Cultura, Geral

Questões de Cultura

Ontem ao ver o Secretário de Estado da Cultura a fazer mais uma aparição mediática, (nada como ter feito caminho na comunicação social, caminho que foi impulsionado quando António Mega Ferreira, congeminando a feitura da revista Ler, o convidou para integrar o quadro redactorial, o que lhe deu acesso a múltiplas aparições, coisa em que se tornou um especialista) exibindo os seus dotes dotes de sedução para embrulhar em papel de estanho que, nas suas mãos, brilha mais que papel de prata a política cultural que está a ser posta em prática e que de facto a subordina a uma visão gestionária e economicista, que ele nega veemente com a mesma convicção, certeza e verdade com S. Pedro negava conhecer Jesus Cristo. Essa visão e prática, corre sobre um pano de fundo tecido pela ideologia dominante do capitalismo terminal. Com esse pretexto fui rebuscar um texto que publiquei no Caderno Vermelho,  sobre cultura e que, apesar de  alguns anos idade,com actualizações mínimas, penso não ter perdido acuidade nos tempos actuais.

QUESTÕES DE CULTURA

Cultura é, provavelmente, uma das mais complexas palavras de qualquer língua, com uma raiz que significando uma actividade é também uma entidade. Originalmente descrevia um concreto processo material de trabalho que o homem introduziu no crescimento espontâneo da natureza para a conformar às suas necessidades, alterando-a, dominando-a, inventando-a e inventando uma nova disciplina, a agricultura, que o foi agarrando à terra diversificando as culturas e desenhando novos habitats, desenvolvendo agregados populacionais e uma vida colectiva onde a cultura começou a ser metaforicamente trans­posta para os assuntos ditos do espírito.

As sementeiras passaram a ser materiais e imateriais tal como os seus frutos enquanto, paradoxalmente, os que adubam a terra para a tornar mais fértil, mais propícia a produzir culturas, começa­ram a ser considerados incultos por falta de tempo para se cultiva­rem, em contraponto com os citadinos progressivamente mais inte­ressados na cultura e com mais tempo para produzirem cultura não só enquanto progresso da humanidade, mas como instrumento que marca distancias e distinções.

O labirinto semântico da palavra cultura descreve sempre uma transição entre o que existe e o que se transforma, seja na natureza ou no espírito dos homens. Transição constante, variável entre regu­lação e crescimento espontâneo por força do trabalho que a diver­sifica e aprofunda. Cultura é ainda um instrumento de dominação da natureza e/ ou da humanidade numa sociedade que se apropria dos frutos do trabalho, de todos os frutos do trabalho, do mais banal cordel ao mais complexo poema, para deles fazer merca­dorias. Apropriação que é trave mestra do sistema de produção capitalista que aprofunda o divórcio entre o homem e a natureza, o homem e seus semelhantes, entre o homem individual e a sua individualidade. Onde a alienação corta transversalmente toda a actividade humana.

Cresce a cultura como uma floresta de equívocos não inocentes e que progressivamente são usados para a desacreditar enquanto soma dinâmica e activa das sabedorias da vida e dos conheci­mentos do fazer, da prática colectiva de grupos e indivíduos. Equívo­cos que, no limite, a encerram no círculo restritivo da criação artís­tica. Seria assim a cultura uma ilha limitada às artes e às letras onde alegremente a criatividade se expandiria, longe do ruído trivial do trabalho ou das outras actividades quotidianas, sejam as das ciên­cias e das tecnologias sejam as da política ou da vida doméstica.

Essa ideia reducionista da cultura esquece-se, e não lhe interes­sa entender, que uma ilha se define sempre em relação a um conti­nente e que as artes, embora se desenvolvam com uma relativa autonomia, são de alguma forma e sempre condicionadas pela evolução socioeconómica.

