Praça do Bocage

DIA do ESTUDANTE fez hoje 50 anos

   Faz hoje 50 anos que a Crise Académica abriu uma enorme brecha no regime fascista que, particularmente desde as eleições de 1958 em que Humberto Delgado afrontou directamente o ditador, estava sujeito a forte desgaste.

!961 foi ano que prenunciou o fim do império e a erosão da ditadura. No plano externo no princípio do ano, a guerra colonial iniciou-se em Angola. Nos últimos meses a União Indiana, anexou por força militar Goa, Damão e Diu, acabando com o chamado Estado da Índia. Salazar que tentava costurar a sobrevivência do regime entre as suas facções, cujas fracturas eram cada vez mais expostas, enfrenta uma tentativa de golpe de estado de moderados do regime, endurece a repressão e, a pretexto da guerra colonial, consegue a unidade possível entre os militares. As lutas de massas têm um novo impulso, depois do Partido Comunista Português recuperar de uma fortíssima repressão nos anos 58 e 59 que atingiu violentamente os seus quadros e o seu aparelho clandestino. Nos finais de 1961, na sequência da farsa eleitoral para a Assembleia Nacional, grandes manifestações convocadas pelo PCP eclodiram em Lisboa, Almada, Alpiarça, Couço, Coimbra, Covilhã, Porto. A repressão é brutal. As prisões voltam-se a encher, há muitos feridos e um morto, Cândido Capilé, em Almada. A fechar esse ano, em que já tinham passado pelas prisões “intocáveis” oposicionistas demo-liberais, membros das juntas patrióticas onde se juntavam comunistas e a oposição de esquerda, e continuavam a ser presos militantes comunistas, há o golpe falhado de Beja. O regime endurece e nas suas fileiras começam a distanciar-se e mesmo a separa-se, católicos e monárquicos.

Em 1962 as lutas de operários nas zonas industriais e de assalariados agrícolas no Alentejo e Ribatejo intensificam-se e, no dia de hoje, há cinquenta anos, abre-se a Crise Académica que tem o particular significado de os estudantes entrarem directamente na luta contra o fascismo. Muito deles descobriram o valor da luta colectiva, outros davam expressão à luta clandestina que desenvolviam organizados em estruturas do PCP. As Associações de Estudantes foram a expressão pública dessa unidade que se forjava na luta de uma greve académica que dura cem dias,  enfrentando a repressão a subir de tom e a alterar os seus contornos.

É inegável a importância da Crise Académica de 1962 na luta contra o fascismo. A politização dos estudantes das três academias marca um ponto de viragem qualitativo nas lutas contra o regime, atingido agora a partir das universidades que deviam ser o local de produção das elites políticas e científicas. Uma entrada mais clara nessa luta, que vinha detrás mas nunca tinha adquirido essa expressão e dimensão colectiva e que,  a partir daí, ganhou uma dinâmica que não mais esmoreceria.

Nesse ano as comemorações do 1º de Maio convocadas pelo Partido Comunista Português, tiveram uma adesão e um impacto nunca antes alcançado. Pela primeira vez as lutas populares integraram de forma significativa contingentes estudantis.

Muitos de nós estivemos hoje na Reitoria e na Cantina da Cidade Universitária comemorando os 50 anos da Crise Académica. Uma jornada de confraternização e de memórias que continuam bem vivas, numa altura em que Portugal vive uma crise profunda, em que a deriva para a direita se acentua e onde se começa a assistir a cargas policiais dignas dos tempos salazarentos.

Nestes 50 anos quero aqui lembrar, José Bernardino, dirigente académico da Associação de Estudantes do Técnico, que em 1961 foi eleito secretário-geral da RIA (Reunião Inter-Associações) e que tinha sido obrigado a mergulhar na clandestinidade. Na altura da Crise Académica, funcionário do Partido Comunista, apesar de estar compelido a fazer uma vida fora dos circuitos normais, foi elemento central na direcção das lutas académicas e que, em consequência dos riscos que correu durante esse período, acabou por ser preso em Maio de 1962, enfrentando com enorme dignidade as brutais torturas da PIDE, sendo condenado a sete anos de prisão.