economia, Política

Primeiro Ano de Um Assalto à Mão Armada

Faz hoje um ano que desembarcou em Portugal, a troika. Um bando de conhecidos assaltantes das economias de vários países para as subjugar e colocá-las a render em benefício do grande capital especulativo, entrincheirado numa coisa abstracta a que chamam mercados.

São especialistas do crime perfeito. Emprestam a juros que fariam os agiotas dos romances de Dickens ficar roxos de inveja. Impõem condições para a canalização desses empréstimos, dedicando uma grossa fatia para a banca. Dos 78 mil milhões de euros de empréstimo a Portugal, 12 mil milhões são para a banca, na esteira do que faz um dos seus mandantes, o Banco Central Europeu que emprestou nos últimos meses biliões de euros, em Dezembro foram 420 mil milhões de euros, na semana passada 550 mil milhões de euros a vários bancos europeus, portugueses incluidos, a juros muito favoráveis, perto do zero, com fez questão de acentuar seu presidente Mário Draghi. Bancos que irão realizar fabulosos lucros emprestando depois esse dinheiro a juros altíssimos aos agentes económicos, Estado incluído, dos vários países. É a financerização da economia, uma das receitas da troika, ou não fossem eles um dos braços armados do grande capital.

Para o quadro ser completo impõem igualmente um número de remédios, a que chamam medidas estruturais, que têm um único objectivo: arranjar um exército de mão de obra barata, no caso muito dela bem qualificada, destruir o tecido produtivo para o entregar de mão beijada às multinacionais, tornar o Estado irrelevante como agente económico. Ensinamentos colhidos numa besta apocalíptica da economia chamado Friedman, que habita a mesa de cabeceira de Vitor Gaspar, e experimentou as suas teorias no Chile de Pinochet, organizando uma pilhagem sustentada pela ferocidade da ditadura.

Passado um ano os resultados não enganam ninguém.

O desemprego já ultrapassou os 15 % e caminha rapidamente para os 20%. Em média, todos os dias, há mais quase 400 desempregados.

Número de casais desempregados dispara em Fevereiro, aumento de 73,2%, para 7192 casais.

Cortam-se os subsídios de desemprego, 300mil desempregados não recebem qualquer subsídio.

Cortam-se os apoios sociais.

Corta-se na educação e na ciência.Milhares de jovens portugueses que tiveram de deixar a universidade por não terem dinheiro para pagar as propinas ou por perderem o acesso às bolsas devido aos cortes.

Corta-se na saúde. O acesso à saúde está cada vez mais caro e díficil.

Cortam-se nos ordenados, os subsídios de natal e férias, que não são uma benesse, fazem parte do rendimento anual dos trabalhadores.

Corta-se em tudo. Não em tudo: o Ministério da Administraçao Interna não sofreu cortes. Há que garantir o futuro da paulada.

Uma média de 100 empresas fecha as portas por dia.

O custo de vida, dos bens essenciais, da água, da electricidade, do gás, dos transportes não pára de subir.

Muito outros números se poderiam alinhar.

O que é vísivel a olho nu, para qualquer pessoa, é que Portugal se está a afundar.

Aliás o primeiro-ministro fingindo ser homem confiável, sério que não esconde a situação dramática que se vive, é um especialista em tira da cartola frases feitas. Uma é notável: É preciso empobrecer para voltar a crescer. Várias mentirolas estão dentro desta frase. Os ricos, com este governo, não empobrecem, antes pelo contrário, estão a enriquecer ainda mais. Não diz, nem nunca dirá que se cortasse na mesma percentagem, os rendimentos das 10 maiores fortunas de Portugal, o problema do défice ficaría praticamente resolvido. Nem diz que os seus detentores, continuam os grandes beneficiários da orgia capitalista instalada.

Outra mentirola é que isto é necessário para futuramente crescer. Quando a recessão é hoje de 3,4%. Quando se anuncia que poderá alcançar valores superiores a 6%, qualquer crescimento que se verificar, lá para o ano de 2015, não será suficiente para recuperar do empobrecimento sofrido. Qualquer número positivo terá valor fictício e é mais que possível depois da degradação que continua imparavel.

Procurar alcançar o reequílibrio financeiro pela via que se está a seguir, é destruir a economia. O que se está a fazer é a mais miserável das políticas. A que desistiu dos portugueses, dos valores humanos. É equilibrar por baixo. Em vez de reanimar a economia e combater o desemprego o que se está a tramar é oferecer um exército de mão-de-obra barata e qualificada aos abutres do capital. Outro não é o resultado do Pacto Social que alterou as leis do trabalho. Reduzir dias de férias, feriados, subtrair subsídios, o valor das horas extraordinárias, por várias vias, reduzir os ordenados, é objectivamente tornar a hora de trabalho muito mais barata. Quando a isto se junta facilitar despedir, fazendo-o mais fácil e barato, o que se está é a oferecer aos empreendedores são trabalhadores com condições de trabalho próximas do auge do liberalismo do século XIX.

