Cultura

Antoni Tápies, a pintura como matéria

O pintor e escultor catalão Antoni Tàpies, considerado um dos maiores representantes europeus da arte abstracta do pós-guerra, morreu nesta segunda-feira, aos 88 anos, em Barcelona.

O seu percurso é bastante original. Empurrado pelo pai para estudar Direito, em 1942 uma lesão pulmonar interrompe os estudos e obriga-o a ficar internado durante quase dois anos. Começa a copiar Van Gogh e Picasso. O seu médico, quando sai da clínica, abandona o curso de direito e vai para Pais, estabelece contacto com Picasso. Mas são os surrealistas que o fascinam bem como o existencialismo, então no seu apogeu, com Sartre e Beauvoir a pontificarem nas tertúlias filosóficas, enquanto Breton é o papa do surrealismo. Vivendo esse ambiente efervescente, faz colagens, pinta, embrenha-se na filosofia budista e na literatura surrealista, faz amizade que durará para sempre com Miró. É um complexo caldo de cultura por onde vai fazendo o seu caminho sobre as leituras do período em que esteve retido no sanatório, quando a sua atenção se concentrava em Nietzsche, Dostoievsky e na música de Wagner.

Funda um grupo Dau el Set, que abandona três anos depois quando começa a explorar novas técnicas de desenho, colagens sobre plásticos, litografia, trabalhos em bronze, cimento e cerâmica.

Em 1960, Tàpies participou numa mostra da nova pintura e escultura espanhola no Museu de Arte Moderna de Nova Iorque e esteve representado na exposição “Before Picasso, After Miró”, do Museu Guggenheim da mesma cidade. É o reconhecimento internacional desse artista que se integrava na tradição cultural da Catalunha, com uma dimensão política simultaneamente autonómica e contra o franquismo (foi preso em 1966), numa altura em que a sua obra, utilizando materiais inusuais, explora fundamente a matéria. Em que os seus quadros estão sempre a escapar-se à limitação bidimensional e aos materiais e técnicas da pintura tradicional. Os materiais que usa apoderam-se da superfície pintada, como se o seu olhar pairasse sobre a terra, recuperando territórios que, deixando intocada a riqueza das suas texturas vão reviver nas suas “telas”, seja qual for o seu suporte.

Foi também um importante teórico, acreditava que “a pintura só valia a pena se fosse útil à sociedade, porque senão não valia a pena fazê-la”,  e um grande divulgador da arte contemporânea através da Fundação Antoni Tápies, que fundou 1990.

Em 2004, quando a audição e a vista fraquejavam, disse numa entrevista ao El País “A morte está sempre no jogo dos opostos. Na vida fazemos separações: o que chega e o que parte, o alto e baixo, o espiritual e o material”. Foi assim que este artista autodidacta sempre viveu.

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2 thoughts on “Antoni Tápies, a pintura como matéria

  1. Luiz Moita diz:

    O Manuel Augusto Araújo é uma enciclopédia viva e uma mais valia insubstituível neste “site”. Não é a primeira vez que a sua vasta cultura é aqui elogiada. Mais um excelente texto que certamente todos agradecemos .

    Gostar

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