Essa ideia minoritária de cultura esquece deliberadamente que só alguns, mesmo que sejam muitos, dos produtos culturais são arte, e quando o esquece é porque está determinada em limitar a possibilidade de conhecimento e d reconhecimento dos objectos artísticos a alguns eleitos. Objectos que, nas sociedades posteriores à Revolução Francesa, a burguesia, num gesto liberal e moscovita, possibilitou a sua visão e/ou audição ao povo. Os objectos, não o saber que suporta e serve para os legitimar, quer dizer para lhes atribuir valor de mercado. O que nesta nossa época pós modernista do capitalismo final, conduziu a que o mercado de objectos de arte seja de facto um mercado de objectos de luxo. A alienação atinge aqui o seu clímax e não é iludida pelas dádivas de doses de ópio às massas populares, principalmente quando esse ópio desgastou a qualidade aplainada pela rasadoira da generalizada oferta de entretenimento que não exige reflexão, nem sintoniza sentimentos e se afunda num perverso gosto homogeneizado e acéfalo que atira para a fornalha da iliteracia global um grande número de pessoas que, por via da exclusão cultural (fenómeno inquietantemente crescente), ficam cada vez mais incapacitadas e afastadas da possibilidade de possuírem ferramentas para exercerem os seus direitos de cidadania.

No pólo oposto, as artes até podem representar a excelência da vida, mas se a isso se restringem ficam amputadas do seu poder transformador. Tornam-se um aparato condenado a ficar amarrado à deriva da moda.

Actualmente os intermediários culturais, dos comentadores das mais variadas espécies e especialidades aos comissários artísticos, querem ser os grandes protagonistas da história ocupando o lugar que os operários e a burguesia, a luta de classes portanto, tinham na modernidade. São impulsionados pela retórica em que se embrulham onde, para justificarem o seu desejo de eternidade, fazem coexistir vários fins da história com a ilusão do fim da classe operária. Classe que, contrariando esses desejos, continua a crescer por todo o mundo formada por todos os que se encontram directa e indirectamente ligados e submetidos às normas capitalistas de produção, tal como Marx as definiu e que não perdeu actualidade, o que arranca pela raiz as teorias pós-modernas que exploram a deslocação da posição da classe operária dentro do proletariado, da generalidade dos trabalhadores que vendem a sua força de trabalho, seja manual e/ou intelectual, onde deixou de ocupar um lugar central. Assinam apressadamente a sua certidão de óbito para sossego das suas almas rapaces, sem terem percebido que a classe operária não desapareceu, é diferente porque é diferente o trabalho que desenvolve, tal como o capitalismo, na actualidade se reciclou e hoje já não exporta só fábricas obsoletas para lugares obscuros de países subdesenvolvidos, exporta igualmente fábricas sofisticadas e mão-de-obra qualificada que forma a mão-de-obra local. E se essa é uma das características principais do capitalismo actual a outra é, como se referiu, a produção de bens imateriais que se tornou tão relevante quanto a produção de bens materiais.

Não se trata apenas de produção de comunicação que se processa principalmente nas redes tradicionais dos média, nas culturais e nas informáticas, onde se preparam e justificam as acções mais agressivas (Bósnia, Kosovo, Afeganistão, Iraque, Líbia, Síria) consolidando a imagem de autoridade das corporações capitalistas e do aparelho de estado ao seu serviço. Trata-se de por todos os meios construir e impor um imaginário, onde é tão relevante uma canção, de preferência americana na forma e internacional nos sentimen­tos, quanto a fabricação efémera de heróis populares saídos de um qualquer Big Brother, Casa dos Segredos, as múltiplas rodas da fortuna e novos talentos, que é parte fundamental do trabalho contu­maz de alienação das massas populares.

