economia, Geral

Irlanda sim,Irlanda não / as intermitências da comunicação social

Dos países que obtiveram empréstimos externos, na nossa comunicação social que alguns insistem em classificar de referência, não se percebe porque bulas, fala-se da Grécia, dos perigos de contágio da Grécia, por vezes reportam cenas de violência que ocorrem nos cenários de uma luta intensa e quase sem paragens que decorre na Grécia, enquanto a brutalidade das imposições da troika e as suas consequências sociais e económicas são parcimoniosamente referidas. Na generalidade, referem-se factos picarescos que transformam os trabalhadores gregos nuns privilegiados a ganhar muito para o pouco ou nada que produzem. Muito vagamente ou mesmo nunca se refere por onde se escoou e onde foi aplicado o dinheiro que provocou aquele défice astronómico.

Do outro país que foi assistido, a Irlanda, havia referências elogiosas ao modo como o governo e o povo se empenhavam em cumprir as metas e as imposições dos troikanos. As moscas que zunzunam comentários por tudo o que é sítio chegaram a dar a Irlanda como exemplo. Uma dessas cassandras disse por várias vezes que a Irlanda era outra loiça, porcelana fina, comparada com a louça nacional, porcelana rasca. De há uns tempos a esta parte não se ouve falar da Irlanda. Melhor, quase não se ouve falar da Irlanda, tirando uma breve referência à decisão do governo de coligação irlandês, conservadores, centristas e trabalhistas, terem decidido fazer um referendo ao Pacto Orçamental, imposto pela Alemanha e aceite por 24 países da União Europeia que impõe valores máximos para os défices, na base de premissas que nada têm a ver com ciência económica, nem se sustentam em factos. È uma opinião de direita, não mais do que isso, a que se quer dar força de lei. È um truque totalitário que transforma em fora de lei quem não concorde com um número esotérico, basta olhar para a dívida pública dos EUA (151% do PIB) ou do Japão (230% do PIB) que tornam os números de défice orçamental dos países com assistência financeira da troika quase irrelevantes, sem que os mercados precisem de tomar calmantes ou atirem os juros para valores especulativos, para se perceber que o que está por detrás desta manobra da direita política e dos economistas neoliberais, que querem matar definitivamente Keynes, ao que isto já chegou, e tornar um crime de pensamento, pensar de maneira diferente. Isto é fascismo! Por cá PS, PSD, CDS convergem e divergem alegremente sobre este assunto não tocando no fundo só na forma. Nem sequer é uma operação estética, é só maquilhagem.

Voltando à Irlanda, tanto silêncio parecia suspeito. E era.

Neste momento está em curso uma revolta fiscal. Mais de metade dos contribuintes irlandeses recusa pagar uma taxa adicional de cem euros no equivalente ao IMI. O boicote fiscal põe em causa as metas acordadas com a troika que, depois de quatro anos de crise e de austeridade, deveria reduzir o défice orçamental para 8,6% em 2012. O que, sem essa taxa adicional será impossível alcançar. A Irlanda depois de um débil crescimento entrou novamente em recessão e a taxa de desemprego voltou a crescer, em Fevereiro 14,7%. Tudo número que reduzem a capacidade de captar receitas por via fiscal, como está a acontecer por cá. Para quem acenava a bandeira da Irlanda como exemplo do bom caminho para sair da crise, na base do receituário neoliberal versão troika, bem pode rasgar as bandeiras e queimar os paus. O sol sempre foi muito fraco e, como agora se vê, de muito pouca dura.

Da Irlanda vem um bom exemplo: os êxitos que os boicotes fiscais conseguem.

A este boicote da taxa extraordinária, o governo desmultiplicou-se em ameaças, tanto aos contribuintes como aos municípios. Uns com duras penalizações, ameaças de execução fiscal. Outros com pau, pressionando as entidades municipais em prol da cobrança da taxa para não sofrerem cortes orçamentais nas transferências do governo para elas e cenouras, favorecer as cidades e municípios que fossem mais diligentes n cobrança fiscal. Agora o tom baixou. De não mostrar qualquer complacência com os relapsos passou-se para a necessidade de rectificação de eventuais erros na imposição da taxa. Pelo andar da carruagem que anda atrelada à troika, o caminho que isto vai seguir será provavelmente o que aconteceu a um anterior imposto, 50 euros por fossa séptica, também boicotado e que acabou fixado em 5 euros.

Bons exemplos irlandeses pouco ou nada falados na nossa suposta imprensa de referência.

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