A isto costumam chamar, sem se rirem, modernidade. O inefável Álvaro Santos Pereira, fingindo não saber, a hipocrisia é talvez o traço mais distintivo deste governo, que antes do Pacto Social já era mais fácil e até mais barato despedir em Portugal que na grande maioria dos países da Europa, vem dizer que essas são medidas necessárias para aumentar a “competividade”. O ignorante aponta para um objectivo que não existe, a ignorância e incompetência são os outros traços distintivos destes governantes, claro que se calhar poderá aumentar a ”competividade” objectivo inútil por inexistente. O que é necessário é aumentar a competitividade, por este caminho não se vai lá. Não se vai a lado nenhum.

É extraordinário ver como tudo isto se transformou num teatro de sombras, de embustes.

Enchem a boca e os meios de comunicação social com as parangonas que “a apreciação internacional muito favorável à consolidação orçamental que se está a verificar no nosso país é muito favorável” que se está a executar “com coragem as reformas estruturais necessárias ao crescimento da economia” para logo a seguir se verificar que o país continua no lixo, que os juros da dívida continuam em alta, que o risco de bancarrota não pára de crescer.

Diz o primeiro-ministro, em coro dizem com ele o bando de ministros e subsecretários de estado, que estão a promover uma “Revolução Silenciosa”. Não muito silenciosa, todos os dias os protestos crescem e são cada vez mais ruidosos. O que não diz é que essa “Revolução Silenciosa” visa alcançar um novo equilíbrio para a economia através da destruição da economia. Só lhe interessa manter as elites intocáveis. Por isso, austeridade e sacrifícios, só para os mais fracos, enquanto favorece o ressurgimento de uma burguesia faustosa, em que se incluí a clientela deste governo e eles próprios, e uma multitude de miseráveis para os servir.

Não passam de mangas de alpaca, sem experiência, sem ideias que obedecem, sem pestanejar, aos ditames do bando de assaltantes da troika que vem de Bruxelas e outras partes da Europa e do Mundo, a mando da senhora Merkel e do Senhor Sarkosky que, com outros marqueses e duques da corte do grande capital cumprem com denodo o seu papel de guardiões do seu poder totalitário, sentados à sua mesa comendo as sobras das vitualhas enquanto cumprem as ordens do grande capital que está no reino dos céus a tomar conta de todos nós.

Um ano depois da chegada da troika, o cenário é devastador. O governo desistiu de Portugal que já tinha entrado em franca decadência desde os investimentos farónicos de Cavaco e da sua equipa maravilha, alguma dela a lustrar as prisões. Decadência que foi de governo em governo até à desgraçada situação que vivemos e em que estamos a ser assaltados à mão armada, como se pode inferir das recentes intervenções da polícia de choque.

Vivemos uma grave crise, que não é só nossa, é transversal ao mundo. Crise que é o estádio em que se caracteriza como dizia Gramcsi, “quando o velho está a morrer e o novo não consegue nascer”.

Há que acabar com este roubo total que nos fazem, metendo-nos a mãos nos bolsos e nas cabeças. Há que lutar para se sair do pântano da decadência, lutando pelo renascimento e respeito, pelos direitos do homem, dos valores humanos, o que foi é e será sempre a luta dos povos oprimidos. Luta que está nas suas mãos, nas nossas

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2 thoughts on “Primeiro Ano de Um Assalto à Mão Armada

  1. zepedrolemos diz:

    eheheh, para muitos o dinheiro é como uma droga, mesmo que seja pouquinho. Onde ha, vai-se lá aviar quem quer mais, e como todas as drogas, a grande preocupação é satisfazer a ressaca, o habito do seu consumo, sem que nesse momento exista sequer um unico pensamento sobre o dia seguinte ou a realidade de ter de pagar, “agora já estou aviado, depois logo se vê… ha-de arranjar-se uma forma de pagar”.
    Será dessa falha, na segunda parte do processo, de que todos sofrem? e que por isso, depois querem pendurar num poste quem empresta? É que o DEALER so vende a quem compra, e se um cliente é guloso, ele esfrega as mãos… mas não o podemos culpar da vontade do inconsciente e irresponsavel comprador. O DEALER é mau porque vende sem olhar a meios, mas so vende se comprarem, e isso é da exclusiva iniciativa individual de cada um, embora se queira culpar uma colectividade para assim diluir a responsabilidade individual e transferi-la para as instituições, e talvez por isso a subjugação a estas.

    zepedrolemos

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  2. Luiz Moita diz:

    Já alguém se debruçou sobre esta nova “iniciativa” ? Seria interessante recolher opiniões e propostas sobre o que se pode, ou não pode fazer com ela. Seria por exemplo interessante uma denúncia de todos os crimes de corrupção e dos escandalosos “tachos” para os bandidos políticos geralmente denominados por esse elgante eufemismo estrangeirado “jobs for the boys”. É necessária a colaboração de pelo menos sete países da UE:

    Iniciativa dos Cidadãos Europeus :

    http://www.eurocid.pt/pls/wsd/wsdwcot0.detalhe?p_cot_id=5451

    Quanto ao texto do Manuel Augusto Araújo : admirável, como sempre . VERDADE NUA E CRUA da nossa realiade quotidiana.

    Cito :”Há que acabar com este roubo total que nos fazem, metendo-nos a mãos nos bolsos e nas cabeças. Há que lutar para se sair do pântano da decadência, lutando pelo renascimento e respeito, pelos direitos do homem, dos valores humanos, o que foi é e será sempre a luta dos povos oprimidos. Luta que está nas suas mãos, nas nossas!”

    Só estou 1.000% de acordo !

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