Não é questão original, tem é uma nova cartografia que usa todos os meios ao seu dispor, mesmo os mais inesperados, e que è traçada pelos intermediários culturais encarregados de confecciona­rem “uma subtil actividade de manipulação nas empresas indus­triais ou na gestão da produção cultural: rádio, televisão, empresas de sondagem, estudos de pesquisa, grandes jornais e semanários e, sobretudo, nas profissões ligadas ao trabalho social e à animação cultural” (Pierre Bourdieu, La Distinction). São eles, ocupando o lugar equivalente ao do baixo clero na idade média e da nobreza menor e da pequena burguesia nas épocas subsequentes, os transmissores do bom gosto, das boas maneiras e das ideias das classes supe­riores. São eles os garantes da manutenção do estado de sítio do capitalismo. São eles os vendedores dos modelos sociais que supor­tam o imperialismo. São actores representando o seu próprio papel, no qual foram investidos por quem está constantemen

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4 thoughts on “Questões de Cultura

  1. Caramba! Eu vou ter de reler este texto quando – e se… – estiver menos limitada nos meus recursos mentais. Consegui pressentir qualquer coisa que eu subscreveria incondicionalmente, mas não consigo explicar o quê, nem porquê.
    O problema é todo meu; estou com uma broncopneumonia e uma enterite por rotavírus e deveria estar muito quietinha na cama, a tentar sobreviver… comunicar é um luxo a que uma mera mortal não deve aspirar quando se encontra num estado tão miserando. Mas espero voltar quando isto estiver mais controlado!

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  2. Só a revista “Ler”? Então e o tempo que esteve à frente do “Círculo de Leitores”?
    Quanto à mercantilização de tudo, não esqueçamos a tentativa de torna a própria vida mercadoria, ao patentearem o genoma humano!
    A água já está na calha. Só falta a privatização do ar…
    Muito bons textos, Manuel Augusto Araújo. O seu e do “Caderno Vermelho”…

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  3. José Luis Porfírio diz:

    Apenas uma anedota
    Serralves
    inauguração da expo Warhol, as paredes estão forradas com papel reproduzindo e repetido da à saciedade alguns dos seus ícpones fundamentais fornecido e vendido pelo “estate” A. W:, encostei-me a uma e fui repreendido, estava a danificar uma obra de arte. Inquiri depois qual o seu detino no final da exposição: “totalmente destruido, está no contrato” foi a resposta.
    E tudo ficou esclarecido.
    J L P

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    • Manuel Augusto Araujo diz:

      Meu caro José Luís Porfírio
      Nessa exposição para lá dessas anedotas, lembro-me bem do seu magnifico texto crítico, o que mais importante foi verificar o vazio, a enorme vacuidade que é a obra de Warhol. Quanto custou essa exposição? aleluia Serralves, a viver à conta do erário público, fingindo que angaria os seus próprios meios, que é um projecto auto-sustentável!
      . O mais divertido foi ler os textos laudatórios que essa gente que é o perorar dominante sobre artes visuais andou a plantar na comunicação social. Uns Arthuros Dantos de pacotilha que colavam ao Warhol as etiquetas mais inverosímeis e improváveis. Houve um que chegou a descobrir que Warhol tinha realizado uma revolução tão importante como Marx. Lembra-se dessa alarvidade. A sorte de toda essa gente é que a vigarice intelectual não é contemplada, nem nunca será, contemplada no Código Civil. A prisão perpétua era garantida!.
      Num outro texto escrevi isto “Dante, quando a burguesia se começa a afirmar escreve a Divina Comédia, uma obra-prima. Warhol quando a burguesia aspira à eternidade e está convicta de resolver as suas contradições com pragmatismo e racionalidade gestionária, possuída por fé avassaladora e totalizante no liberalismo económico, proclama que o que interessa “ é ser célebre nem que seja por quinze minutos” e que “ a melhor obra de arte é um bom negócio”..
      Julgo ter distinguido claramente a situação pré-moderna, quando o capitalismo se inicia e tinha traços revolucionários, como Marx e Engels referem no Manifesto Comunista, e Dante era o último dos poetas medievais e o primeiro dos poetas modernos e a nossa esquálida vivência pós-moderna, com a proliferação de equívocos warhol’s
      Um forte abraço

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