Cultura, Geral

Um italiano muito português

Isto de andar vivo, acaba sempre mal, dizia, com o seu peculiar humor, Manuel da Fonseca.

Hoje acabou para António Tabucchi. O mal que o minava ele fazia por desconhecer e a ninguém dele falava nem deixava falar,vendo claramente a esquina em que a vida dobra encontrando a morte.

Italiano, amante da sua pátria, da sua cultura é, ainda muito jovem, desassossegado por um poema “A Tabacaria” de um poeta português, Álvaro de Campos que lê, pela primeira vez,  em francês. A fascinação é tal que vem a Portugal para conhecer Fernando Pessoa, escondido atrás Álvaro de Campos. Não mais perderá a sua ligação a Portugal. A sua tese de doutoramento é sobre “O surrealismo em Portugal”. Acaba por ser nomeado professor de Língua e Literatura portuguesa primeiro na Universidade de Bolonha, mais tarde em Génova. O seu tempo já se dividia entre Itália e Portugal, onde começou a partilhar a vida com Maria José Lancastre, com quem iria traduzir várias obras de Fernando Pessoa para italiano.

Paralelamente ao seu trabalho académico começou a ser conhecido como escritor. O seu primeiro livro Piazza d’Italia, contra a historiografia dominante, dá a visão da história pelo olhar dos derrotados. Os livros seguintes são uma procura da identidade, na multiplicidade de possíveis identidades a que não será estranho o seu profundo conhecimento e o seu deslumbramento por Fernando Pessoa, desdobrado em tão diversos e personalizados criadores literários. Muitos dos cenários dos seus romances e novelas acontecem ou têm episódios em Portugal.

O livro que o torna universalmente conhecido em Portugal é Afirma Pereira. Pereira é um jornalista católico, apolítico, alheado e indiferente à opressão que se vai instalando no país pela mão férrea de Salazar, ainda embrulhado em fazendas melífluas, enquanto ao lado, na vizinha Espanha, a guerra civil campeia toda a sua brutalidade. Lentamente Pereira, sintomaticamente redactor de uma página literária, vivendo na nuvem das artes falsamente libertas de grilhões políticos e sociais, vai tomando consciência da sua passividade perante a violência repressiva que o cerca. É um processo longo, cheio de sobressaltos, com a participação dos amigos e que se resolve num artigo de denúncia onde assim se afirma Pereira, o que transforma a sua vida e visão das artes.

É um romance político a que Tabucchi confere uma força inusitada com o artifício de o escrever como um romance existencial. Nada contraditório com um Tabucchi que sempre exerceu uma forte intervenção política e social, o que se manifestou, das mais diversas formas, a última das quais contra as iniquidades do governo Berlusconi e de Berlusconi que lhe valeram uma impiedosa perseguição.

Vários dos seus livros foram transpostos para o cinema,  por Alain Corneau ou Fernando Lopes entre outros.

A sua ligação com Portugal era tão forte que chegou a escrever um livro directamente em português, Requiem, depois traduzido para a sua língua natal. A Imprensa Nacional-Casa da Moeda publicou Pessoana Minima,notável trabalho sobre Fernando Pessoa que integra os seus vários estudos sobre esse poeta impar que o introduziu em Portugal, a sua segunda pátria, onde acabaria por morrer.

É sempre perturbador falar de pessoas com quem de algum modo se privou. Perturbador mais ainda quando olhamos para aquelas rotinas que acabam por dar sentido à vida, no caso uma reunião convivial em que anualmente nos encontrávamos e que, mesmo que já não aconteça, vai ficando progressivamente com menos participantes pela inexorável lei da vida. Começamos a olhar com inquietude à nossa volta, depois de termos suposto que seriam todos imortais, no sentido em que nos sobreviveriam.

Assim deixo aqui o meu adeus ao Tabucchi.

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2 thoughts on “Um italiano muito português

  1. Fernanda Paixao dos Santos diz:

    Meu Caro Manuel Augusto,

    Sei que hoje estavas presente para o Antonio. Tive pena de nao estar tambem.

    Nao quero deixar de te dizer que logo pela manha antes de ir trabalhar li obituario do Antonio publicado no jornal “The Independent”. Mandei guardar mais exemplares do jornal na tabacaria que mo entrega pela manha. Vou enviar um deles a um familiar e outro para ti. Sei que aprecias os obtituarios de alguma imprensa inglesa.

    Um abraco

    Fernanda Paixao dos Santos

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  2. Fernanda Paixao dos Santos diz:

    Boa noite Manuel Augusto,

    Tambem eu fiquei bem triste com a morte do Antonio. Os amigos vao desaparecendo e sempre foi meu uso e costume lembra-los a minha maneira. Esta tarde fui ao Royal Festival Hall ouvir “War Requiem” de Benjamin Britten, desta vez regido por Lorin Maazel, com Nancy Gustafson soprano, Mark Padmore tenor, Mattias Goerne baritono. Como sabes tinhamos combinado que a hora exacta – 19.30 tu ouvirias o “War Requiem” original. Interessante que Mattias Goerne foi discipulo de Fisher Diskau. Assim, pensei duplamente no Antonio, no seu magnifico romance “Requiem” que, quando foi publicado no Reino Unido, ganhou o premio do “Indepent” para a melhor traducao de romance estrangeiro desse ano, sendo a capa uma gravura do Bartolomeu.

    Antes de entrar para a sala bebi no bar, olhando o Tamisa, uma vodka “Standard” dupla, com lima e tonica e levantei o copo ao Antonio, lembrando tambem o cocktail no Museu de Arte Antiga que ele descreve com tanta graca e engenho. Pena que o barman do Rpyal Festival Hall nao tivesse os todos os ingredientes necessarios…

    Obrigada Antonio.

    Grande abraco

    Fernanda Paixao dos Santos

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