A melhor maneira de esconjurar o suicídio é falar dele. Normalmente, as pessoas ficam aliviadas e gratas por poderem fazê-lo. Não é, de modo algum, a nossa conversa que vai induzir a ideia de suicídio a quem a não tiver previamente.

É claro que não é fácil abordar o tópico, mas logo que a pessoa esteja a sentir-se compreendida e a falar dos seus sentimentos, pode-se começar por fazer perguntas tais como:

  • Sente-se triste?
  • Sente que ninguém se preocupa consigo?
  • Sente que a vida não vale a pena ser vivida?
  • Já pensou em suicídio?

A seguir devemos tentar descobrir se a pessoa tem um plano para levar para a frente as suas intenções e se tem os meios para o fazer:

  • Fez algum plano para acabar com a vida?
  • Tem uma ideia de vai fazê-lo?
  • Tem medicamentos, uma arma, inseticida, ou outros meios?
  • Os meios estão facilmente disponíveis?

Finalmente, descobrir se tem uma data prevista:

  • Decidiu quando pretende  acabar com a vida?
  • Quando  está a pensar fazê-lo?

 Não esquecer datas de aniversário, datas festivas, datas em que pais, por exemplo, se suicidaram.

Estas perguntas devem ser feitas com cuidado e com afecto.

Finalmente, perceber os apoios de familiares, amigos, namorados, colegas e entrar em contacto com os mesmos depois de pedir autorização à pessoa. Teremos também muitas vezes de apoiar e explicar aos familiares o que se passa e levá-los a ter uma conduta de ajuda eficaz.

Há uma associação de alto risco para cometer suicídio:

História de tentativa anterior e Patologia psiquiátrica.

Nunca deixar a pessoa sem uma sincera e real ajuda e não se deixar iludir por promessas, pois a pessoa não está em condições de as cumprir. Nestas circunstâncias, temos de ser firmes, afectivos e suficientemente autoritários.

Não poderemos evitar todos os suicídios, pois não somos omnipotentes, mas se todos estivermos atentos e disponíveis para os prevenir daremos um grande passo em frente.

Uma palavra sobre a depressão e o suicídio nas crianças. Por muito que nos choque ou confunda, as crianças também podem deprimir-se e ter ideias e comportamentos suicidas, nomeadamente, em todas as situações críticas porque passe a família, disfunção familiar, abandono e perdas de pessoas importantes. É necessária uma atenção especial nestes casos e a criança deve ter apoio especializado.

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