Cultura, Geral, música

Thelonious Monk

ROUND MIDNIGNT

 Ontem, passaram 40 anos sobre a morte de Thelonious Monk. É um dos grandes músicos de jazz que faz parte da geração de charneira em que o jazz deixou de ser uma música sobretudo para dançar para ser uma música essencialmente para ouvir, sem que o sentido corporal se perdesse.

Apesar de fazer parte desse conjunto de músicos onde pontificavam além dele Charlie Parker, Dizzy Gillepsie e mais tarde Miles Davis, Thelonious Monk, distinguia-se. Foi um pianista incomparável, um dos mais importantes músicos do Jazz. Tinha um estilo único de improvisar e tocar. Um estilo muito particular, com grande economia de notas. Com três ou quatro notas sintetizava uma ideia que outros só conseguiam com o dobro ou triplo. Incluía espaços de silêncio que nunca se sabia quando eram propositados ou se eram hesitações, dúvidas no caminho a prosseguir. Estilo inconfundível em que, em cada tema ou improviso, as notas misturavam ritmo e melodia em doses nem sempre iguais, sempre muito contidas, a construir a clara evidência que nada mais é necessário quando é muito bem trabalhado.

Era um excêntrico, como o seu nome completo era, Thelonious Sphere Monk. Era tão parco nas palavras como nas notas do seu estilo impar que rompeu com vários paradigmas do jazz. Admirado e aceite pelos músicos de jazz, começou por ser mal aceite pela crítica. Mais tarde, quando Ornette Coleman, Eric Dolphy, Jonh Coltrane ou Sonny Rollins deram a volta ao jazz, foi considerado seu precursor o que recusava com veemência, verberando essa vanguarda jazzística como incoerente, um “monte de notas”.

Não foi um compositor muito produtivo mas muitas das suas composições como “Epistrophy”, “‘Round Midnight”, “Blue Monk”, “Straight No Chaser” e “Well, You Needn’t”, são temas que estão no reportório de qualquer músico de jazz.

Uma discografia seleccionada que procure estabelecer um cânone rigoroso do jazz, certamente incluiria pelo menos três discos de Thelonious Monk: “Monk’s Music”, “Brilliant Corners” e “Thelonious Monk with John Coltrane”.

A discografia de Thelonious Monk, a solo ou com formações de composição variável, não é muito vasta, se comparada com outros músicos de jazz com a sua estatura musical, mas é quase toda essencial. Ouvir Monk é ouvir sempre qualquer coisa de novo, mesmo insólito. Muitas de suas obras continuam a ser e sempre serão referências pela sua brilhante, única e, muitas vezes, heteróclita forma de linguagem em relação ao jazz padrão.

Os últimos seis anos da sua vida foram de silêncio, vivendo na mansão da sua amiga Panonica de Koenigswarter, a extravagante baronesa Rothichild, grande amante de gatos e jazz, protectora de muitos músicos, em sua casa morreu Charlie Parker, a quem já tinha dedicado uma belíssima música Panonica.

Antes de se silenciar tinha feito uma digressão pela Europa com um agrupamento a que chamaram Giants of Jazz, onde tocavam Dizzie Gillepsie, trompete, Sonny Stiit, saxofone, Art Blakey, bateria, Kai Widding, trombone, Al McKibbon,contrabaixo que esteve em Portugal, no primeiro e muito celebrado I Festival de Jazz de Cascais. Os que lá estivemos bem nos lembramos da presença hierática de Monk, o seu enorme corpo dobrado sobre o piano, os dedos rígidos a percutir as teclas, parecendo completamente alheado do que se passava à sua volta, despertando subitamente para incluir uma ordem diversa na música que estava a ser tocada e que os outros seguiam para agarrar as notas do piano, num ponto qualquer para subverter o que Monk tinha subvertido. Um fim excepcional de um festival extraordinário e irrepetível em todos os sentidos. Tinha sido iniciado pelo quinteto de Miles Davis, a introduzir no jazz sons totalmente inovadores com o seu trompete acusticamente amplificado e onde se fez notar um jovem pianista que tocava piano eléctrico, na altura, um nome em que só alguns iniciados já tinham atentado Keith Jarrett. Seguiu-se o quarteto de Ornette Coleman. Sessão memorável musical e politicamente quando o contrabaixista Charlie Haden introduziu a Song for Che, dedicando-a à luta de libertação dos povos africanos de Angola e Moçambique, o que foi aplaudido freneticamente pela assistência com inúmeros punhos erguidos. A ira do regime explodiu, a intervenção da Pide foi imediata e pôs em perigo o segundo dia de Festival. Houve ainda um memorável concerto de Dexter Gordon.

Outras histórias aqui lembradas para celebrar Monk numa das suas últimas aparições públicas.

PANONICA

WELL, YOU NEEDN’T

EVIDENCE

EPISTROPHY

 

Standard

6 thoughts on “Thelonious Monk

  1. Fernanda dos Santos diz:

    Surpresa agradavel esta num domingo com sol em Londres. Ontem tinha ido para a cama depois de ver na BBC4 um magnifico filme sobre T. Monk “”Storyville: The Jazz Baroness”, filme esse realizado por uma neta da dita Pannonica.

    Agora, vou ouvir o que tens acima inserido, fazer um tardio “brunch” e encaminhar-me com calma para o Wigmore Hall para um programa de lied de que mais tarde te darei novas.

    Saudacoes Academicas

    Maria Crabtree

    Gostar

  2. Carlos Alberto SantosPinho diz:

    Belo escrito e que boa selecção. Referes, e bem, a sua excentricidade que não raras vezes se verificava em palco, durante as suas exibições, afastando-se do piano para de pé, em palco, saborear com gestos os solos dos seus acompanhantes e indo depois a correr para de novo prosseguir a sua actuação. Há quem o compare, na inovação, a outro grande pianista, que foi Lenny Tristano.

    Gostar

Comente aqui. Os comentários são moderados por opção dos editores do blogue.

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s