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Parque natural da Arrábida – a flora

«…chega mesmo a acontecer como no caso da Serra da Arrábida, ser a vegetação ali existente não só única em relação a Portugal como em relação ao mundo inteiro, mesmo comparando-o com o caso especial da região mediterrânica a que pertence (…) ao longo dos séculos tal mostra ímpar de um tipo de flora que certamente teria existido noutros tempos em área mais vasta, manteve-se até certo ponto intacta, sem embargo das alterações mais ou menos profundas provocadas pelo fogo e pela pastorícia. Mas mesmo assim pode dizer-se que chegou aos nossos tempos quase intacta ou, pelo menos, em condições tais, que não tem qualquer rival em todo o Mundo a que pertence…». (Carqueijeiro, O Desafio da Arrábida, 1996)

Nos séculos XVI e XVII, dois naturalistas franceses, Charles de l’ Ecluse e Joseph Pitton De Tournefort, por aqui passaram e fizeram uma descrição das plantas desta região. Depois, nos séculos XVIII e XIX, botânicos e naturalistas portugueses e estrangeiros aqui estiveram a fazer pesquisas florísticas e arborizações.

Em 1909, o biólogo Choddat escrevia, no boletim da Sociedade Botânica de Genéve, Suiça, que a Serra da Arrábida era «…o mais surpreendente maquial (maquis) existente na Europa (…) e lhe parecia ter conservado um dos últimos, senão o último vestígio de uma floresta pré-glacial da Europa do Sul…». (Carqueijeiro, o Desafio da Arrábida, 1996).

Em 1939, o Engenheiro Silvicultor Francisco Flores afirmava: «…a formação climática da Arrábida, último resto intacto do matagal mediterrâneo, escapado milagrosamente da destruição continuamente exercida durante milhares de anos por civilizações que se sucederam uma às outras nesta zona do globo. Torna-se imprescindível a delimitação da reserva integral na zona arborizada da serra e daquela que lhe está contígua…». (Carqueijeiro, O desafio da Arrábida, 1996).

Vem de há alguns séculos a importância dada à flora nesta região. A Arrábida tem um micro-clima próprio, nas vertentes norte e sul, sendo esta mais seca, enquanto a de norte mais húmido e ventosa. Neste contexto, o coberto vegetal é composto por várias áreas, relacionadas com o clima específico e, claro, com o tipo de solo.

Até hoje foram encontradas 1450 espécies e subespécies de origem vegetal na região do parque, grande parte delas de distribuição mediterrânea, mas também espécies macaronésicas e algumas eurosiberianas. Destas devem-se destacar os carvalhais marcescentes, as formações caducifólias, as formações perenifólias, a vegetação bentónica, as charnecas secas, as formações de zimbro, as florestas termo mediterrâneas, as formações herbáceas, os montados, etc.

Das preciosidades florísticas que encontramos algumas são conhecidas de longa data; mas outras ainda vão sendo descobertas comprovando a riqueza da região. Das espécies, considera-se que cerca de meia centena estarão ameaçadas, devido ao seu valor aromático, medicinal, condimentar, cosmético ou ornamental. Seja por visitantes ocasionais, seja por profissionais que as colhem para comercializarem, estamos a pôr em risco espécies únicas ou raras.

A vegetação da Arrábida é geralmente citada como um dos elementos mais importantes do parque natural. A sua origem é parte da história da evolução natural da região, que teve o seu início há cerca de 180 milhões de anos, provavelmente ainda submersa. Formou-se num relevo acidentado, favorecendo este a criação de micro-climas e a existência de uma grande diversidade de espécies, como por exemplo estas: folhado; murta; lentisco; medronheiro; aderno; carrasco.

As áreas onde a vegetação tem características semelhantes às originais foram classificadas de reservas integrais. Estão neste caso a Mata do Solitário, a Mata do Vidal e a Mata Coberta, onde se encontra uma forte concentração de carvalho cerquinho.

As zonas de reserva natural surgem de uma luta que se iniciou no final da década de 40, com Sebastião da Gama, o poeta da Arrábida, mas principalmente a partir do final dos anos cinquenta e que pouco a pouco se vai organizando, ganhando adeptos, como se pode ver por exemplo através desta notícia publicada em “O Setubalense” de 8-8-1970: «… é indispensável conservar a serra com a sua flora natural mediterrânica ainda existente (…) conservar a floresta e aspectos primitivos, como a cor e composição (…) Por isso, os amigos das suas árvores e das suas pedras devem organizar “Os Amigos da Serra da Arrábida” quer como entidade autónoma, quer como delegação da Liga da Natureza…».

Nas zonas de maior influência humana, devido a vários factores como a caça, pastoreio, agricultura e silvicultura, encontramos extensas zonas de matos que cobrem a maior parte da serra.

Esta mata tem um elevado valor botânico com associações florísticas únicas, com espécies como: alecrim, rosmaninho, tomilho, santolina, pascoinhas, folhado, urze, macela, medronheiro, funcho, murta, salva, borragem, botões de ouro e estevas. De realçar a extraordinária beleza da maioria das flores que por aqui escolheram viver: o narciso de flor amarela, a orquídea, a rosa-albardeira, outras, muitas, umas protegidas, outras não, todas bonitas, algumas raras.

Destas flores sabemos que algumas são essenciais para a apicultura, já que o saboroso e comercializado mel da Arrábida, diz quem sabe, é único, devido à alimentação das abelhas.

Descendo até ao Sado e seguindo-o, nas suas margens vamos encontrar áreas de mato, montados de sobro, pinheiros bravos e mansos e as respectivas plantas a eles associadas.

Aqui se encontram também os lodos salinos, áreas de exploração tradicional de recursos renováveis que remontam à época romana e que estão ligados a outros recursos do rio como a pesca e salga de peixe e as turfas pantanosas.

Os Sapais são comunidades de plantas halófitas (plantas que sendo terrestres estão adaptadas a viverem no mar ou próximo dele, sendo tolerantes à salinidade) e cujo termo corrente é gramatas. As gramatas servem para sedimentar e fixar as lamas, e são locais de grande biodiversidade, constituindo local de alimentação, reprodução, nascimento e habitação, permanente ou temporária de inúmeras espécies de animais terrestres, marinhos e aves.

As Dunas são ecossistemas de sedimentação eólica, colonizados por uma vegetação variada e específica, que as estabiliza. Esta vegetação inclui também espécies protegidas e são normalmente ecossistemas de grande valor natural, florístico e também paisagístico.

Resguardar e proteger toda esta cobertura vegetal é essencial para o equilibrio ecológico. A preservação do coberto vegetal serve vários fins:

a) protege a nidificação das aves, sejam estas sedentárias ou nómadas;

b) protege a erosão do solo provocada pela chuva e pelo vento;

c) a vegetação é eficiente na despoluição, filtrando gases e poeiras;

d) é uma barreira contra a propagação de resíduos;

e) produz uma grande parte do oxigénio que respiramos.

Para concluir este breve esboço sobre a vegetação da Arrábida, deve-se reforçar a ideia que a sua preservação é um ato de cidadania e que estamos a proteger algo único no mundo.

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